CINÉSIAS - (Quase chorando, numa cena de furor e frustração, batendo com os punhos no estrado.) Ah, eu vou morrer de ardor, não tenho em quem me pôr. Fugiu a desgraçada, me deixando em tormento, depois de aumentar minha vontade a uma medida que jamais pensei vir a atingir. Desgraçadas mulheres. Bem mais sábios são aqueles soldados que se entendem entre si, sem buscar a perfídia dessas criaturas fugidias. Que faço agora com meu próprio corpo? (Em estilo trágico.) Deuses, não sei onde me enfio... de vergonha. (Ao membro.) Pobre criança, só ela poderia te alimentar com seu carinho. Onde é que está Filostatros, o dono de prostíbulos, o mercador de cortesãs? Rápido, homem, arranja uma mulher qualquer para cuidar do meu menino! (Filostatros sai, dando uma olhada para o membro de Cinésias.)
CORIFEU-VELHO - Em que estado deplorável venho te encontrar, pobre infeliz. Decepcionado e intumescido. Só posso lamentar e me penalizar. Não sei como é que os rins de um homem podem agüentar tanta pressão. E que dizer da alma? Da glande? Dos testículos? Juro que em minha longa vida nunca tinha visto um animal com rabo desse lado.
CINÉSIAS - E o crescimento dele me trouxe terríveis convulsões.
CORIFEU-VELHO - A que estado ela te reduziu.
CINÉSIAS - Me ampliou!!!
CORIFEU-VELHO - A odienta. A celerada. CINÉSIAS - A suave. A mais encantadora e terna.
CORIFEU - Encantadora e terna? Essa virago? Zeus, por que o senhor dos céus não manda um furacão dos mais terríveis levantar essa mulher num remoinho, atirando-a depois de volta à Terra para que caia empalada nesse ferro?
(Entra um arauto espartano. Está, visivelmente, nas mesmas condições de Cinésias.)
ARAUTO - Por favor, onde fica o senado de Atenas? Trago notícias importantes (Entra um magistrado ateniense) MAGISTRADO - Quem é você, um homem ou um priapo?
ARAUTO - (Com esforço para se manter digno.) Não seja grosseiro. Sou um arauto de Esparta, enviado como embaixador aqui a Atenas.
MAGISTRADO - Pelo visto é um embaixador plenipotenciário.
ARAUTO - Trago proposta de paz.
MAGISTRADO - Mas, então, por que fica com essa lança aí apontando pra mim?
ARAUTO - (Embaraçado.) Lança? Oh, o senhor não entendeu nada.
MAGISTRADO - Que é? Alguma inchação na virilha causada pelo esforço da viagem?
ARAUTO - Por Castor, que o homem só tem um pensamento. É um maníaco.
MAGISTRADO - (Arrancando a capa do arauto.) Ah, patife, estava me escondendo aí essa magnífica ereção.
ARAUTO - Não estava escondendo coisa alguma. Nem podia. MAGISTRADO - Pois bem, quais são as novidades que trazes de Esparta?
ARAUTO - Reina a desordem total. Cada soldado apareceu com uma arma nova, que só não assusta o inimigo porque o inimigo surgiu com arma igual. Uma ereção universal.
MAGISTRADO - Mas essa epidemia também devasta os nossos. Quem a levou a Esparta?
ARAUTO - Lampito. Instigou todas as mulheres a escorraçarem os homens do leito conjugal depois de excitá-los até a loucura. Agora há uma ordem geral entre as mulheres. Fechar as pernas e não abrir a boca.
MAGISTRADO - E que fazem vocês?
ARAUTO - Sofremos, ora! Todo mundo na cidade anda dobrado para a frente, curvado ao peso da... desdita. As feras juraram que não deixarão nem mexermos naquilo que queremos se não concordarmos com a paz em toda Hélade.
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Lisístrata
MizahLisístrata ou A Greve do Sexo, é uma comédia escrita por Aristófanes no século 411 a.C.. A história fala sobre um conjunto de mulheres que, cansadas da guerra que seus maridos, amantes ou amigos lutavam, entraram em abstinência de sexo, com o intuit...
