(Entra um comissário, seguido de quatro soldados citas.)
COMISSÁRIO - Ouvi dizer que havia aqui umas mulheres gritando, ameaçando, enfim, se desmandando, de toda forma. Ouvi dizer que agrediam os passantes com impropérios, versos maliciosos e cantos profanos acompanhados por uns tamborins. Como Comissário do Povo e da Comarca, vim imediatamente para restabelecer a ordem ou acabar com a desordem. Fala!
CORIFEU-VELHO - Abusaram de nós, nos insultaram, Comissário. E, não se contentando com palavras, teimaram em nos dar um banho que não pretendíamos tomar mais nesta vida. E aqui estamos nós, torcendo as roupas, pra que o povo não pense que voltamos à infância e urinamos nas fraldas.
COMISSÁRIO - Por Poseidon, o marinheiro, bem feito pra nós todos.
Quem permitiu que elas chegassem a tal ponto? Fizemo-las cúmplices das
nossas perversidades. E com nossas libertinagens, muitas vezes sugerimos
e até incrementamos as delas. A isso teríamos que chegar. Uma sociedade
dissoluta. Um marido entra numa loja e diz ao joalheiro: "Parto hoje mesmo pra Tessália. Minha mulher quebrou o fecho. Se você tiver tempo vai lá em casa e vê se coloca uma cabecinha maior no fecho dela". Outro entra no sapateiro, jovem bem conhecido pela habilidade com que usa a sua ferramenta, e lhe diz: "A fivela da cinta dourada que minha mulher comprou de você está machucando a pele delicada de seu ventre. Passa lá ao entardecer e dá um jeito no furinho dela. Se for preciso, faz um furo novo pra que ela fique mais folgada". E é por tudo isso que eu estou aqui, Comissário do Povo, sem poder pagar meus comandados. As mulheres fecharam as portas do tesouro bem na minha cara. Vamos, que é que vocês fazem aí de braços cruzados? Tragam-me uma alavanca qualquer. Eu
castigarei essa insolência. (A um dos citas.) Hei, hei, você aí, meu amiguinho, está surdo do ouvido? Ou nunca viu mulher? Vamos, todos juntos,
arrombaremos essas portas para mostrar a elas que...
LISÍSTRATA - (Abrindo a porta e aparecendo.) Não há necessidade de
arrombar as portas. Larguem essas alavancas, essas barras, esses pés-de-
cabras. Não precisamos disso. Nem de trancas, ferrolhos e cadeados. Precisamos apenas de um pouco de bom senso.
COMISSÁRIO - (Saltando para trás, nervoso, e recobrando a custo sua dignidade masculina.) Realmente, minha cara senhora? Acha mesmo que devo concordar com isso? Arqueiro, prenda essa mulher! Amarre as mãos dela nas costas.
LISÍSTRATA - Por Artemis, a Virgem Sagrada, que se ele me tocar com a
ponta dos dedos, por mais soldado do povo que seja, vai se arrepender
amargamente de ter vindo ao mundo. (O soldado se borra de medo.)
COMISSÁRIO - Como? Que é isso? Está com medo? Depois te mostro teu
lugar no regulamento. (Para outro soldado.) Agarra ela, eu te ordeno.
Pela cintura, que é mais fácil. Vai você também, ajuda ele.
CLEONICE - Olha, se você colocar a mão em cima dela, eu o agredirei com tal violência que você, de medo, vomitará o que comeu o dia inteiro.
E ainda porá pra fora a comida do intestino, pelo lugar devido e fedorento. (O segundo soldado se borra de medo.)
COMISSÁRIO - Mas olhem só a sujeira que fizeram. Onde está o outro soldado? (Ao terceiro soldado.) Vem cá, segura primeiro essa aí, que me parece a mais audaciosa.
MIRRINA - Por Febo, se você ousar tocar num fio de cabelo dela, pode chamar um sacerdote pra encomendar aos vermes do inferno a tua alma indigna. (O terceiro soldado se borra de medo.)
