Suzane

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– Amiga aproveita a oportunidade e vai até ele – Adélia me dá um empurrãozinho, mas eu me mantenho firme.

– Se você tivesse visto a forma como ele me tratou não estaria me forçando a isso – bato em suas mãos.

– Eric faz parte do seu trio e no terceiro dia de aula vocês ainda não se falaram, o que acha que estou tentando fazer?

Engulo em seco. Observo Eric sentado no chão, recostado à coluna e com os fones nos ouvidos. De repente me pergunto que tipo de música ele curte, ou qual está ouvindo nesse exato momento. Provavelmente ele diria que não é da minha conta, se eu fosse lá perguntar.

– Me mandando para a boca do dragão, isso que está fazendo.

Adélia põe as mãos na cintura e faz aquela cara de interrogação com os lábios grossos contraídos.

– Dan não vai falar com ele, Suzane, você sabe o quanto ele é tímido. Tem que ser você.

Procuro Joana no meio da multidão, mas não a vejo. Se ao menos pudesse pedir que ela fosse comigo, talvez eu ficasse menos nervosa, mas ela não está em lugar algum.

– Até achei legal a professora nos pôr no mesmo grupo, mas agora estou apavorada – olho de Eric para Adélia. – Ele tinha uma ideologia formada sobre a gente e depois que Xavier o atacou, provavelmente tem ainda mais certeza de que estava certo.

– E daí? Também temos ideologias formadas sobre ele.

– Completamente preconceituosas, diga-se de passagem – refuto.

Adélia está sem paciência. Sei disso porque ela suspirou e insistir muito em algo que a deixe desconfortável não é sua maior qualidade. Mas o que posso fazer? Não é ela que vai ser atacada.

– Você tem muita sorte de ter ficado com Júlio e Rafaela – digo ainda que não goste muito da ideia. – Pelo menos ela não é tão agressiva.

– Suz você está mesmo nervosa pelo que houve antes ou por que está afim dele?

Eu engasgo e tenho um ataque repentino de tosse, arregalando os olhos para Adélia.

– Mal conheço o garoto!

– Tá, mas pode ter rolado um clima entre vocês – diz casualmente.

– Pois saiba que não houve clima algum – tusso outra vez e atiro a caixinha de suco na lixeira mais próxima. – Tem que parar de ler romances.

– Pare de enrolar e vai lá agora.

Adélia não tem controle absoluto sobre as próprias mãos e me empurra novamente, quase me fazendo cair quando não encontro degraus sob meus pés e sigo cambaleando. Mantenho a postura bem perto de Eric e agradeço por ele estar concentrado demais em seu celular para ter me visto se aproximando. Eu coço a garganta – seca, aliás –, mas ele não tira os olhos da tela. Coço de novo e ele não reage. Vou para frente dele, onde possa me ver melhor.

– Oi – digo.

Eric me olha sobre a tela do celular e depois baixa o olhar novamente.

– Você pode tirar os fones para conversarmos?

Ele não fala nada.

Odeio quando situações extremas me levam a fazer coisas que eu normalmente não faria, mas às vezes, sou obrigada a agir como meu irmão. Puxo o celular das mãos do garoto junto com os fones.

– Precisamos conversar – repito.

– Eu não quero conversar – ele fala. – Não com vocês...

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