Capítulo três

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Terminei de laudar mais uma audiometria, encostando minhas costas a cadeira e cruzando as mãos em meu colo. A decoração de meu consultório tinha ficado melhor do que imaginei inicialmente.  Minha arquiteta tinha considerado aproveitar a luminosidade e tons claros e por minha clientela ser também relacionada a pediatria eu buscava preencher com brinquedos e objetos coloridos.

—Mais dois pacientes na agenda, doutora.

Organizei o equipamento,  como fonoaudióloga clínica eu sou apaixonada totalmente pela área de Audiologia, na realização da triagem auditiva neonatal,  o teste da orelhinha como é conhecido popularmente. Foi nosso primeiro passo com Amanda, embora naquela época não fosse tão bem divulgado.

—Boa tarde,  como vão? 

Levantei recepcionando os pais e os gêmeos com  um mês. Retomei nossa entrevista, com algumas das informações da primeira vez que estiveram no consultório. O reteste geralmente assustava a família.  

—Agora, vamos deixar a sala o mais confortável,  é um exame bem simples, vamos repetir a colocação dessa oliva na orelha e o equipamento vai emitir alguns sons que a analisarei. — os bebês sonolentos realizaram o  teste mais rápido — O otorrinolaringologista também solicitou o bera. Ele é um pouco diferente, vou colocar esses eletrodos (adesivos) e novamente emitir alguns sons de frequência específicas. Nesse exame já conseguimos avaliar a resposta auditiva dos bebês. 

Ao contrário de minha filha, ao concluir o atendimento me despedi da família com dois exames que demonstravam duas crianças ouvindo perfeitamente bem.  É claro que nem sempre a integridade auditiva era confirmada. 

Terminei de organizar o material, separando o jaleco para lavagem e conferindo as vias dos convênios assinadas.

—Tudo finalizado, doutora.

Sorri para Luzia, minha secretária: 

—Já pedi para me chamar só de Carol. E novamente agradeço por esses primeiros meses como minha assistente. Está realizando um ótimo trabalho.

Luzia era estudante de Fonoaudiologia também.

Com o consultório pronto para o dia seguinte, coloquei a bolsa no ombro e segui para o estacionamento.

Ainda causava algumas reações de surpresa ao responder que não tinha seguido os passos de Bianca com a medicina veterinária. Tanto Igor como eu tínhamos nos envolvidos em várias atividades da fazenda, mas a única que realmente se responsabilizou foi Yasmin, minha cunhada. 

—Olá, olá... — busquei respostas assim que entrei no apartamento, o silêncio me deixou em alerta  e na sala encontrei as meninas com semblante triste. Sim, Lara e Amanda eram amigas inseparáveis, o que colocou por terra os medos de minha filha sobre ter novos amigos em BH. —Aconteceu algo muito sério para esse borocochô? 

—Meu pai.

Apertei os lábios, eu realmente tentava não ultrapassar o limite familiar.

—Façam logo o pedido — murmurei, encurvando os ombros para frente, minha expressão com certeza era de alguém arrependida por essas palavras.

—Lara pode dormir aqui só hoje?

Suspirei:

—Se o pai dela concordar.

—Essa semana estou com minha mãe.  Ela até pediu para ligar.

—Ok.  Trouxe alguma muda de roupa? — a menina balançou a cabeça em negativa, olhei para Amanda que sorria de maneira exagerada — Já sabem o que fazer, empresta um pijama, lavem os uniformes ou vão receber uma advertência no colégio. Isso me deixará chateada e ninguém vai ter lazer o resto da semana.

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