Capítulo 1

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Às vezes, sofremos tanto e fomos tão pisados pela vida que deixamos de acreditar que ela pode ser boa conosco. E, na nossa história, a nossa protagonista deixou de acreditar que merece ser feliz e na bondade da vida. Ela deixou de acreditar no amor também. Essa é uma história sobre escolhas, traumas e traições. Mas também é uma história de amor. Uma história sobre um amor capaz de colar todos os pedaços de um coração estilhaçado. E, como todas as que eu contei, essa começa assim:

Era uma vez...

Dias atuais

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Dias atuais...

Julie's PoV

— Parabéns para mim
Nessa data fodida
Eu não tenho mais casa
E odeio minha vida– Canto enquanto arrumo minha mochila com as poucas roupas que tenho para ir embora do St. Martin.

Tô sendo expulsa daqui porque fiz dezoito anos. Hoje, aliás. E a lei não permite que os órfãos vivam nos orfanatos depois de ficarem maiores de idade.

Nunca fui adotada. Até mais ou menos meus dez anos, eu ainda acreditava que iriam me querer. Mas sempre escolhiam outras meninas. Até a insuportável da Carrie foi adotada. E eu fiquei aqui. Vi todas as garotas que estavam aqui antes de mim e as que chegaram depois serem adotadas. E eu continuei aqui.

Com o tempo, me conformei que não iria sair daqui. Comecei a ajudar as arrumadeiras do orfanato quando não estava na escola, brincava com as crianças e até ajudava a Victoria nas contas. Ela, de verdade, foi como uma mãe pra mim todos esses anos. Sempre me consolava quando eu ficava triste por não ser adotada, ou quando eu lembrava dos meus pais biológicos. Uma pena que ela não pode me adotar porque a lei também proíbe.

No fim das contas, acabei entendendo o que Carrie quis dizer no primeiro dia que eu cheguei aqui. A vida realmente não é justa. Com ninguém.

Abro minha caixinha de pensamentos. A tenho desde pequena e guardo todas as coisas importantes aqui. Perdi a primeira no acidente que matou meus pais, mas fiz outra quando cheguei aqui.

A primeira coisa que vejo assim que tiro a tampa é uma fotografia minha e dos meus pais. Uma das poucas coisas que sobraram do acidente.

Mais embaixo, alguns papéis e desenhos que fiz quando pequena. Meus e dos meus pais, eu e Victoria e lá no fundo da caixa, eu e Luke.

Sorrio ao ver esse desenho. Sinto falta do Luke. Depois que ele foi adotado, o pai dele arrumou um emprego no Canadá e foi transferido pra lá. Luke foi junto e acabamos perdendo contato. O procurei nas redes sociais quando ganhei um celular, mas não o encontrei porque me esqueci o sobrenome dos pais dele.

Lembro que fiz esse e outro desenho, que ficou com ele e, se eu não me engano, atrás tem...

Contrato de amizade da Julie e do Luke

1. O Luke e a Julie nunca vão brigar

2. Se brigarem, vão ter que fazer as pazes com sorvete.

3. O Luke sempre vai fazer a Julie sorrir quando ela ficar triste.

4. A Julie sempre vai cuidar dos machucados do Luke quando ele cair jogando futebol.

5. O Luke sempre vai defender a Julie das meninas más.

6. A Julie nunca vai deixar o Luke pensar que é um rejeitado.

7. O Luke e a Julie sempre vão brincar juntos as brincadeiras um do outro. Uma vez de cada escolher a brincadeira.

8. O Luke não vai reclamar quando a Julie o fizer brincar de boneca.

9. Sempre que sentirem saudades um do outro, vão olhar pro anel da amizade.

10. O Luke e a Julie vão ser amigos para sempre

Fizemos dois desses e ainda assinamos. As duas últimas cláusulas  foram feitas pouco depois do Luke saber que seria adotado. Às vezes ainda me pego pensando se ele guarda essas coisas também. E se ainda lembra de mim. Luke foi uma das únicas coisas boas que esse lugar me trouxe. Vou olhando mais fundo na caixa e encontro o anel da amizade.

