Capítulo 4

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LISÍSTRATA - Juro que sim, pelas duas deidades. Devemos apenas ficar em casa, vestidas e arrumadas o melhor que soubermos, de preferência usando uma túnica transparente que nos deixe quase nuas, mostrando nosso delta irresistivelmente depilado. Mas quando os maridos apontarem pra nós a agressiva insolência dos seus desejos, nós nos retiraremos deixando-os sozinhos no campo de batalha, de armas na mão, sem saber

o que fazer com elas.

CLEONICE - Nunca ouvi falar de tortura semelhante. Nós resistiremos? LISÍSTRATA - Deveremos pensar firmemente em qualquer outra coisa. CLEONICE - Como pensar em outra coisa diante de tal coisa?

LISÍSTRATA - Aí está nossa dificuldade. Mas nosso dever é esse. Se resistirmos eles não resistirão. E teremos a paz.

LAMPITO - Dizem que isso aconteceu a Menelau. Quando viu os seios de Helena, percebeu que tinha que escolher entre duas espadas. Largou a da guerra e empunhou a da paz.

CLEONICE - Mas suponhamos que nossos maridos resistam mais do que nós, nos abandonem?

LISÍSTRATA - O risco de qualquer batalha é perder a batalha. De qualquer forma, deveremos tentá-los até o ponto em que esqueçam qualquer estratégia.

CLEONICE - Uma última hipótese. Se nos pegarem à força?

LISÍSTRATA- Segurem-se nas portas, agarrem-se nas camas, encolham o corpo em posição fetal. CLEONICE - E se nos baterem? LISÍSTRATA - Cedam então, mas não se mexam, não colaborem, sejam cadáveres frios diante da potência e da prepotência até a pospotência. Eles

têm pouco prazer quando sentem que não correspondemos. Sobretudo se nossas mãos permanecerem inertes, eles logo se cansarão da brincadeira. No amor as mãos são preciosas.

CLEONICE - Bem, amigas, acho que devemos, pelo menos, tentar. Se Lampito e Lisístrata concordam, eu concordo também. À luta!

LAMPITO - Nós, espartanas, estou certa, conseguiremos levar nossos homens a uma paz justa e sábia. Mas essa populaça ateniense, esses ignorantes, é possível curá-los da sua terrível tendência belicosa?

LISÍSTRATA - Não tenha medo: faremos nosso povo ouvir nossas razões.

LAMPITO - Você acredita? Acho impossível. Enquanto estiverem em poder da frota e dominarem os imensos tesouros da Acrópole, acho impossível. Poderão até comprar mulheres estrangeiras.

LISÍSTRATA - Nós já cuidamos disso. A primeira missão de paz será uma ação de guerra. Ainda hoje o tesouro ateniense estará em nossas mãos. Encarregamos disso as mulheres mais velhas. Enquanto discutimos aqui o nosso acordo, elas invadem a Acrópole a pretexto de oferecer sacrifício e expulsam de lá os poucos guardas.

LAMPITO - Muito bem pensado, sábia Lisístrata. Você é um general; comanda.

LISÍSTRATA - Antes de tudo, Lampito, um juramento de sangue, para que nosso pacto seja inviolável.

LAMPITO - Você diz os termos; nós os repetimos.

LISÍSTRATA - O prazer é todo meu. Onde é que está nosso sargento? (Uma mulher se apresenta, devidamente militarizada.) Que é que você está olhando, assim, aparvalhada? Põe o escudo virado aí no chão, pros votos e pro sacrifício. Que alguém me traga as entranhas de um animal.

CLEONICE - Espera, Lisístrata, que juramento é esse?

LISÍSTRATA- Um juramento sagrado que eu vi numa peça de Sófocles. Mata-se um carneiro, põe-se o sangue num escudo e ah se jura como...

CLEONICE - Não, Lisístrata, isso é um juramento de guerra. Nós buscamos a paz.

LISÍSTRATA - Então, sugere.

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