Capítulo 7

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CORIFEU-VELHO - (Ao Comissário.) Vamos, interrogue-as. Mas com cautela e sem credulidade. Seria negligência criminosa não procurarmos saber mais do que sabemos ou ficarmos sabendo menos do que poderíamos.

COMISSÁRIO - (Às mulheres.) Primeiro eu lhes pergunto: por que resolveram trancar as portas da Acrópole?

LISÍSTRATA - Pra dominar o tesouro. Onde está o tesouro está o poder. Sem dinheiro, não há guerra. Compreende que queremos a paz?

COMISSÁRIO - Com que, então, o dinheiro é a causa da guerra?

LISÍSTRATA - E, usado na guerra, falta na paz. Por isso a guerra é opulenta e a paz é miserável. Pisandro, o oligarca, vive pregando mil rebeliões, e a cada uma aparece mais rico e mais potente. Pois resolvemos acabar com isso. Nem mais uma dracma do povo será gasta na guerra.

COMISSÁRIO - E, se não me intrometo em demasia, que pretende fazer com o tesouro?

LISÍSTRATA - Ainda não ficou claro? Vamos administrá-lo de maneira doméstica, feminina.

COMISSÁRIO - Ah, é? Comprando cebolas e batatas para os pobres?

LISÍSTRATA - Senti no que me disse uma ironia? Só a pretensão masculina julga que administrar um estado é mais difícil do que administrar um lar.

COMISSÁRIO - (Irônico.) Um pouco diferente.

LISÍSTRATA - Ah, não! Estou surpreendida. Vamos tentar, porém, quem sabe?

COMISSÁRIO - Esse tesouro é fundamental para a manutenção da guerra.

LISÍSTRATA - Pois é. Não entendeu! Vou explicar mais claro: não gostamos de guerra.

COMISSÁRIO - E a segurança da cidade? Como sustentar nossos serviços

de informações sem o tesouro? Como, sem dinheiro, descobrir os inimigos que vivem aqui dentro subvertendo a ordem? Como, sem dinheiro, pagar lá fora os amigos que subvertem a ordem dos outros em nosso benefício?

LISÍSTRATA - Nós cuidaremos disso, na medida em que acharmos necessário.

COMISSÁRIO - Vocês?

LISÍSTRATA - (Imitando o ar de superioridade dele.) Nós mesmas!

COMISSÁRIO - Que ousadia!

LISÍSTRATA - Nós vamos salvar a cidade e salvar vocês também, mesmo que não o queiram.

COMISSÁRIO - Que ousadia! Atinge mesmo as raias da impudência!

LISÍSTRATA - Salvar vocês não é uma tarefa muito agradável, pode crer. Mas é nosso dever.

COMISSÁRIO - Com que nome agora eu chamo isso? É mais que uma impudência. É uma imoralidade. Ficaram loucas?

LISÍSTRATA - Sabemos bem como é doloroso pra vocês o sentimento da impotência. Porém, repito, queiram ou não queiram, vão ser salvos!

COMISSÁRIO - Mas donde veio essa idéia de se meterem na guerra e na política?

LISÍSTRATA - (Sentando-se.) É fácil de explicar. Escuta.

COMISSÁRIO - Mas como? Sentada assim? Acha que ainda nos resta

paciência para ouvir uma dissertação? Depressa, vamos, antes que eu... (Gesto ameaçador.)

LISÍSTRATA - (Forte.) Escuta, eu disse! (O Comissário se refreia.) E as mãos nas costas! E nem um movimento.

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