O homem levantou a vista e encarou Claire que não se intimidou.
Ele a estudou dos pés a cabeça e franziu o cenho.
Ela inclinou um pouco a cabeça de lado,um gesto que fazia quando se preparava para argumentar.
As irmãs do orfanato já conheciam esse gesto de Claire, que denotava uma personalidade forte e uma inteligência aguçada.
-Porque agrediu esse jovem menina?Acaso pensa que está no meio dos selvagens como você?-ironizou o homem.
-Selvagem,eu?-Claire riu- Se calhar sou muito mais civilizada que todos os presentes aqui.
Perdoe a minha excessiva sinceridade!É que não tenho muito tato como sabe.Coisas de selvagens!
Falou sem deixar de encarar o homem nos olhos.Ninguém a humilharia.
-Vejo que é muito arrogante e não sabe qual o seu lugar.
-O meu lugar é onde estou agora,neste vagão pois como todos os presentes eu paguei a minha passagem e tenho direito de viajar em segurança como todos.
-Segurança??Você que está nos colocando em perigo, com esse seu comportamento.-disse o homem bêbado.-Proponho que a deixemos aqui para morrer de frio.
-Vejo que inteligência não é o seu ponto forte.Essa sua proposta de fato me faz sentir muito importante!-disse Claire rindo.
-Propõe que se pare um comboio cheio de gente, no meio do nada a noite para me deixar morrer de frio?Só rindo mesmo.
-Vamos parar com essa conversa desnecessária.-sentenciou o revisor,olhou para Claire e disse:
-Acompanhe-me senhorita e traga a sua bagagem.
Claire seguiu suas ordens e acompanhou-o sentindo os olhares e palavras de desprezo dos restantes passageiros.
-Preta louca!Vai embora!
-Estou indo,não vê?
O revisor levou-a para o fundo da locomotiva sem dizer nada.
Parou em frente a uma porta, abriu-a e entrou.Claire fez o mesmo.
Era um vagão cheio de palha!Um ar frio penetrou sua pele e ela tremeu.
Lembrou-se de seu casaco na bolsa.Tirou-o e vestiu-o calmamente, sem tirar os olhos do revisor que estava de costas para ela.
-Porque me trouxe aqui senhor?
Ele girou nos calcanhares bem devagar suspirou e disse:
-Você é sempre assim tão agressiva? Só estou tentando ajuda-la.Se ficasse naquele vagão teria sido linchada.
-Mas eu não fiz nada!Só estava me defendendo!
-Acho que já chega desse discurso senhorita!Creio que entende que para eles você não estava se defendendo,você era uma mulher negra que agrediu um homem branco.
-Mas...
-Mas nada!Sua reação foi imprudente.Poderia ter sido morta.
-Estou confusa!Você mesmo me chamou de selvagem.
-E queria o quê? Que eu a chamasse de princesa em perigo?Acorda!Não sei de onde você vem,mas está na hora de entrar no mundo real.Entenda que ,a nossa sociedade não é generosa com pessoas como você.O meu concelho é que tente ser discreta,não chame a atenção como acabou de fazer.
-Eu não chamei atenção de ninguém.Aquele homem tentou abusar de mim.Queria que eu ficasse calada?
-Você não deveria ter dado conversa a um estranho desde o início.
-Como sabe...-ele interrompeu-a.
-Eu vejo tudo no meu comboio!Acredite. Da próxima vez seja mais cuidadosa. Agora terei de deixa-la na próxima estação para sua segurança.
-Mas eu ainda estou longe do meu destino!
-Esperta como é, eu sei que encontrará uma solução.
-Porque está me ajudando?-quis saber curiosa.
-Porque você me lembra de alguém muito importante.-os olhos dele brilharam de nostalgia.
-Como se chama senhor?Gostaria de saber o nome da única pessoa que foi considerada comigo desde que saí do orfanato.
-Você vivia num orfanato?Agora entendo tudo.-disse rindo.
-Tudo?Saiba que por ter sido criada em um orfanato,não me faz uma menininha ingênua que não sabe nada da vida.
-Você me surpreende.Mas acho que ainda tem muito que
aprender.
-Ainda não me disse seu nome.
-Albert!
-Eu sou Claire!De novo agradeço pelo que fez por mim.
-Não tem que agradecer!Apenas seja mais prudente.Agora fique aqui e tente descansar um pouco.Virei avisa-la quando chegarmos a estação.-disse e saiu dali deixando-a sozinha naquela frio e escuro lugar.
Ela procurou um canto que parecia menos húmido e encolheu-se para tentar manter o calor do seu corpo.
O tempo passava devagar e aproveitou para focar seus pensamentos nos acontecimentos daquela noite.
Nunca imaginaria que a cor da pele de uma pessoa implicasse tanto na forma como os outros a julgaram.
No orfanato sempre teve muitas amigas,e a madres não faziam distinção no tratamento entre ela e as outras meninas.
Sempre achou estranho que nos livros que lia nunca encontrar um herói ou uma heroína negros.Não dava muita importância a isso,até agora.
Agora entendia que tinha que se adaptar a realidade do mundo que vivia,mas jamais deixaria se humilhar ou abaixaria a cabeça para ninguém que se sentisse superior a ela por sua cor.
Ela seria a protagonista da sua vida.E com esse pensamento dormiu vencida pelo cansaço.
Fim deste capítulo.Espero que estejam gostando da jornada de Claire.Será que conhecerá Luc no próximo capítulo?
Leiam e saberão rsrsrsr.bjss😘😘
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Invisível (Completo)
RomanceNo final da década de 50, a jovem e órfã Claire Dubois foi contratada para trabalhar como tutora da sobrinha do Senhor do Chatêau La Fontaine. Luc de la Fontaine era um homem misterioso e pouco dado a demonstrações sentimentais.Sua frieza aristocrát...
