Capítulo 12

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Sessenta e três  dias antes

Quando eu era mais nova e saía de férias com a minha "família", parecia que tudo estava diferente na volta. As mesmas pessoas pareciam diferentes, os mesmos lugares tinham  cheiro estranho, era como se fosse uma segunda viagem.

Mas hoje, quando o ônibus chega na estação, nada parece estranho. As mesmas pessoas não parecem estranhas, os lugares são os mesmos e a minha dor é a mesma. Nada mudou.

— Preparada? — olho para o Gus.  Meu amigo me olha com pesar. Faço que não.

— Alguma vez eu já estive? — ele faz que não e me entrega a minha mala, colocando a sua mochila ombro.

Do lado de fora, a família do Gus espera por ele, mas minha mãe não está aqui para me receber.

Respiro fundo quando desço do ônibus, sentindo o ar úmido do Oregon. Até ele me faz ficar melancólica.

— Filho! — me viro na mesma hora que o Gus. Clara acena para nós, emocionada.

— Preparado? — pergunto, ele faz que não e me olha apavorado. A mãe dele tem o costume de ser bem... Como vou dizer? Carinhosa demais.

Por isso ele gosta da minha mãe, ele diz que com ele pelo menos, ela é carinhosa de forma moderada. Eu não me iludo com isso, sei que minha mãe perdeu a capacidade de dar carinho a muito tempo e que ela só o trata bem, porque faz ela lembrar do meu irmão.

Talvez nem seja por isso. Eu também a faço lembrar do meu irmão, mas de uma forma diferente. Eu a lembro de como ele morreu.

E eu não significo nada para ela, já ele.

— Filho — os olhos da Clara estão úmidos de lágrimas — Senti tanta saudades sua.

Ela o envolve em um abraço, apesar de ser menor do que ele. O pai do Gus também se junta a eles, e logo estou sobrando outra vez.

Mal me lembro da última vez que eu, meu pai, meu irmão e minha mãe nos abraçamos. Faz muito tempo.

Sinto o nó na minha garganta apertar e desvio o olhar. Não choro desde a noite em que o Adam me beijou.

Aquele dia eu chorei a noite toda e no dia seguinte, descobri que ele tinha viajado.

Não sei o que eu senti, e nem faço questão de saber.

Pelo menos esse sumiço dele me deu tempo o suficiente para cumprir alguns itens da lista.

— Mia — olho para a mãe do Gus. Ela está com os braços abertos e sorri para mim. — Posso te dar um abraço?

Ela sabe que sim, mas os olhos dela lacrimejam mais e os meus também.

Me jogo em seus braços e deixo que ela faça o que mais ninguém vai fazer: deixo que ela me dê carinho e um pouco de amor materno.

♦️

— Pai! — minha garganta doía, mas continuei gritando — Alan!

Não demorou muito e ouvi os passos pesados na escada, logo meu pai e meu irmão estavam parados na porta do meu quarto.

Meu pai é um pouco parecido comigo, olhos verdes e cabelo castanho escuro, se bem que os meus são pretos.

O Alan joga o cabelo para trás e suspira.

— O que aconteceu? — ele pergunta, sua voz saindo rouca —Está tudo bem?

Deixe-me Ir / PARADOHistórias para pegar e não largar. Descubra agora