Era um cansaço que eu não conseguia classificar, me obrigava a permanecer deitada e provocava dores em todo o meu corpo. Ao mesmo tempo eu não era capaz de entender o tempo e orientação espacial.
Minha boca seca, dores nas bochechas e próxima a orelha que mesmo movimentando a mandíbula para cima e para baixo não amenizava, e tudo que eu desejava era ter forças para arrancar a sonda nasoenteral que movimentava em minha faringe toda vez que eu espirrava, tossia ou bocejava.
Eu não queria seguir esse protocolo onde me ofertavam uma mísera gaze molhada.
— Você já foi mais paciente, Carolina.
Olhei com o cenho franzido para meu pai.
— Eu quero churrasco, mastigar um belo pedaço de uma carne e tomar uma cerveja.
Sim, eu sentia minha boca salivar e ao engolir essa saliva a droga da sonda me fazia nausear.
— Carolina, consegue me dizer onde está?
— No hospital — respondi ao neurologista — Sofri um acidente.
— Ótimo! Você pode movimentar os dedos dos pés? — ele pediu e eu me senti aliviada quando senti os coxins colocados para evitar lesão por pressão.
— É para eu levantar as mãos e encostar os indicadores no meu nariz, doutor?
Ele riu, segurando a prancheta.
— É sempre bom tratar de pacientes que trabalham na saúde. Você pode realizar esse comando?
Parecia que uma tonelada envolvia meus cotovelos, o movimento parecia tão difícil que eu realmente quis desistir. Eu sentia gotas de suor acumulando em minha testa e a respiração ficou mais curta, o que provocava um desconforto em meu diafragma.
— Bom, acho que já vou liberar a fisioterapia.
— Ah, Deus. Pode liberar também uma refeição?
O médico riu novamente:
— Vamos solicitar a avaliação do fonoaudiólogo.
— Quando ele vem?
Eu ansiava mais por uma colega de profissão do que qualquer outro no mundo, eu queria me livrar dessa sonda.
— Foi agendado para o horário do almoço — a enfermeira quem respondeu — Agora temos que correr com o banho e curativos.
Olhei para meu pai que deu um sorriso compreensível, me deu um beijo na testa.
— Eu volto daqui a pouco, caçadora.
Senti meus olhos marejados, por um lado eu estava feliz por ter sido encaminhada para um apartamento, um pouco de privacidade ainda que soubesse que foram quarenta e cinco dias na UTI. Em outra perspectiva me sentia vulnerável ao sentir a fralda, ver a sonda vesical de demora e não ser capaz de controlar meus esfíncteres.
O banho no leito tentava ser o mais confortável pela equipe de enfermagem.
— Se você sentir alguma cócegas é melhor falar logo.
— Com certeza eu dou uma bela bronca — respondi com uma piscadela.
Embora eu tivesse total sensibilidade nas pernas, braços e barriga, a falta de força e quando constatei a perda de peso me deixavam esgotada com os movimentos de lateralização e sentar. Mesmo com todo cuidado na troca em decúbito eu tinha escara no quadril e cóccix, no entanto, eu não iria reclamar da dor, significava que não havia infecção ou tecido necrosado.
— Quanto tempo até fechar?
— Algumas semanas, querida.
Após vestir outro avental, a cabeceira foi levantada e enfermeira calmamente penteou meus cabelos finalizando com uma trança.
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Em Um Som
RomanceCarolina Moura Souza assoprou sua vela de quarenta e cinco anos. Ela detestava envelhecer, detestava ser descrita como a filha mais velha e serena, principalmente quando sentia dentro de si um vulcão escondido. E esse era o problema; a mata ao red...
