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Chaol não entendeu o que Celaena contara, as palavras que sussurrara no ouvido dele. Era uma
data. Sem sequer um ano para acompanhar. Um mês e um dia — uma data que se passara semanas
e semanas atrás. Foi o dia em que Celaena saiu da cidade. O dia em que ela perdeu a cabeça em
Endovier no ano anterior. O dia em que os pais dela morreram.
Chaol ficou no cais muito depois de o navio ter saído do porto, observando as velas ficarem
menores e menores conforme o capitão remoia a data incansavelmente. Por que Celaena contara a
ele tudo sobre aquelas... aquelas chaves de Wyrd, mas tornou aquela dica tão obscura? O que
poderia ser mais importante do que a verdade terrível sobre o rei que o capitão servia?
As chaves de Wyrd, embora o aterrorizassem, faziam sentido. Explicavam muita coisa. O
imenso poder do rei, as jornadas dele que terminavam com grupos inteiros morrendo
misteriosamente, como Cain tinha ficado tão forte. Até aquela vez em que Chaol olhara para
Perrington e vira os olhos do duque escurecerem de um modo tão estranho. Mas quando Celaena
contou ao capitão, será que sabia que tipo de escolha lhe havia deixado? E o que ele poderia fazer
em relação àquilo de Anielle?
A não ser que Chaol conseguisse encontrar um modo de se desvencilhar da promessa que
fizera. O capitão jamais dissera quando iria para Anielle. Poderia pensar nisso no dia seguinte. Por
enquanto...
Quando Chaol voltou para o castelo, foi para os aposentos de Celaena vasculhar o conteúdo da
escrivaninha. Mas não havia nada sobre aquela data. O capitão verificou o testamento que ela
redigira, mas tinha sido assinado vários dias depois. O silêncio e o vazio nos aposentos ameaçavam
engolir Chaol por inteiro, e ele estava prestes a sair quando viu a pilha de livros meio escondida nas
sombras da escrivaninha.
Genealogias e diversas crônicas reais. Quando Celaena levara aqueles livros para lá? Chaol não
os vira na noite anterior. Seria outra pista? De pé diante da escrivaninha, pegou as crônicas reais —
todas dos últimos 18 anos — e começou a ler em reverso, uma a uma. Nada.
Então chegou à crônica de dez anos antes. Era mais espessa do que todas as outras — como
deveria ser, considerando os eventos que tinham ocorrido naquele ano. Mas quando Chaol viu o
que estava escrito a respeito da data que Celaena dera a ele, tudo congelou.
Esta manhã, o rei Orlon Galathynius, seu sobrinho e herdeiro, Rhoe Galathynius, e a esposa de
Rhoe, Evalin, foram encontrados mortos. Orlon foi assassinado na cama, no palácio real, em
Orynth, e Rhoe e Evalin foram encontrados mortos em suas camas, na mansão campestre à
margem do rio Florina. Ainda não se sabe do destino da filha de Rhoe e Evalin, Aelin.
Chaol pegou o primeiro livro de genealogia, aquele com a linhagem das casas reais de Adarlan
e Terrasen. Será que Celaena estava tentando dizer que sabia a verdade sobre o que acontecera
naquela noite — que poderia saber onde a princesa perdida, Aelin, estava escondida? Que estava lá
quando tudo aconteceu?
Chaol folheou as páginas, verificando as genealogias que já havia lido. Mas então se lembrou
de algo sobre o nome Evalin Ashryver. Ashryver.
Evalin vinha de Wendlyn, fora uma princesa na corte do rei. Com as mãos trêmulas, Chaol
pegou um livro que continha a árvore genealógica da família real de Wendlyn.
Na última página, o nome de Aelin Ashryver Galathynius estava escrito no canto inferior, e,
acima dele, o da mãe dela, Evalin. Mas a árvore genealógica descrevia apenas a linhagem feminina.
A feminina, não a masculina, porque...
Duas linhas acima do nome de Evalin estava escrito Mab. A bisavó de Aelin. Ela era uma das
três Rainhas-Irmãs feéricas: Maeve, Mora e Mab. Mab, a mais jovem, a mais bela, que fora
transformada em deusa ao morrer, conhecida agora como Deanna, Senhora da Caça.
A lembrança o atingiu como um tijolo na cabeça. Naquela manhã de Yule, quando Celaena
parecera tão desconfortável ao receber a flecha dourada de Deanna — a flecha de Mab.
E Chaol contou a árvore genealógica, pessoa após pessoa, até...
Minha bisavó era feérica.
Chaol precisou apoiar a mão contra a mesa. Não, não podia ser. Ele se voltou para a crônica
ainda aberta, então virou a página para o dia seguinte.
Aelin Galathynius, herdeira do trono de Terrasen, morreu hoje, ou em algum momento na noite
anterior. Antes que a ajuda pudesse chegar à propriedade dos seus pais mortos, o assassino que
poupara a menina na noite anterior retornou. O corpo ainda não foi encontrado, embora alguns
acreditem que tenha sido jogado no rio atrás da casa dos pais.
Celaena disse certa vez que Arobynn havia... que a havia encontrado. Encontrado quase morta
e congelada. Na margem de um rio.
Chaol estava apenas tirando conclusões. Talvez Celaena quisesse somente que ele soubesse
que ela ainda se importava com Terrasen, ou...
Havia um poema rabiscado no alto da árvore genealógica da família Ashryver, como se algum
aluno o tivesse escrito como lembrete ao estudar.
Olhos Ashryver
Os olhos mais lindos, de lendas passadas
Do mais claro azul, com bordas douradas.
Olhos azul-claros, com bordas douradas. Um grito contido saiu de dentro de Chaol. Quantas
vezes havia olhado para aqueles olhos? Quantas vezes tinha visto Celaena desviar o olhar do rei,
aquela pequena prova que ela não podia esconder?
Celaena Sardothien não era aliada de Aelin Ashryver Galathynius.
Celaena Sardothien era Aelin Ashryver Galathynius, herdeira do trono e rainha de Terrasen
por direito.
Celaena era Aelin Galathynius, a maior ameaça viva a Adarlan, a única pessoa que poderia
erguer um exército capaz de enfrentar o rei. Agora, ela era também a única pessoa que sabia a fonte
secreta do poder do rei — e que buscava um modo de destruí-la.
E Chaol acabara de mandá-la para os braços dos maiores aliados em potencial: a terra natal de
sua mãe, o reino de seu primo e o domínio de sua tia, a Rainha Maeve dos feéricos.
Celaena era a rainha perdida de Terrasen.
Chaol caiu de joelhos.
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coroa da meia noite
FanfictionCelaena Sardothien, a melhor assassina de Adarlan, tornou-se a assassina real depois de vencer a competição do rei e se livrar da escravidão. Mas sua lealdade nunca esteve com a coroa. Tudo o que deseja é ser livre e fazer justiça. Nos arredores do...
