Capítulo dezoito

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Novamente eu estava com atribuições na fazenda, sem precisar que alguém guiasse Vulcão por mim, embora eu compartilhasse a montaria às vezes quando Emanuel simplesmente deixava o escritório e me sequestrava na varanda para passearmos.

Busquei esconder meu sorriso, ao entregar a seringa com o antibiótico para meu pai,  esperando a próxima tarefa de higienizar os machucados do novilho. Tínhamos muito cuidado com os animais, mas não estávamos salvos de alguns incidentes.

— Não vai perguntar nada, caçadora?

— Já separei o remédio e estou com o algodão para limpar,  mamãe também separou umas gazes.

Senhor Guilherme levantou as sobrancelhas e encarou:

— Não é bem esse assunto que tenho em mente.

Cruzei os braços e foi inevitável apoiar uma das pernas, eu queria uma mecanismo de defesa:

— Pai, por favor,  eu já tenho mais de quarenta.

Ele manteve os olhos bastante expressivos em mim, ainda com uma face carrancuda:

— Quer que eu fale minha idade em voz alta para se sentir melhor?

— Não é isso! — Bufei — Eu estou em um relacionamento e isso não deveria ser tão constrangedor, pai.

— O anterior a esse nem sofreu tanto para me contar. Era uma brincadeira? Porque não vou me desculpar por ter batido nele.

— O senhor sabe ser encrenqueiro, touro marrento!

— Oh, que sou seu pai.

Ele riu, observando me aproximar e ajoelhar perto do novilho para começar a limpar as feridas nos cascos. Não lembro exatamente quando comecei nessa tarefa, mas era quase impossível que eu não estivesse envolvida em algum resgate.

— Quer que eu diga que estava certo quando pensou que Emanuel me faria feliz?

— Quero.

Ri encabulada com seu tom firme.

— Quer que eu diga que de alguma forma eu perdi tempo?

— Sim.

— E quer saber se desse relacionamento eu vou voltar definitivamente para Leotie? — era uma pergunta frequente em meus pensamentos, regados pela certeza que o tempo também passava para meus pais.

— Não.

Deslizei o punho em minha testa, afastando alguns fios do cabelo:

— Não, pai?

— Olha, se fosse alguns anos atrás eu até pensaria, mas vocês têm suas vidas — o senhor Guilherme respondeu de maneira conformada — Eu não me preocupo em quem irá assumir os negócios da família, porque eu e sua mãe sempre pensamos na fazenda  como nossa casa. Resta saber onde é a casa de vocês.

Concordei com um menear de cabeça, voltando a atenção para o filhote.

— Foi assim que decidiu laçar a mamãe no rodeio?

Meu pai deu uma risada grave e divertida: 

— Não, sua mãe me lançou no momento que decidiu intervir em cada canto daqui.

— Então, se preocupa com Thamara em Goiânia?

— Não, eu até prefiro, sua irmã achou o lar dela.

— E o JP? — tentei mais uma vez.

— Ele está ocupado  atento  a ser um bom pai,  ainda que a vida se ocupe por cobrar pelos erros do passado.

Em Um SomOnde histórias criam vida. Descubra agora