Eu vou

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Na sala de Gabriel, Simon conversava sobre um possível novo cliente, quando Cherry entrou afoita na sala, sem bater ou se anunciar.

— Senhor, Tamara e o ex-marido estão discutindo no setor de criação.

Gabriel levantou de imediato e seguiu apressado para o elevador, só se dando conta de não estar sozinho, quando Simon selecionou o décimo andar antes que ele o fizesse. A subida rápida e a preocupação com a irmã, evitou que questionasse o sócio.

Quando chegaram ao andar, foram recebidos por olhares ansiosos, preocupados e chocados com o que acontecia na sala de Tamara. Ao contrario do nono andar, em que ficavam as áreas de planejamento, presidência e diretória, com exceção das salas de vídeo e som, as divisões do setor de criação eram feitas com paredes de vidro, por isso a discussão da Saadi com o ex era assistida por todos. Não dava para ouvir o que diziam, mas pelo que viam não parecia agradável. Pierre estava com um sorriso repulsivo, dizendo algo que colocara uma máscara de ódio e lágrimas no rosto de Tamara.

Seguindo Gabriel até o escritório de Tamara, Simon sentiu o sangue em ebulição, subindo por suas veias como fogo, entupindo seus ouvidos e tingido de vermelho tudo a sua frente. Apertou os punhos, enquanto imagens de Paulina no lugar de Tamara, sendo acuada por aquele verme, ocupavam sua mente. Entrou no escritório atrás do sócio e encostou o corpo na porta após fecha-la, precisando manter distância de Pierre para não cometer uma loucura. Limitou-se a discar o número da segurança do prédio.

— O que faz aqui? — Gabriel perguntou se colocando entre Pierre e Tamara.

— Seu pai me mandou — respondeu, fazendo Tamara grunhir ao acrescentar sorrindo: — Ele quer que Tamara volte para casa e cumpra seu dever de esposa.

— Não sou esposa de ninguém — Tamara esbravejou com raiva e amargura.

— Perante Deus você é minha esposa, querida.

— Por muito tempo permiti que você e meu pai conduzissem minha vida, mas acabou — disse secando o rosto com a maior dignidade que conseguiu, cansada de discutir e ser o centro das atenções.

— Seu irmão colocou ideias loucas em sua cabecinha vazia. — Ele a encarou ameaçador. — Tolerei sua fuga e o estúpido pedido de divórcio, mas você é minha, sempre será.

— Pertenço única e exclusivamente a mim mesma — ela revidou zangada, segurando a vontade de lançar algo no ex-marido.

Pierre gargalhou.

— É tão estúpida!

Gabriel se adiantou furioso.

— É melhor que saia agora...

— Ou o que? Vai me bater?

— Ele não — disse Simon tocando o ombro de Pierre, fazendo com que virasse. — Eu vou.

O golpe rápido e fortalecido pela raiva acertou o maxilar de Pierre, que caiu desorientado no chão, levando junto alguns objetos da escrivaninha de Tamara. Simon se abaixou e agarrou o colarinho da camisa de Pierre, sussurrando irado:

— Se acha poderoso por maltratar, amedrontar e ameaçar mulheres? Encontro mais utilidade num monte de merda do que em você. — Empurrou Pierre de volta para o chão e se levantou. — Os seguranças estão a caminho e te ajudarão a encontrar a saída. Da próxima vez que o vir na SaaTore, não será só a sua cara asquerosa que socarei — ameaçou com desprezo.

Dois seguranças entraram na sala e ergueram Pierre do chão.

— Você vai pagar por isso, filho da puta — Pierre esbravejou encarando Simon com raiva enquanto era escoltado para fora.

— O que foi isso? — Gabriel perguntou olhando de Tamara para Simon, pois queria explicação de ambos.

Simon deu de ombros, não desejando explicar-se, nem mesmo considerava necessário fazê-lo. Pierre merecia aquele soco há anos.

— Agradeço a demonstração de força bruta, Salvatore, mas foi insensatez — Tamara avisou, apoiando as mãos na mesa em suas costas. — Pierre é vingativo e nesse momento planeja formas de retaliação.

