— E então? — pego meu café com leite da mão da garçonete e olho para o Gus sem entender — Como foi a sua volta?
— Menos conturbada do que eu imaginei — dou um gole no café e acabo queimando a língua — Nós não brigamos, ainda.
— Ainda? — ele ri — Você, sempre otimista.
Acabo rindo.
— O que posso fazer? — ele ri e bebe seu próprio café.
Andamos pela cidade em silêncio enquanto eu bebo meu café e ele o dele.
A biblioteca não é muito longe de casa, mas parece uma eternidade com esse frio. Não neva, mas está mais frio do que ontem.
Estamos quase chegando, quando ouço o som de violão. Paro no lugar, escutando. Mesmo sem a letra, eu conheço a melodia e no mesmo instante sinto um arrepio.
Não acredito.
— Tudo bem? — meu amigo pergunta — Mia.
Peço para ele fazer silêncio com um gesto, e ele entende.
Então ele começa a cantar.
"Não desista.
Aguenta firme por mais um dia."
Ele está aqui.
Vou em direção a música e encontro um pequeno círculo em volta de alguém tocando. Me enfio entre as pessoas e tento chegar até ele.
Quando chego, a música já terminou e as pessoas aplaudem com entusiasmo.
— Obrigado! — ele agradece, com o mesmo sorriso que ele me dirigia no rosto — Obrigado!
Aos poucos, as pessoas vão se dissipando e eu vou ficando a vista, mas ele ainda não me viu.
Meu coração bate disparado e minhas mãos tremem tanto que tenho que apertar o copo com mais força. Não o vejo desde aquele dia, e não esperava vê-lo aqui, na minha cidade.
— Mia! — meu amigo grita, alto o suficiente para que o Adam ouça. Ele levanta a cabeça e me vê. — Mia!
Ouço meu amigo correr até mim, mas não desvio o olhar do Adam.
Ele parece sem saber o que fazer por um tempo, então força um sorriso tímido e articula um desculpe sem som.
Faço que sim e sorrio fraco.
— Mia, o que deu em você? — meu amigo segura meu ombro e eu me viro para ele — O que deu em você pra sair andando do nada? — aceno com a cabeça na direção do Adam e ele olha. — Ah, entendi.
Ele se põe na minha frente de forma protetora e encara o Adam, exatamente igual aquela noite no bar. A noite em que nos conhecemos.
Adam coloca as notas no bolso, o violão nas costas e vem até nós. A cada passo, meu coração dá um pulo no peito.
— Oi Gus — cumprimenta — Mia.
— Adam — respondo, em tom vazio. — O que está fazendo aqui?
Ele sorri de lado, me fazendo lembrar do meu irmão outra vez. Mas agora, tão perto de onde aconteceu, dói mais.
— Tenho feito algumas apresentações por aí — ele coça a nuca, sem jeito — Passei por umas três cidades antes de chegar aqui, desde...
— Desde aquele dia — completo. Ele assente, ainda sem jeito.
— Claro que eu não sabia que você estaria aqui, se não eu teria avisado. — faço que sim.
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Deixe-me Ir / PARADO
Fiksi Remaja[GATILHO] [SUICÍDIO] Algumas feridas, nem mesmo o tempo é capaz de curar. Mia é rejeitada pela mãe desde a morte de seu irmão mais velho, e após perder seu pai, ela não vê motivos para continuar. Sozinha e desesperada, ela não encontra motivos par...
