Bebês

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Segurando um ramalhete de cravos vermelhos, rosas e amarelos, Mirela entrou na biblioteca da mansão, que também servira de escritório para seu marido, cumprimentando-o enquanto seguia para o vaso pousado em uma mesinha próxima a janela com rosas multicoloridas.

Fechando o livro em suas mãos, Fabrício observou as costas da esposa, que pousava o ramalhete ao lado do vaso para retirar as flores antigas.

— Soube que falou com nosso caçula — ela disse casualmente.

— Tenho espiões nessa casa? — perguntou, embora não estivesse surpreso. A fidelidade dos empregados da mansão para com Mirela era anormal. Tudo o que acontecia na residência, cada passo, certo ou errado, era rapidamente informado para sua esposa.

— Tem funcionários dedicados — Mirela corrigiu colocando os cravos no vaso e ajeitando-os. — Se fossem espiões eu não estaria aqui em busca do motivo.

— Falar com nosso filho não é motivo suficiente? — Ficando de frente para o marido, Mirela cruzou os braços e o encarou cética. Sabendo que ela não desistiria facilmente, decidiu falar uma meia verdade: — Falamos sobre negócios. Nada com o que deva se preocupar.

— Sempre me preocupo com meus bebês.

— Eles não são mais bebês — ressaltou, pois, obviamente, ambos os seus filhos eram responsáveis pela própria vida, tanto que Simon dispensara sua ajuda.

— Para uma mãe seus filhos sempre serão bebês — Mirela argumentou na defensiva. — E que negócios teriam em um domingo?

— É por enxerga-los como bebês que interfere tanto na vida deles? — Fabrício questionou disposto a prosseguir no tema seguro e desviar a curiosidade da esposa.

— Tento fazer o melhor para eles — disse, levando a mão a um cravo, que acariciou distraidamente. — É um bônus que sempre consigo com que as coisas caminhem do jeito que desejo.

— Não com nosso filho relutante.

— Até com ele. — Inclinou-se e inalou o perfume dos cravos. — Não sente a fragrância do amor?

Fabrício levantou e se aproximou dela.

— Sinto a fragrância todo dia — respondeu aconchegando-a em seus braços para aspirar o perfume do cabelo preto da esposa.

— Bom mesmo que sinta — Mirela disse, acariciando os fios grisalhos do marido e sorrindo com doçura. — Mas você não me engana. O que era tão urgente que precisou ligar para o Simon hoje?

Fabrício suspirou, sabendo que a mulher não sairia sem uma explicação detalhada em que acreditasse, optou pela melhor estratégia para desvia-la da direção correta. Dar algo que ela desejasse muito.

— Planejei uma surpresa... — inventou, jogando a isca que a esposa abocanhou sedenta.

— Que surpresa? — Mirela o fitou interessada. — Exijo saber o que é.

— Assim não será mais surpresa.

— Caso não conte, descobrirei de qualquer maneira, por isso, poupe-me do trabalho, querido — alertou deslizando as mãos pela fileira de botões da camisa social preta que Fabrício usava.

— Prometa não dizer que sabe ao nosso filho e nem persegui-lo para que aceite — pediu, embora soubesse que Mirela, de alguma forma, faria exatamente o oposto sem levantar suspeitas.

— Prometo.

— Como o aniversário dele cairá em um fim de semana, pedi que comemorasse conosco.

— Jura? — Os olhos escuros de Mirela brilharam como os de uma criança em frente a uma vitrine de doces, do jeito que Fabrício presumira.

Avesso a festas em que o foco seria ele, desde que se mudara Simon evitava a família – Mirela – em seu aniversário, o que a desagradava e entristecia. A esperança de ter o filho em casa nessa data manteria a mente de Mirela ocupada nas semanas antes da data comemorativa.

— Não é nada certo, ainda. Mas creio que ele aceitará. — Mentalmente, Fabrício decidiu mandar um e-mail exigindo que Simon aceitasse. Se tinha que dribla a mania de investigadora de Mirela, Simon também teria de fazer alguns sacrifícios. — Mas será um jantar íntimo, só a família.

— Claro... — ela assentiu desviando os olhos para o lado. — Mas, poderia convencê-lo a aceitar as meninas — pediu voltando seus olhos suplicantes. — Sabe o quanto elas são importantes para mim, que as vejo como parte da família.

— Tentarei...

Mirela o abraçou com força, apoiando o queixo em seu peito enquanto mantinha os olhos negros presos aos dele.

— Já disse que te amo e que você é o melhor marido do mundo?

Recebendo o beijo agradecido da esposa, Fabrício acrescentou a lista de Mirela que também era inteligente. Desviara a atenção da esposa e ainda a deixara satisfeita com ele. 

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