Eu e o Luke prometemos que seríamos o melhor amigo um do outro pra sempre. E não tiravamos esses anéis pra nada. São  de plástico. Eu tenho o meu e ele tem o dele. Com o tempo, eu cresci e ele ficou apertado. Mas o guardei.

Estou brincando com o anel entre meus dedos quando escuto batidas suaves na porta.

— Está pronta, querida?– Victoria pergunta.

Olho ao redor do quarto uma última vez

— Tô.– digo e guardo minha caixinha de pensamentos na mochila.

Victoria vem até mim pra me abraçar, mas desvio.

— Olha, Julie eu sei que essa situação não é a melhor pra você. E sei que você sabe que se eu pudesse, eu te adotaria e até te levaria pra morar comigo mas é contra as regras.

— Eu sei disso.– digo mais baixo.

— Toma. Aqui tem comida. Acho que dá pra uns dois dias...três se não comer muito. Chamei um táxi também. E aqui tem dinheiro. Nao é muito mas dá pra algumas semanas...– ela diz.

— Não quero caridade.– digo a ela.

— Não é caridade. Aceita como um...presente de dezoito anos.

— Ah, claro. Parabéns, você tá sendo expulsa do único lugar que você chamou de casa desde os seus oito anos. Toma aqui, um pouco de dinheiro e comida. Agora se vira! Feliz aniversário. Fala sério, Victoria!– digo a ela, que me olha com um olhar como se me repreendesse. Posso ver a decepção em seus olhos– Desculpa. Não devia ter falado assim com você. Mas é que...essa situação tá uma...– ela me olha repreensivamente de novo. Ela odeia que eu xingue– enfim, tá muito difícil lidar com tudo isso. Você também estaria revoltada se estivesse sendo mandada embora sem ter pra onde ir.

— Só por favor, Julie, não deixa o mundo cruel e sombrio que você vai encontrar lá fora te corromper. Corromper a menina boa que sei que você é.

— Obrigada pelo conselho.– uma pena que a "garota boa" já não existe faz muito tempo. Não digo isso a ela. Pego o dinheiro e a comida.– Adeus Victoria!

— Adeus minha pequena!– ela diz. A abraço. Luto contra o nó que se forma na minha garganta. Não ia chorar. Não aqui.

Vou pro lado de fora e entro no taxi.

No caminho, passamos pelo cemitério de Los Angeles. Onde meus pais estão enterrados.

— Ahn moço, será que a gente pode parar aqui? Só um pouco não vai demorar.

O homem suspira. Encosta o carro

— Dez minutos. – ele diz e saio do carro com um pulo e vou até o cemitério. A última vez que vim aqui eu tinha uns oito anos. Antes de ir pro orfanato.

Ainda me lembro do caminho.

As lápides deles estão lado a lado.

— Oi mãe, oi pai. Quanto tempo...– digo me ajoelhando. Sinto as lágrimas nos meus olhos– Hoje é meu aniversário. É, dezoito anos. Fico pensando no que seria se vocês estivessem aqui. Vocês com certeza não iam me expulsar de casa, né? Enfim, eu...tenho que ir. Mas não deixei de pensar em vocês nenhum dia sequer desde que vocês se foram. Eu amo vocês. Pra sempre.

Me levanto e ando até o taxi. Entro nele. Juro a mim mesma que a partir de hoje, a única pessoa com quem vou me preocupar é comigo mesma. Ninguém se importa comigo de verdade. Nunca vão se importar. Também não vou me importar com ninguém. A vida nunca foi boa comigo e não vai começar a ser agora.

A partir de hoje, sou eu contra o mundo.

Favorite crime | JUKEHistórias para pegar e não largar. Descubra agora