— Não tenho medo.

— Deveria — disse com cansaço, esfregando a testa com o polegar e o indicado. — Pierre tem meios de prejudicar cada um de nós.

— O que Pierre queria? — Gabriel questionou. — E porque permitiu que entrasse aqui?

— Perdemos a conta Zieder e duas outras avisaram que pensam em não seguir conosco. Sabe o que elas possuem em comum? — Sorriu com tristeza. — Pierre. Por isso aceitei falar com ele.

— O que ele fez?

— Papai precisa de um herdeiro na empresa. Khaled não serve, você se nega e eu sou mulher. Porém, de acordo com Pierre, papai o aceitaria na presidência, se ele me convencer a voltar... — Soltou um riso engasgado e sofrido. — Ele propôs um acordo, volto "mansinha" e ele não afunda a SaaTore.

— Você não voltara para aquele monstro.

— Óbvio que não — Tamara esclareceu. — Pensei que me desligar da SaaTore fosse o melhor no momento. Ou seria antes de Simon bater no Pierre.

— Está defendendo aquele merda?

— Agradeci, não agradeci? Eu mesma arrebentaria a cara do desgraçado e jogaria seu corpo podre na primeira lixeira que eu visse. — Cruzando os braços, acrescentou: — Se não tivesse tanto a perder.

— Acredita que ele pode mesmo nos "afundar"? — Simon perguntou descrente.

— Estive casada com aquele verme por oito anos, oito malditos anos — recordou com acidez. — Garanto, ele é capaz disso e muito mais para conseguir o que quer.

— Ele pode tentar — desafiou Simon, preparado para lutar.

~*~

Retornando a sala de Gabriel, após convencerem Tamara a continuar na empresa, Simon não se arrependia do que fizera, ao contrario, a satisfação de golpear Pierre era maior que a preocupação com uma possível vingança. Porém, Gabriel era de outra opinião.

— Porque fez aquilo? Não me interprete mal, gostei que socou o sujeito, mas nunca o vi tomar partido em uma briga que não o envolve diretamente.

— Apesar de Tamara encher minha paciência com sua arrogância, ela faz parte da equipe — explicou, ocupando o lugar que ocupava antes do alerta de Cherry.

Gabriel o encarou com desconfiança, mas não se estendeu na dúvida.

— Bem, agora temos o problema dos clientes desistentes e da possível influencia de Pierre nos nossos negócios — disse, encostando o quadril em sua escrivaninha e remexendo os papéis na mesa, o nervosismo não permitiria que relaxasse em sua poltrona. Tamara e ele tinham muito a perder com a possível retaliação de Pierre.

— Conversarei pessoalmente com os clientes — Simon decidiu consciente que a preocupação do sócio tinha fundamento. — Descobrirei o que Pierre fez para manchar o relacionamento deles conosco. Com isso poderemos tomar medidas para que outras contas não sigam o mesmo rumo.

— Não acredito que Abdul deixe a presidência para Pierre. O velho planeja algo maior para fuder com nossas vidas. Descobrirei o que é agora mesmo. — Pegou seu terno no encosto da poltrona, mas então parou e soltou um palavrão. — Tenho uma reunião às 19 horas com Bernard Zanba.

— Vou em seu lugar — Simon ofereceu. — Resolver a situação com Pierre e Abdul é prioridade.

Agradecido, Gabriel colocou o terno.

— A reunião é na casa do cliente. Cherry pode te passar o endereço. — Pegou uma pasta com o logo da SaaTore sobre sua mesa e a entregou para Simon, antes de recolher suas coisas. — Nesta pasta estão as pesquisa que o cliente solicitou, junto com os custos e gráficos das analises do setor de criação. Diga que tive um mal estar e como ele é um cliente importante pedi para que você, o presidente, me substituísse. Isso vai aplacar qualquer ressentimento. Ah, e seja gentil com a Jasmine — ele gritou atravessando a porta.

Ensina-meHistórias para pegar e não largar. Descubra agora