A corrente perdida

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POV Luíza

Saí para correr no parque Ibirapuera como faço todas as manhãs.
Ao final decidi dar algumas voltas no quarteirão antes de finalizar meu exercício matinal.
Decidi trocar a música que tocava no fone e acabei me distraindo.  Senti meu corpo se chocar com o de alguém em um esbarrão.

_ Puta merda! Você não olha por onde anda?

Me senti atordoada com a pancada e vi uma moça recolhendo folhas na calçada após o impacto sofrido.

Ela usava um salto preto fechado, um jeans escuro com cintura alta e uma regata de cetim preta.
Imediatamente reconheci os traços. Era Laura, minha aluna.

_ Me desculpe! Você está bem? Se machucou?

_ Luísa!?

Laura me olhava fundo nos olhos. Senti seu olhar sobre meu corpo e me senti envergonhada por estar daquela forma. Completamente suada e bagunçada.

_ Estou bem. Fique tranquila!
Mas agora preciso ir. Estou muito atrasada!!

Ela disse enquanto corria em direção a um prédio e sumia entre as pessoas que ali entravam.
Fiquei observando um tempo estática no local. Olhei para o chão e vi um brilho dourado vindo de uma corrente.
"Acho que ela deixou cair com o esbarrão. De noite entrego!" Pensei seguindo com a minha corrida.

Ao chegar em casa dei de cara com a Gabriela na sala.

_ Filha, por que não foi para aula?

_ Hoje tem reunião, mãe. Esqueceu ? Meu pai disse que iria passar no colégio antes de ir para o trabalho.

_ Ah sim, a reunião! Preciso me preocupar?

_ Claro que não!

_ Então tá. Vou corrigir uns trabalhos e almoçamos juntas, pode ser?

_ Nem da, mãe. Eu falei para o Fábio que ia almoçar com ele hoje.

_ Quem é Fábio ?

_ Meu boy rs.

_ Juízo, menina! Muito juízo.

Falei enquanto me direcionava ao banheiro para tomar um banho e tirar o suor do corpo.

Liguei o som que havia na suíte e me permiti relaxar no banho.

O dia seguiu tranquilo entre correção de trabalhos, planejamento e alguns emails encaminhados.

Já era 17h e eu precisava me arrumar para ir dar aula.

Peguei a correntinha que Laura deixara cair mais cedo e guardei na bolsa.

****

Cheguei na universidade pouco antes das 19h. Nenhum aluno se fazia presente, então resolvi adiantar umas coisas. Coloquei meus materiais na mesa e abri meu armário tirando de lá algumas xerox que seriam usadas na aula de hoje.
Senti que havia alguém me observando e instintivamente virei meu pescoço em direção a porta.

_ Olá, professora! Tudo bem?

_ Laura! Você foi a primeira a chegar. O que está fazendo aí ? Por que não entrou?

_ Estava te olhando!

Laura foi entrando e vindo em minha direção. Imediatamente me ajeitei para olhá-la ficando frente a frente.

_ Trouxe algo para você. Hoje de manhã quando nos esbarramos, acho que você deixou cair isso.

Falei abrindo a bolsa e tirando a corrente.

_ Minha correntinha! Você a achou! Achei que tivesse perdido. Obrigada.

_ Você a perdeu mesmo, mas eu encontrei rs.

A moça não usava mais a mesmas roupas de hoje cedo. Acredito que tenha ido para e trocado suas vestes.
Agora ela estava com uma bota de cano curto preta, uma regata branca com uma jaqueta jeans escuro e uma calça montaria preta.

_ Obrigada, professora! A propósito, você está muito bonita.

**********

Laura não tirava os olhos de Luísa.
Foi caminhando lentamente em direção a uma cadeira sem desvincular o seu olhar castanho dos olhos verdes da ruiva.
Luisa, por sua vez, sentia sua pele enrubecer com a intensidade que Laura trazia em seus olhos.

Os alunos foram aos poucos chegando e se sentando cada um em seu lugar.

Luísa começou a explicar o conteúdo e vez ou outra sentia os olhares de Laura.

Laura olhava fixamente a professora de literatura que gesticulava no centro da sala. Completamente absorta em seus pensamentos, vagava nos fios ruivos que se movimentavam com o vento que vinha da janela.

Luísa encerrou a explicação.

_ Ficou alguma dúvida?

O silêncio pairou na sala.

_ Bom, entendo que não. Visto que ninguém se pronunciou!
Abram seus livros na página 110. Preciso que todas as questões sejam respondidas e entregues em folhas separadas até o final da aula.

Disse Luísa indo em direção a sua mesa e se acomodando em sua cadeira.

Os minutos foram passando e os alunos foram entregando suas folhas e saindo. Já era a última aula e Luísa resolveu liberar quem já tivesse terminado. Restou apenas Laura, que já guardava seu material, mas ainda não havia entregado a folha.

Laura caminhou vagamente até a professora sem desviar seu olhar do olhar da ruiva e colocou o papel em cima da mesa.

Saiu sem olhar para trás, sem dar boa noite, sem preferir qualquer palavra à professora.
Luísa, por sua vez, também não se manifestou. Apenas recolheu a atividade e observou o escrito.

"Fiquei vagando no seu corpo e não prestei atenção na sua explicação. Não consegui responder! Fica difícil prestar atenção em qualquer coisa que não seja seu movimento..

P.S: Você está particularmente linda hoje.

              Laura"

Luísa sentiu seu coração quase sair pela boca enquanto lia o bilhete que Laura deixou na folha.
A ruiva saiu da sala guardando o papel em sua bolsa e foi para casa.

A Professora RuivaOnde histórias criam vida. Descubra agora