Capítulo 2

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Oitenta e seis dias antes

Estou acordada a quase três horas e ainda nem amanheceu.

É impossível dormir com os pesadelos constantes, e meus olhos queimam pela falta de descanso.

"— O que você está fazendo, Mia?"

Tapo os olhos com as mãos e aperto até ver pontos negros. A voz do meu irmão ainda não saiu da minha cabeça.

Deveria ficar grata por ainda me lembrar da voz dele, mas não nesse caso. Não quando ele me julga pelo que vou fazer.

A lista não é grande, mas com certeza vai levar tempo para que eu consiga fazer o que se pede; talvez até o fim da estação.

Lá fora está nevando. Sinto vontade de abrir mais a janela e observar os flocos caindo enquanto amanhece; mas não faço isso. Não consigo sair da cama.

Nos meus sonhos meu irmão não sorri como costumava, seus olhos verdes idênticos aos meus estão tristes e acusatórios.

Fico na cama até o dia clarear, e mais uma vez me forço a levantar.

A dor de cabeça vem forte hoje, provavelmente por passar metade da noite acordada.

Não ouço o som da televisão ligada, talvez a Kat também não esteja bem o suficiente para levantar. Com um suspiro, levanto a tela do meu notebook e abro o arquivo criptografado na tela de início.

A lista é clara: devo fazer isso com o máximo de descrição possível. Como se alguém que planeja suicídio saísse gritando por aí.

Visto meu moletom e minha calça jeans gasta. Essa blusa era do meu irmão, minha mãe deu a ele no aniversário de quinze anos. Lembro que ele amou a blusa e eu também, quando ele viu que eu tinha gostado deu ela para mim.

Na época eu era baixinha e magrela, não que eu ainda não fosse assim, mas eu era mais. Ele me disse que quando eu crescesse ela serviria.

É Alan, parece que você estava certo.

Respiro fundo, passo a escova mais ou menos no cabelo, e escovo os dentes.

Hoje eu começo a cuidar das coisas, e admito que algumas delas vão ser dolorosas de fazer e não  sei se consigo.

Desço as escadas com cuidado para as meias não escorregarem no piso. Quando passei pela porta do quarto da Kat não ouvi nada, apenas o silêncio e minha respiração. Ela deve estar dormindo.

Essa casa costumava ser um barulho que só. Eu e meu irmão deixávamos nossos pais de cabelo em pé. Mesmo já sendo adolescente, ele agia como criança só para me agradar.

Engulo em seco.

Não é justo que minha família tenha acabado assim; foi tão rápido, e de forma tão trágica. Meu irmão primeiro, depois meu pai.

Der repente começo a sufocar. As paredes repletas de lembranças me fazem perder o ar. Não aguento ficar aqui.

Com o máximo de rapidez que consigo, e sem me preocupar em fazer silêncio, corro de volta para o quarto e coloco as botas. Meus dedos estão tremendo e a dor de cabeça parece  só aumentar. Pego o casaco antes de sair do quarto.

Não sei como consigo descer as escadas sem cair, não faço ideia de como destranquei a porta da frente e saí. Só sei que a sensação de sufoco está desaparecendo e minha respiração voltando ao normal.

Saio andando pela cidade sem rumo. Apesar da dor de cabeça, coloco os fones de ouvido alto o suficiente para não ouvir nada a minha volta. Coloco as mãos e o celular no bolso do casaco e foco no caminho a minha frente.

Deixe-me Ir / PARADOHistórias para pegar e não largar. Descubra agora