Capítulo dezesseis

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A chuva tinha se extinguindo há pouco tempo,  ainda era possível notar relâmpagos antes do som de trovões. O clima estava ótimo, vovó Gislene tinha praticamente me envolvido numa manta quando recusei voltar para dentro da casa.

— Você quem causou essa chuva, né?

Fiz uma careta para José Pedro, apoiando meu rosto na mão.

— Talvez seja sua presença na fazenda, mano. 

José Pedro apoiou as mãos atrás da cabeça, bem tranquilo.

— Parei de dividir minhas horas de trabalho, Carol.

— Espera... Você vai ficar somente em Leotie?

— Sim.

— Não acredito — blefei com uma careta. 

— É melhor acreditar, Carol — olhei para trás enquanto Thamara se aproximava e obrigava nosso irmão a dividir o espaço no sofá — O caçulinha vai trabalhar pros nossos pais.

— Uau! — eu poderia me acostumar — Quando se muda para cá, matemática?

Minha irmã fez um bico e balançou a cabeça em negativa:

— Por enquanto não temos planos.

— Podemos montar um força tarefa para convencer seu marido — eu sugeri, aproveitando o tempo com meus irmãos. 

— Está vendo, JP, por que ficamos preocupados com ela? Está totalmente recuperada.

Eu ri, cruzando os pés.

— Obrigada por me visitarem.

No começo eu estava irritada com as constantes bajulações, em um ciclo que me colocava dependente de todos na fazenda. E o processo para ouvi-los verdadeiramente foi um grande obstáculo, eu ainda mantinha algumas lembranças dos primeiros dias de internação e eu não havia contado a ninguém.

Uma parte de mim era capaz de acreditar que eu tinha voltado ao passado, seguindo o ritmo cardíaco de Igor, enraizada na memória quando ele incentivou que Amanda captasse aquele som com um estetoscópio.

— Se você é capaz de entender esse som nada mais importa — Igor disse com tanto entusiasmo que na época eu realmente quis mudar minha concepção sobre o som.

E com os dias contados para retornar a minha vida fora do hospital eu era surpreendida por não ter mais  mágoa sobre as escolhas de quem eu fui aos vinte e nove, e a faísca por um recomeço eu tentava alimentar com uma discreta esperança. 

Nada era do meu jeito, mas eu precisava valorizar esse caminho.

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Encarei a fisioterapeuta sem entusiasmo, eu precisava fortalecer o corpo e isso incluía movimentos, ainda que viesse a sensação de exaustão nas primeiras três tentativas.  Sim, houve lágrimas e frustrações, mas, era inevitável não rir quando alguém da família se envolvia.

— Serei seu espelho, mãe.

Concordei com Amanda e finalizamos mais uma sessão.

— Chegamos aos cinco quilos nos halteres — cantarolei, reconhecendo que era muito bom poder carregar um pouco de peso, sentir minhas mãos firmes ao segurar o objeto — Logo eu poderei segurar as rédeas de Vulcão e nem pesa tudo isso.

— Paciência, Carolina  — minha ruivinha retrucou. 

Era o que eu repetia  ao acordar e encarar a cadeira de rodas e o andador.

Em Um SomOnde histórias criam vida. Descubra agora