Novamente eu estava com atribuições na fazenda, sem precisar que alguém guiasse Vulcão por mim, embora eu compartilhasse a montaria às vezes quando Emanuel simplesmente deixava o escritório e me sequestrava na varanda para passearmos.
Busquei esconder meu sorriso, ao entregar a seringa com o antibiótico para meu pai, esperando a próxima tarefa de higienizar os machucados do novilho. Tínhamos muito cuidado com os animais, mas não estávamos salvos de alguns incidentes.
— Não vai perguntar nada, caçadora?
— Já separei o remédio e estou com o algodão para limpar, mamãe também separou umas gazes.
Senhor Guilherme levantou as sobrancelhas e encarou:
— Não é bem esse assunto que tenho em mente.
Cruzei os braços e foi inevitável apoiar uma das pernas, eu queria uma mecanismo de defesa:
— Pai, por favor, eu já tenho mais de quarenta.
Ele manteve os olhos bastante expressivos em mim, ainda com uma face carrancuda:
— Quer que eu fale minha idade em voz alta para se sentir melhor?
— Não é isso! — Bufei — Eu estou em um relacionamento e isso não deveria ser tão constrangedor, pai.
— O anterior a esse nem sofreu tanto para me contar. Era uma brincadeira? Porque não vou me desculpar por ter batido nele.
— O senhor sabe ser encrenqueiro, touro marrento!
— Oh, que sou seu pai.
Ele riu, observando me aproximar e ajoelhar perto do novilho para começar a limpar as feridas nos cascos. Não lembro exatamente quando comecei nessa tarefa, mas era quase impossível que eu não estivesse envolvida em algum resgate.
— Quer que eu diga que estava certo quando pensou que Emanuel me faria feliz?
— Quero.
Ri encabulada com seu tom firme.
— Quer que eu diga que de alguma forma eu perdi tempo?
— Sim.
— E quer saber se desse relacionamento eu vou voltar definitivamente para Leotie? — era uma pergunta frequente em meus pensamentos, regados pela certeza que o tempo também passava para meus pais.
— Não.
Deslizei o punho em minha testa, afastando alguns fios do cabelo:
— Não, pai?
— Olha, se fosse alguns anos atrás eu até pensaria, mas vocês têm suas vidas — o senhor Guilherme respondeu de maneira conformada — Eu não me preocupo em quem irá assumir os negócios da família, porque eu e sua mãe sempre pensamos na fazenda como nossa casa. Resta saber onde é a casa de vocês.
Concordei com um menear de cabeça, voltando a atenção para o filhote.
— Foi assim que decidiu laçar a mamãe no rodeio?
Meu pai deu uma risada grave e divertida:
— Não, sua mãe me lançou no momento que decidiu intervir em cada canto daqui.
— Então, se preocupa com Thamara em Goiânia?
— Não, eu até prefiro, sua irmã achou o lar dela.
— E o JP? — tentei mais uma vez.
— Ele está ocupado atento a ser um bom pai, ainda que a vida se ocupe por cobrar pelos erros do passado.
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Em Um Som
Roman d'amourCarolina Moura Souza assoprou sua vela de quarenta e cinco anos. Ela detestava envelhecer, detestava ser descrita como a filha mais velha e serena, principalmente quando sentia dentro de si um vulcão escondido. E esse era o problema; a mata ao red...
