2 de dezembro de 2014
Alan
"Oi pequena,
Sinto muito que seja você a endereçada desta carta, mas nenhum dos nossos pais me entenderiam, apenas você.
Mia, se está lendo isto quer dizer que eu não estou mais vivo. Sinto muito em te causar essa dor, mas foi a única maneira que eu encontrei de acabar com a minha.
Você foi a única coisa que me manteve vivo, me fez aguentar todo esse tempo.
Eu te amo maninha, fica bem.
Me perdoe."
Me recosto na cadeira soltando um suspiro fundo. Estou tentando escrever essa carta a dias, senão semanas. Desde o momento em que decidi acabar com a minha vida.
É, semanas. Não decidi cometer suicídio de uma hora para outra, como a maioria das pessoas pensam que isso acontece. Não, essa decisão foi debatida, calculada e pensada nos mínimos detalhes. Pode até parecer meio sórdido tudo isso, mas seria pior se eu resolvesse pegar uma lâmina e cortasse meus pulsos, aqui e agora.
Eu poderia fazer isso. É, eu poderia. Admito que estive pensando nisso durante todo o tempo que passei sentado aqui tentando escrever para a minha irmã minha carta de morte. Minha única chance de me despedir dela. Tentei escrever para os meus pais também, mas se mostrou uma tarefa muito mais acima da minha capacidade do que eu imaginei, então decidi que seria melhor assim: não deixar nenhuma carta para eles. Eles sabem perfeitamente tudo o que eu tenho passado durante todos esses anos.
Meus pais sabem que eu tenho depressão e admito que fizeram de tudo para me ajudar, e quando digo tudo, quero dizer tudo que minha mãe achou que iria funcionar. Ela só queria me ajudar, eu sei disso, mas ela acabou atrapalhando mais do que ajudando.
Ela fez mais do que eu queria, mas não era o que eu precisava.
Não sei quando isso começou, mas sei que cresce a cada dia e eu não aguento mais tudo isso. Ter que levantar da cama todos os dias, olhar pra eles e fingir "Vocês conseguiram, estou saudável outra vez!" está me deixando maluco.
E a pior parte de tudo isso, é ter que fingir que estou bem, não só pra eles, mas para todos. É, eu tenho que fingir, e admito que sou um bom ator. Meus amigos não perceberam nada, nem minha irmãzinha que me conhece melhor do que eu mesmo conseguiu perceber.
Mia.. Ah, a Mia. Minha linda irmãzinha. De todas as coisas, ter que fingir pra ela é o mais doloroso. Ela é tão alegre, tão feliz apesar de todo o desprezo que minha mãe da a ela, e sei que uma bomba dessas atrapalharia sua vida.
E isso eu não quero. Não suportaria saber que sua vida parou por minha causa, e eu sei que é isso que ela faria se soubesse. Mas espero que não seja isso que ela vá fazer quando eu não estiver mais aqui.
Espero que ela fiquei bem.
Suspiro de novo, passando as mãos pelo cabelo impaciente. A ansiedade tem estado cada vez pior.
Eu sei que eu mudei, e ela percebeu um pouco. Ela foi a única que percebeu que comecei a mudar, mas ainda não sabe o motivo disso.
Tudo bem, não importa. Logo ela saberá.
Fecho os olhos e apoio a testa na minha escrivaninha. Estou tão cansado.
— Acorda! — abro os olhos e ofego quando braços finos circundam meu corpo, me prendendo. — Você anda muito preguiçoso.
Respiro fundo, rezando para que meu coração se acalme e que ela não veja a carta. A carta!
Me levanto e ela prende os braços com mais força ao meu redor, seguro suas mãos, nos carrego até minha cama e me jogo.
— Sai! — ela grita, rindo. — Você vai me sufocar.
— É justo. — rio também. — Você quase me matou ali, então merece isso.
Ela joga uma almofada na minha cara e se senta de pernas cruzadas, seus longos cabelos pretos caindo como uma cascata ao redor do rosto. Ela já tem onze anos, mas parece que foi ontem que a peguei no colo pela primeira vez.
— Ah não — ela fanze o nariz e junta as sobrancelhas, ela sempre faz isso quando não gosta de alguma coisa ou quer dizer algo que ela sabe que não pode. — Você está me olhando demais, igual ao papai.
Ela joga mais uma almofada em mim, mas essa eu consigo pegar.
— E o que tem? — jogo a almofada nela e ela cai de costas. Aproveito a oportunidade para levantar e ir até a carta. — Se eu tenho olhos, então obviamente, tenho que ver.
Minhas mãos tremem enquanto guardo a carta o mais rápido possível num pequeno envelope e a enfio na única gaveta que tem chave. Tranco.
— Engraçadinho! — ela ri. Ouço seus passos vindo até mim. — O que você tem? Tá muito estranho.
Rio, não uma risada forçada, uma risada de verdade. Como eu disse: Ela percebe!
— Engraçadinha! — passo meu braço pelo pescoço dela e começo a caminhar pra longe dali, para fora do quarto. Enfio a chave no meu bolso. — Então, o que a trouxe aqui, no meu humilde refúgio?
Ela ri. Adoro o som da risada dela.
— Vim te chamar pra assistir Anime comigo, o papai tá dormindo.
— E você resolveu me acordar? — ela assente. Sorrio e suspiro mais uma vez. Ela vai sentir falta disso.. — Tudo bem, vamos fazer pipoca pelos menos.
— Isso!
Ela grita e começa a me puxar para a cozinha.
É só por causa dela que eu ainda estou aqui. É só por causa dela que eu aguento tudo isso. É por causa dela que eu esperei. Ela é a única razão para eu viver.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Deixe-me Ir / PARADO
Dla nastolatków[GATILHO] [SUICÍDIO] Algumas feridas, nem mesmo o tempo é capaz de curar. Mia é rejeitada pela mãe desde a morte de seu irmão mais velho, e após perder seu pai, ela não vê motivos para continuar. Sozinha e desesperada, ela não encontra motivos par...
