Setenta e cinco dias antes
Desde que eu era pequena sempre fui de ficar mais sozinha do que acompanhada. Claro que eu e meu irmão fazíamos companhia um para o outro, mas quando ele não estava eu ficava só. Não tinha muitos amigos e nem quando o Gus apareceu isso mudou.
Eu estava sozinha no quarto aquela noite, quando ouvi os gritos. Meus pais brigavam constantemente e não me importei muito, não era algo com que eu devesse me preocupar. Mas então eu ouvi a voz dele.
Foi como se um gatilho fosse ativado dentro de mim. Saltei de debaixo das cobertas e fui até as escadas na ponta dos pés.
Meus pais estavam de costas, de forma que não podiam me ver, já o Alan estava de frente. Eu conseguia vê-lo perfeitamente e ele também podia me ver, bastava levantar a cabeça.
Seu rosto estava molhado pelas lágrimas e ele parecia desesperado e furioso ao mesmo tempo.
Minha mãe diz algo que eu não consigo entender, mas o Alan sim.
— Não! — meu irmão soca a parede, fazendo com que eu e meus pais se assustem — Vocês não entendem. Não sabem como é.
— Tem razão — meu pai deu um passo a frente — Eu sei que não entendemos, mas se você aceitar a nossa ajuda talvez nós...
— Não! — o Alan grita outra vez — Vocês...
Ele levanta a cabeça, e então me vê. Não me encolho, fico apenas olhando para ele, esperando ele me dedurar para os nossos pais mas ele não faz isso. Meu irmão apenas desvia o olhar.
— Apenas me deixem em paz — ele enxuga as lágrimas com raiva e vem em direção a escada.
Me escondo quando meus pais viram e espero meu irmão passar por mim.
Quando ele passa tento pegar seu pulso, mas ele o puxa para longe de mim.
Vou atrás dele.
— Alan! — sussurro — Alan, espera!
Ele para na porta do quarto, mas não vira para mim.
— Vai pra cama, Mia — ele sussurra — Está tudo bem.
Meu irmão fecha a porta atrás de si e eu não tenho outra opção a não ser voltar para o meu quarto.
Fico na minha cama deitada, tentando entender o que foi aquilo na sala.
O que meus pais não entendem? Do que meu irmão estava falando?
Estava pensando nisso quando vi uma sombra por de baixo da porta. Na hora eu soube quem era.
Peguei meu casaco, coloquei meu tênis o mais rápido que pude e saí correndo atrás do meu irmão.
A rua estava escura mas meu irmão não parecia estar com medo, pelo contrário, ele andava com segurança pela rua e nem percebeu que eu o seguia.
A noite estava fria e meu casaco mal conseguia me manter aquecida.
Estranho o caminho que meu irmão toma. Geralmente ele vai para a ponte ou para algum lugar menos movimentado, mas ele está indo direto para a parte comercial. Estranho mais ainda quando ele entra em um prédio de cinco andares recém inaugurado.
Entramos pela porta dos fundos, ele sobe as escadas correndo e eu vou logo atrás.
Cheguei no topo do prédio ofegante e assustada. Nunca entrei aqui e o prédio parece estar vazio, como se ninguém viesse aqui a muito tempo.
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Deixe-me Ir / PARADO
Teen Fiction[GATILHO] [SUICÍDIO] Algumas feridas, nem mesmo o tempo é capaz de curar. Mia é rejeitada pela mãe desde a morte de seu irmão mais velho, e após perder seu pai, ela não vê motivos para continuar. Sozinha e desesperada, ela não encontra motivos par...
