CORIFEU-VELHO - (Ao Comissário.) Vamos, interrogue-as. Mas com cautela e sem credulidade. Seria negligência criminosa não procurarmos saber mais do que sabemos ou ficarmos sabendo menos do que poderíamos.
COMISSÁRIO - (Às mulheres.) Primeiro eu lhes pergunto: por que resolveram trancar as portas da Acrópole?
LISÍSTRATA - Pra dominar o tesouro. Onde está o tesouro está o poder. Sem dinheiro, não há guerra. Compreende que queremos a paz?
COMISSÁRIO - Com que, então, o dinheiro é a causa da guerra?
LISÍSTRATA - E, usado na guerra, falta na paz. Por isso a guerra é opulenta e a paz é miserável. Pisandro, o oligarca, vive pregando mil rebeliões, e a cada uma aparece mais rico e mais potente. Pois resolvemos acabar com isso. Nem mais uma dracma do povo será gasta na guerra.
COMISSÁRIO - E, se não me intrometo em demasia, que pretende fazer com o tesouro?
LISÍSTRATA - Ainda não ficou claro? Vamos administrá-lo de maneira doméstica, feminina.
COMISSÁRIO - Ah, é? Comprando cebolas e batatas para os pobres?
LISÍSTRATA - Senti no que me disse uma ironia? Só a pretensão masculina julga que administrar um estado é mais difícil do que administrar um lar.
COMISSÁRIO - (Irônico.) Um pouco diferente.
LISÍSTRATA - Ah, não! Estou surpreendida. Vamos tentar, porém, quem sabe?
COMISSÁRIO - Esse tesouro é fundamental para a manutenção da guerra.
LISÍSTRATA - Pois é. Não entendeu! Vou explicar mais claro: não gostamos de guerra.
COMISSÁRIO - E a segurança da cidade? Como sustentar nossos serviços
de informações sem o tesouro? Como, sem dinheiro, descobrir os inimigos que vivem aqui dentro subvertendo a ordem? Como, sem dinheiro, pagar lá fora os amigos que subvertem a ordem dos outros em nosso benefício?
LISÍSTRATA - Nós cuidaremos disso, na medida em que acharmos necessário.
COMISSÁRIO - Vocês?
LISÍSTRATA - (Imitando o ar de superioridade dele.) Nós mesmas!
COMISSÁRIO - Que ousadia!
LISÍSTRATA - Nós vamos salvar a cidade e salvar vocês também, mesmo que não o queiram.
COMISSÁRIO - Que ousadia! Atinge mesmo as raias da impudência!
LISÍSTRATA - Salvar vocês não é uma tarefa muito agradável, pode crer. Mas é nosso dever.
COMISSÁRIO - Com que nome agora eu chamo isso? É mais que uma impudência. É uma imoralidade. Ficaram loucas?
LISÍSTRATA - Sabemos bem como é doloroso pra vocês o sentimento da impotência. Porém, repito, queiram ou não queiram, vão ser salvos!
COMISSÁRIO - Mas donde veio essa idéia de se meterem na guerra e na política?
LISÍSTRATA - (Sentando-se.) É fácil de explicar. Escuta.
COMISSÁRIO - Mas como? Sentada assim? Acha que ainda nos resta
paciência para ouvir uma dissertação? Depressa, vamos, antes que eu... (Gesto ameaçador.)
LISÍSTRATA - (Forte.) Escuta, eu disse! (O Comissário se refreia.) E as mãos nas costas! E nem um movimento.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Lisístrata
ComédieLisístrata ou A Greve do Sexo, é uma comédia escrita por Aristófanes no século 411 a.C.. A história fala sobre um conjunto de mulheres que, cansadas da guerra que seus maridos, amantes ou amigos lutavam, entraram em abstinência de sexo, com o intuit...
