Capítulo quinze

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 Era um cansaço que eu não conseguia classificar, me obrigava a permanecer deitada e provocava dores em todo o meu corpo. Ao mesmo tempo eu não era capaz de entender o tempo e orientação espacial.

Minha boca seca, dores nas bochechas e próxima a orelha que mesmo movimentando a mandíbula para cima e para baixo não amenizava, e tudo que eu desejava era ter forças para arrancar a sonda nasoenteral que movimentava em minha faringe toda vez que eu espirrava, tossia ou bocejava.

Eu não queria seguir esse protocolo onde me ofertavam uma mísera gaze molhada.

— Você já foi mais paciente, Carolina.

Olhei com o cenho franzido para meu pai.

— Eu quero churrasco, mastigar um belo pedaço de uma carne e tomar uma cerveja.

Sim, eu sentia minha boca salivar e ao engolir essa saliva a droga da sonda me fazia nausear.

— Carolina, consegue me dizer onde está?

— No hospital  — respondi ao neurologista — Sofri um acidente.

— Ótimo! Você pode movimentar os dedos dos pés? — ele pediu e eu me senti aliviada quando senti os coxins colocados para evitar  lesão por pressão.

— É para eu levantar as mãos e encostar os indicadores no meu nariz, doutor?

Ele riu, segurando a prancheta.

— É sempre bom tratar de pacientes que trabalham na saúde.  Você pode realizar esse comando?

Parecia que uma tonelada envolvia meus cotovelos, o movimento parecia tão difícil que eu realmente quis desistir. Eu sentia gotas de suor acumulando em minha testa e a respiração ficou mais curta, o que provocava um desconforto em meu diafragma.

— Bom, acho que já vou liberar a fisioterapia.

— Ah, Deus. Pode liberar também uma refeição?

O médico riu novamente:

— Vamos solicitar a avaliação do fonoaudiólogo.

— Quando ele vem?

Eu ansiava mais por uma colega de profissão do que qualquer outro no mundo, eu queria me livrar dessa sonda. 

— Foi agendado para o horário do almoço  — a enfermeira quem respondeu —  Agora temos que correr com o banho e curativos.

Olhei para meu pai que deu um sorriso compreensível, me deu um beijo na testa.

— Eu volto daqui a pouco, caçadora.

Senti meus olhos marejados, por um lado eu estava feliz por ter sido encaminhada para um apartamento, um pouco de privacidade ainda que soubesse que foram quarenta e cinco dias na UTI.  Em outra perspectiva  me sentia vulnerável ao sentir a fralda, ver a sonda vesical de demora e não ser capaz de controlar meus esfíncteres. 

O banho no leito tentava ser o mais confortável pela equipe de enfermagem.

— Se você sentir alguma cócegas é melhor falar logo.

— Com certeza eu dou uma bela bronca  — respondi com uma piscadela.

Embora eu tivesse total sensibilidade nas pernas, braços e barriga, a falta de força e quando constatei a perda de peso me deixavam esgotada com os movimentos de lateralização e sentar. Mesmo com todo cuidado na troca em decúbito eu tinha  escara no quadril e cóccix, no entanto, eu não iria reclamar da dor, significava que não havia infecção ou tecido necrosado.

— Quanto tempo até fechar?

— Algumas semanas, querida.  

Após vestir outro avental, a cabeceira foi levantada e enfermeira calmamente penteou meus cabelos finalizando com uma trança.

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