Nada de açúcar!

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Aquela mata era fria. Mas não tanto quanto a floresta em que elas dormiam quase todas as noites durante a caminhada, essas eram isoladas, longe das cidades, então por isso o microclima dentro delas era fiel ao natural antes mesmo de ser dominado pela floresta de concreto e a agricultura. Como ela sabia disso? Sozinha na madrugada apenas com a lua como companhia lhe dava muito espaço pra reparar nesses detalhes.

E ali estava Blossom de novo, deitada de costas no banco de cimento frio em frente à fonte do Hotel vendo as estrelas virarem aurora. Parece que aquilo era sua sina, não importa onde estava sempre voltava àquela situação.

Ainda atormentada por pesadelos de algo que aconteceu meses atrás ela já estava quase acostumada com seus súbitos, já até aprendera a acordar de um pesadelo sem fazer barulho, por isso ela conseguia deixar o quarto sem acordar as outras.

Mas ela nem chorava mais, já estava tão acostumada ao horror da lembrança que apenas a angústia lhe tirava o sono. A velha vontade de por tudo que comeu pra fora do corpo já teve sua fase, na primeira semana depois do ocorrido ela não conseguia segurar nada no estômago, perdeu peso, não falava muito, suas irmãs até ficaram preocupadas com a possível desidratação, mas os seres do além tiveram alguma compaixão dela pois na metade do primeiro mês quando Bubbles quase foi levada por uma horda de zumbis por que ela estava desatenta a ruiva decidiu que seu luto e apatia estavam prejudicando o progresso delas, sua dor e sua amargura eram tamanhas mas entretanto prejudicar a segurança de suas irmãs era mais do que ela conseguia suportar.

E desde aquele momento parece que alguma espécie de chave virou dentro dela, decidida a deixar sua amargura de lado, a ruiva empurrou para bem dentro de si todas as emoções que podia, não querendo sucumbir á elas. E por mais horríveis que sejam as imagens dos últimos momentos que teve com seu pai, aparentemente o objetivo de sobrevivência foi um bom anestésico pras dores que ela não conseguia ver, cada dia se tornava mais fácil fingir que nada daquilo aconteceu na vida real e que aqueles sentimentos eram só um baú velho guardado em seu coração.

E funcionou por um tempo, ela voltou a ser efetiva na equipe e não apenas um peso morto. As outras por sorte pareciam estar lidando bem com a perda abrupta, em dados momentos Blossom agradecia por ter sido a única a presenciar aquela cena nauseante, caso contrário nem ela seria capaz de lidar com os traumas das outras e seus próprios demônios. É claro que o fato delas nunca falarem daquilo também evitava que sucumbissem ao desespero, como um mecanismo de sobrevivência pra preservar a sanidade, pois no perigo constante, exaustão, stress e desordem mental eram sentença de morte.

Ela soava muito amarga pensando naquilo, mas não tinha como evitar, os únicos sintomas da sua retração emocional eram os pesadelos, que eram vívidos, eram constantes, próximos demais da realidade. Por que quando fechava os olhos todo o controle de sua mente sumia, entregue por completo ao inconsciente, e é lá que todos esses sentimentos se manifestavam nas formas mais horríveis. Ás vezes era ele, ás vezes Bubbles, outras vezes ela e Butter, quando seu cérebro era criativo colocava os três sendo devorados por zumbis bem na sua frente, eles pediam ajuda e clamavam por ela, mas na posição de espectadora que assiste um filme de terror ela não conseguia alcançá-los, não conseguia se quer tocar neles, muito menos falar, e aí quando havia sangue demais pra distinguir o que era pele e o que era chão ela não suportava e acordava suando, sempre agitada com coração á mil e tremendo como um liquidificador.

Mas por mais que tentasse, parece que nada conseguia desvencilhá-la daquela cena, como se ela pudesse ter feito alguma coisa mas não tinha enxergado, como se revivendo a cena algum detalhe surgisse e ela pudesse se convencer que poderia ter sido diferente. Sempre que refletia sobre isso, Blossom não sabia dizer se fazia isso conscientemente ou não, a maior parte dela se atormentava com aqueles pesadelos que tiravam sua paz, mas uma partezinha minúscula, mesmo que boba e ingênua dela, sempre se perguntava como as coisas chegaram assim, onde ela estava quando poderia ter mudado alguma coisa? E se pudesse voltar, o que mudaria? Havia algo que pudesse ser alterado? Ter feito diferente?

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