Capítulo 38

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{Katherine Adams Kohls}

Meus dedos percorriam as teclas pretas e brancas do piano à minha frente com classe e sem hesitação. Melodias maravilhosas jamais imaginadas saíam de minhas mãos e se tornavam uma leve aura dourada ao meu redor, me cercando e protegendo de tudo o que restava. Meu cabelo estava preso em um rabo de cavalo alto, eu usava uma calça social preta, botas estilo montaria de saltos grossos e uma camisa social branca um pouco larga para mim, que deixava um de meus ombros exposto. Sorri amplamente, aquela energia instigava ainda mais meus sentidos e minha vontade. Tudo o que eu conseguia enxergar era o meu piano negro de madeira brilhante, todo o resto estava escuro. Eu não temia a escuridão, já que minha luz a confrontava.

— Não vai me convidar para dançar, minha cara? — Parei de tocar instantaneamente. Me levantei e observei os traços de quem me convocara. Pele pálida, nariz arrebitado, altura mediana, curvas... Quase sem curvas. Era como me olhar em um espelho, a não ser pelos olhos. Os dela eram intensamente negros, enquanto os meus eram verdes. Kitty usava um vestido digno de uma princesa: corpete de brilhantes prateados que valorizava seu decote, saia bufante de cetim preto, mangas curtas também bufantes. Longas luvas brancas em suas mãos, seu longo cabelo negro estava solto, uma coroa negra com as mesmas pedras prateadas do vestido adornava sua cabeça. Seus lábios estavam pintados de vermelho, suas bochechas estavam coradas de blush.

"Merry Go Round of Life", do filme Howl's Moving Castle começou a tocar em algum canto da minha mente, como se uma orquestra invisível estivesse no salão. Kitty sorriu para mim e esticou sua mão enluvada:

— Vamos, me acompanhe, Kate. — Me aproximei dela, coloquei minha mão esquerda um pouco acima de sua cintura enquanto ela colocou sua direita em meu ombro. Segurei sua mão esquerda com a minha direita. Comecei a guiá-la calmamente, conforme nossa valsa progredia, mais do cenário à nossa volta era mostrado. Era um amplo palácio dourado, figuras em trajes elegantes e máscaras venezianas surgiram ao nosso redor e rodopiavam no ritmo da música. Meu olhar estava fixo no de Kitty, ela me dirigia um pequeno sorriso misterioso.

— Eu estou morta? — Perguntei. Ela riu; apesar de termos a mesma voz, sua risada era muito mais charmosa e encantadora do que a minha. Eu a girei algumas vezes. Os saltos das botas me deixavam cerca de dez centímetros mais alta do que ela. Lustres e candelabros de cristal decoravam o amplo salão, enormes janelas góticas com vitrais coloridos com imagens de criaturas que aparentavam trazer a morte consigo. Prova disso foi o vitral que identifiquei como sendo o de Jörmungand, com as lendárias presas venenosas à mostra.

— Digamos que você esteja... Em um limbo. — Os fantoches dela, os outros dançarinos, não faziam nenhum barulho além de seus sapatos tocando o chão. Olhei para cima, havia uma enorme imagem de Yggdrasil no teto. Kitty sorriu ao notar o meu olhar e parou de dançar comigo. Seus fantoches pararam um segundo depois, junto com a música. Ela ergueu a mão, todas aquelas pessoas se transformaram em sombras e sumiram. Agora éramos só nós duas no centro do grande salão dourado. Contei as raízes de Yggdrasil na esperança de haver alguma outra desconhecida que não levaria à morte certa. Não havia uma quarta raiz.

— Eu estou morrendo. — Constatei, depois de observar calmamente aquele lugar. Era como uma cópia barata dos grandes salões de Valhalla, eu tinha certeza. Kitty se aproximou, ficando ao meu lado, e colocou afetuosamente sua mão sobre meu ombro.

— De fato, está. Esse é meu primeiro e último presente para você, Katherine. Cometi um erro ao subestimá-la. Diria que você foi uma rival digna. Conseguiu conter minha alma e meu poder dentro de si mesma por bem mais tempo do que eu havia planejado. — Ela sorriu para mim. Respirei fundo e coloquei as mãos dentro dos bolsos da calça social. Eu nunca cumpriria meu destino, afinal? Jamais saberia como minha vida terminaria de verdade?

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