COMISSÁRIO - Mas como? Que está acontecendo? Vou ficar sem um soldado? (Ao quarto soldado.) Não a deixe escapar. Mostra se é o homem ou a mulher quem manda aqui nesta cidade.
LISÍSTRATA - Se esse teu soldado se aproximar dela, você terá a resposta. (Ao soldado.) Vai, te aproxima que eu te arranco os cabelos que te restam. Não todos de uma vez, mas um a um, até deixar em sangue teu couro cabeludo. (O quarto soldado se borra de medo.)
COMISSÁRIO - Ah, miserável que eu sou! Meus próprios soldados me abandonam, se borrando de medo. Escutem, tenham vergonha, reajam!
Devemos nos considerar batidos por um bando de infelizes desorganizadas, sem a menor instrução militar? Além de mulheres, civis. É vergonha demais. Vamos, juntos, em formação de combate, avancem!
LISÍSTRATA - Ah, querem ação conjunta? Pois terão que se defrontar com quatro batalhões de mulheres belicosas e muito bem armadas. Estamos preparadas.
COMISSÁRIO - Tudo conversa, soldados, não tenham o menor receio. As armas delas são o dedal e a agulha. Avancem! e amarrem as mãos delas nas costas. (Os soldados avançam, mas hesitantes.)
LISÍSTRATA - Avante também, galantes companheiras! Saiam pro campo de luta, vendedoras de hortaliças, brandindo nabos contra o inimigo.
Venham também as taverneiras, de vassouras em punho, as padeiras, já que
estão com a mão na massa, as costureiras, com tesoura e agulha, as cozinheiras, com molhos picantes. Ataquem, agridam, varram, queimem, piquem, batam, enfiem, furem, invectivem, mordam e matem. Não tenham medo, pena, nem vergonha! Agarrem neles por onde puderem. (As mulheres põem os citas em fuga.) Agora chega. Podem retirar-se. Não queremos
nada do inimigo. (Todas saem, exceto Lisístrata e as duas outras.)
COMISSÁRIO - Que humilhação pros meus soldados! Que diminuição para os meus homens!
LISÍSTRATA - Ah, Ah! Você pensou que ia enfrentar apenas um bando de escravas desorganizadas. Agora, ao menos, já aprendeu com que ardor lutam as mulheres dignas desse nome.
COMISSÁRIO - Ardor, ardor, não nego. Mas seria melhor que o aplicassem no ato devido. Vai ver que ao chegar a hora...
CORIFEU-VELHO - Senhor, senhor! Por que perder palavras com essas feras? Ainda há pouco se atiravam sobre nós como selvagens e fomos felizes de escapar tendo tomado um banho apenas. O fogo é o que merecem.
CORIFÉIA - O que é que você buscava? Recebeu o prêmio de quem mete a mão onde não deve. E se tiver a ousadia de começar de novo, bem pode ser que perca os próprios olhos. Meu prazer e meu desejo era ficar em casa, quieta e delicada, tímida e recatada, como convém a uma donzela, sem incomodar ninguém, nem pedir senão aquilo que mereço. Em troca ofertaria ao mundo um pouco de graça e de beleza, um sorriso de amor e um gesto de paz. Ah, a abelha também só dá mel, mas vá alguém arrancá-lo pela violência.
CORO DOS VELHOS - Ah, grande Zeus! Como poderemos vencer ou contentar essas feras ferozes? É mais, muito mais do que podemos suportar. Temos que descobrir como, e por que motivo, dominaram a Acrópole.
Com que fim ocuparam a cidadela de Cranaos, logo o altar sagrado colocado na rocha inacessível da morada dos deuses.
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Lisístrata
HumorLisístrata ou A Greve do Sexo, é uma comédia escrita por Aristófanes no século 411 a.C.. A história fala sobre um conjunto de mulheres que, cansadas da guerra que seus maridos, amantes ou amigos lutavam, entraram em abstinência de sexo, com o intuit...
