11 de dezembro de 2014
Meu pai sempre disse que mesmo antes de eu nascer, meu irmão já me dava apelidos e conversava comigo. Acho que é por isso que éramos tão ligados.
Meu irmão também me contou que o papai era tão apaixonado por mim antes de eu nascer quanto é agora, mas ninguém nunca falou da mamãe.
Sempre soube que ela não me amava como ao Alan. Com ele ela era mais carinhosa, compreensiva, mais mãe. Comigo ela era sempre grossa e insensível (com exceção de alguns momentos) mas parei de me importar com isso. Eu tinha meu pai e o meu irmão, isso já era mais do que eu merecia.
Nós duas sempre tivemos uma relação difícil, mas nada comparado aos últimos sete dias.
Ela passou os primeiros quatro dias trancada no quarto, ignorando tudo e todos que chegavam para nos dar os pêsames. Eu os ouvi brigando todos os dias, gritando que eu era a culpada, que ela trocaria a minha vida pela do Alan.
Nesse dia eu saí correndo de casa e passei a noite fora. Fui encontrada pelo Gus e meu pai no dia seguinte, tremendo de frio e ainda sem querer voltar para casa.
Papai disse que era porque ela estava triste, mas com onze anos você já não acredita em tudo que te contam.
No dia seguinte ela saiu do quarto e passou a perambular pela casa em silêncio, se demorando horas em uma foto da parede. Ela se isolou no próprio luto, enquanto meu pai ficou sozinho.
Eu também me isolei. Fiquei dois dias sem comer, não saia do quarto para quase nada, não conseguia mais dormir e praticamente parei de sorrir.
Sete dias. Faz só sete dias mas parece uma eternidade.
Reviro a comida no meu parto, sem apetite. Mamãe também parece sem fome, ela nem encostou na comida.
— Está sem fome filha? — levanto o olhar. Meu parece implorar para que eu coma, mas só consigo negar com a cabeça — Mal tocou na comida.
— Desculpe — é tudo o que digo. Não consigo olhar no rosto do meu pai por mais de alguns minutos.
O ouço suspirar.
— E você Kat? Também não está com fome?
Ouço minha mãe rir e levanto a cabeça. Ela parece prestes e pular no meu pescoço.
— Não posso. — ela diz baixo, depois mais alto: — Não consigo comer perto dela. — mesmo depois de dias sofrendo essas agressões, ainda sinto meu peito doer.
— Kat, por favor. — meu pai suspira — Não comece com isso de novo.
Suspiro e cubro o rosto com as mãos.
— Por favor? Joshua, ela matou nosso filho.
— Katherine! — meu pai grita, ouço o som de talheres tilintando logo em seguida — Ela não é uma assassina, é nossa filha. A morte do Alan não tem nada a ver com ela.
Ouço minha mãe arfar. Falar da morte do Alan tão abertamente assim ainda é doloroso.
— Ela não é mais minha filha — ela diz calmamente. Tiro as mãos do rosto e olho para ela. Suas mãos estão tremendo em cima da mesa, e seus olhos marejados.
Minhas próprias mãos começam a tremer.
Quando ela disse que não queria que eu a chamasse de mãe, eu entendi. Sabia que ela estava triste com a morte do meu irmão e entendia que olhar para mim era demais, mas agora, ouvi-la falar desse jeito machuca muito. Muito mesmo.
— O que foi? — percebo que estou encarando, mas não abaixo a cabeça. Não aguento mais isso tudo. — Não acredito que você...
— O que foi que eu fiz pra você? — pergunto calmamente e acho que é por isso que ela para. É assustador até para mim.
Ela engole em seco. Meu pai também parece espantado.
— Como? — a voz dela sai engasgada.
— O que foi que eu fiz pra você? — minha voz sai um pouco mais agressiva. Só um pouco da raiva que está crescendo em mim. — Por que você me odeia? Eu sempre fiz tudo pra te agradar, te deixar feliz, mas você sempre me ignorou. Você nunca me deu um pouco do amor que deu ao Alan; nem um pouco do amor que meu pai e meu irmão me deram!
Minha voz se torna mais aguda a cada palavra. Meu pai e minha mãe me olham espantados, sem saber como reagir. Eu mesma não sei como reagir.
— Me diz mãe, porque eu realmente não entendo. — paro, o nó na minha garganta me faz parar. Lágrimas escorrem silenciosas pelo meu rosto e vejo seus próprios olhos marejados. — Por que, Kat? Eu não tive culpa. Não sei como meu irmão caiu, não sei nem se ele realmente caiu, e você fica jogando a culpa em mim.
Soluço, parando mais uma vez para recuperar o fôlego.
— Eu não matei meu irmão. Eu amava o Alan, nunca faria nada para machucá-lo. — o silêncio na mesa é constrangedor.
Me levanto da mesa e corro escada acima, ignorando o que minha mãe diz e meu pai me pedindo para ficar. Não aguento mais tudo isso.
— Eu não matei meu irmão! — grito com o rosto enfiado no travesseiro. — Eu não o matei... Não fui eu...
Depois disso minha memória se torna turva, não consigo me lembrar do que aconteceu depois. Acho que meu pai subiu, não tenho certeza se falei com a Kat, talvez nós só gritamos uma com a outra de novo.
Acho que é melhor assim, que eu não me lembre. Às vezes é melhor deixar a mente escolher o que quer lembrar.
Só queria que ela também quisesse esquecer a metade da minha vida.
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Deixe-me Ir / PARADO
Fiksi Remaja[GATILHO] [SUICÍDIO] Algumas feridas, nem mesmo o tempo é capaz de curar. Mia é rejeitada pela mãe desde a morte de seu irmão mais velho, e após perder seu pai, ela não vê motivos para continuar. Sozinha e desesperada, ela não encontra motivos par...
