Quando chegaram à igreja, Rupert tomou alguns minutos numa conversa privada com o padre. Colin manteve os olhos presos nele e sua mente vagueava na loucura que estava a acontecer. Pensou no irmão, no quanto ele arranjava tudo de forma tão ágil e subtil como se aquele absurdo fosse a coisa mais normal do mundo. Rupert simplesmente deslizava e resolvia as coisas ele mesmo, não importa o que fosse. Perguntou-se se ele percebia que nada daquilo era normal.
Perguntas que nunca passaram pela sua cabeça começaram a emergir, principalmente sobre a forma como todos os problemas que lhes assolaram na vida haviam sido resolvidos. Quem era seu irmão? Quem era aquele padre? De onde se conheciam? Por que ele era a pessoa ideal para celebrar seu casamento? Que vantagem tinha sobre Rupert para que não levantasse questões, simplesmente lhes abençoasse? Deviam ser contactos que ele teve ao longo do exercício do seu trabalho - ele sempre teve contactos para tudo. Até para as coisas mais improváveis do mundo.
Os dois continuavam a falar, alheios ao seu olhar examinador. Acenavam com a cabeça. Faziam pequenos gestos com as mãos. Trocavam risos subtis e continuavam a falar. Pareciam amigos. E ele nunca havia ouvido falar do padre.
- Amor! - Ariela chamou a sua atenção, também esteve a observa-los - Está preocupado?
- Olhando para ele, assim, você acha que lhe conhece? O Lupe.
Ariela engoliu em seco. Passou a mão pelo braço dele a lhe reconfortar. Que importava pensar isso naquele momento? Rupert era advogado. E dos melhores. É claro que conheceria pessoas questionáveis e estaria envolvido em situações complicadas de julgar para quem está a observar de longe. Sua carreira lhe impunha lidar com todo o tipo de gente, a cruzar barreiras que eles nunca tiveram que conhecer e a ir onde eles sequer imaginavam - tudo para evitar que os que defendia não conhecessem esses extremos. Mas nada disso importava naquele momento.
- Ele está apenas a ser um bom irmão. A cuidar de nós.
Colin sabia disso também. Não havia nada que Rupert não faria para lhe proteger. Ele já havia feito tanto por si que seria um escroto se não reconhecesse a pessoa incrível que ele era, e que, com certeza, não estaria onde estava hoje sem ele. Mas não podia ignorar sua preocupação. Ele escondia coisas dele. Esteve a chorar na semana anterior, Hope disse, e ele fugiu do assunto. Havia coisas da vida dele que não sabia, e isso tinha que acabar.
- Eu preciso de saber. - ele disse, e pegou a esposa pela mão e seguiram em direcção ao altar onde Lupe e padre Fillipo estavam. O padre apertou a mão de Rupert e seguiu pela direita onde estava a sacristia, endereçando um leve aceno com a cabeça aos noivos quando lhes viu aproximar.
Rupert sorriu para eles.
- Então? Os noivos estão nervosinhos? - brincou - Borboletas no estômago? Estrelas nos olhos!? Infelizmente não teremos a marcha nupcial. A banda e o coro participam por marcação.
- E o meu irmão, posso falar com ele? Aquele que me fala a verdade, não importa qual seja?
Rupert suspirou. Estreitou mais sua postura. Colin não ia parar. Olhou para o fundo da igreja. Hope andava num rompante pela igreja numa chamada ao celular, mão na cintura, casaco afastado a deixar à mostra o distintivo preso no cinto que ela tanto gostava de lhe exibir - aquela pose era bem característica dela. Algo bem estereotipado para detectives duronas de séries policiais.
- Vamos ter um pouco de privacidade - guiou-lhes para uma sala que estava do lado esquerdo depois de atravessar os bancos de madeira envernizada. Era uma compartimento escuro e bastante abafado. Demoraram um tempo a encontrar o interruptor para ligar a luz. Um confessionário, que irónico, pensou o mais novo dos irmãos Vaughn e Sanderson, mas decidiu guardar para si qualquer piada que fosse fazer sobre isso. Não havia mais clima para brincadeiras.
Girou pelo lugar e pensou quão infeliz havia sido ao entrar exactamente naquela sala. O confessionário. A sala da penitência. Naquele lugar fiéis da igreja se ajoelhavam, abriam seus corações e confessavam em voz alta seus pecados mais obscuros e buscavam o perdão do altíssimo. O que ele fazia ali? A se lavar do pecado da omissão ou então a cometer um outro libertando uma verdade sobre alguém que não estava mais ali para se explicar? Seria aquele o momento ideal para contar o que soube ao seu irmão? De que serviria? Para acumular outros problemas à bagagem que ele já carregava? Destruiria toda imagem heróica, embora não perfeita, que tinha do pai e da família. É preciso coragem e um alto senso de honestidade para desfazer o mundo de alguém com uma verdade tão pesada como a que guardava consigo. Não que falar duras verdades fosse problema, com seu trabalho havia destruído incontáveis vidas até com mentiras, mas quando se tratava do seu irmão as coisas mudavam totalmente de figura. Antes de irmão, Colin era seu melhor amigo, e a seus amigos protegia com tudo o que tinha.
- Estamos a espera. - Colin disse, e interrompeu a peregrinação pelo seu íntimo. Os dois olhavam para ele, já aborrecidos com tanto suspense.
- Omar não poderá reclamar seus direitos sobre Ariela se ela estiver casada exactamente contigo, com seu nome de baptismo.
- Meu nome verdadeiro? Eu não tenho nenhum registo oficial como Mirella.
- A igreja tem, na Itália. E o padre Fillipo vai tratar disso, não se preocupe.
Ariela olhou para Colin, mas ele mantinha os olhos no irmão.
- Não é só isso, né? - Também concluiu - As mulheres que foram arrancadas de seus lares não tinham identidades falsas. O que ainda não nos contaste, pelo amor de Deus?
- Há uma clausula especial, para os membros. - ele começou. Explicou que membros são todas as famílias que já estiveram envolvidas em acordo de peonagem executado com sucesso pelo menos uma vez. Nesse caso, a lei estabelece que ambas partes deverão procurar negociar termos de compensação alternativos quando o objecto primário não for exequível. - E homem nenhum tem poder de desfazer o que Deus uniu. Até selvagens como eles sabem disso. Este cassmento vos salva.
- Se estamos nesta enrascada é porque a peonagem da minha mãe foi um violada, Lupe. A cláusula não se aplica a nós, não temos um caso de sucesso. - Ariela recordou-lhe.
- Não é à sua familia que me refiro. - respondeu Rupert, e virou-se para Colin. - É à nossa.💐
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Um sonho Para Mim
Fiksi UmumDesesperado para evitar a vergonha de ser plantado no altar, Colin Vaughn escolhe a pessoa mais aleatória que encontra para sua noiva, sua assistente, Ariela Smoak. Ariela vê no casamento uma solução para a única coisa que prefere manter em segredo...
