A chuva tinha se extinguindo há pouco tempo, ainda era possível notar relâmpagos antes do som de trovões. O clima estava ótimo, vovó Gislene tinha praticamente me envolvido numa manta quando recusei voltar para dentro da casa.
— Você quem causou essa chuva, né?
Fiz uma careta para José Pedro, apoiando meu rosto na mão.
— Talvez seja sua presença na fazenda, mano.
José Pedro apoiou as mãos atrás da cabeça, bem tranquilo.
— Parei de dividir minhas horas de trabalho, Carol.
— Espera... Você vai ficar somente em Leotie?
— Sim.
— Não acredito — blefei com uma careta.
— É melhor acreditar, Carol — olhei para trás enquanto Thamara se aproximava e obrigava nosso irmão a dividir o espaço no sofá — O caçulinha vai trabalhar pros nossos pais.
— Uau! — eu poderia me acostumar — Quando se muda para cá, matemática?
Minha irmã fez um bico e balançou a cabeça em negativa:
— Por enquanto não temos planos.
— Podemos montar um força tarefa para convencer seu marido — eu sugeri, aproveitando o tempo com meus irmãos.
— Está vendo, JP, por que ficamos preocupados com ela? Está totalmente recuperada.
Eu ri, cruzando os pés.
— Obrigada por me visitarem.
No começo eu estava irritada com as constantes bajulações, em um ciclo que me colocava dependente de todos na fazenda. E o processo para ouvi-los verdadeiramente foi um grande obstáculo, eu ainda mantinha algumas lembranças dos primeiros dias de internação e eu não havia contado a ninguém.
Uma parte de mim era capaz de acreditar que eu tinha voltado ao passado, seguindo o ritmo cardíaco de Igor, enraizada na memória quando ele incentivou que Amanda captasse aquele som com um estetoscópio.
— Se você é capaz de entender esse som nada mais importa — Igor disse com tanto entusiasmo que na época eu realmente quis mudar minha concepção sobre o som.
E com os dias contados para retornar a minha vida fora do hospital eu era surpreendida por não ter mais mágoa sobre as escolhas de quem eu fui aos vinte e nove, e a faísca por um recomeço eu tentava alimentar com uma discreta esperança.
Nada era do meu jeito, mas eu precisava valorizar esse caminho.
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Encarei a fisioterapeuta sem entusiasmo, eu precisava fortalecer o corpo e isso incluía movimentos, ainda que viesse a sensação de exaustão nas primeiras três tentativas. Sim, houve lágrimas e frustrações, mas, era inevitável não rir quando alguém da família se envolvia.
— Serei seu espelho, mãe.
Concordei com Amanda e finalizamos mais uma sessão.
— Chegamos aos cinco quilos nos halteres — cantarolei, reconhecendo que era muito bom poder carregar um pouco de peso, sentir minhas mãos firmes ao segurar o objeto — Logo eu poderei segurar as rédeas de Vulcão e nem pesa tudo isso.
— Paciência, Carolina — minha ruivinha retrucou.
Era o que eu repetia ao acordar e encarar a cadeira de rodas e o andador.
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Em Um Som
RomanceCarolina Moura Souza assoprou sua vela de quarenta e cinco anos. Ela detestava envelhecer, detestava ser descrita como a filha mais velha e serena, principalmente quando sentia dentro de si um vulcão escondido. E esse era o problema; a mata ao red...
