Espécime

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Na segunda de manhã, acompanhada por Simon e Henrique, Paulina seguiu – quase – à risca os exercícios indicados. Quase, porque deixou Henrique auxiliando Simon com pesos e escapuliu para observar Thiago instruindo crianças com idades variadas em sua aula de kickboxing. A sala em que ele ensinava ficava no fundo da academia, ao lado de outra sala na qual um grupo praticava ioga, ambas separadas do restante do local por paredes de vidro e porta de madeira.

Naquele dia, o Padilha usava um short vermelho e regata cinza com o nome da academia escrito na frente e "instrutor" nas costas. Paulina viu que ele tinha uma tatuagem monocromática de uma pegada canina no braço direto, no interior da imagem havia os traços de uma face canina e em baixo dois ideogramas em vermelho.

Paulina se sentou em um dos sofás redondos dispostos próximos das salas, atenta a forma que Thiago ensinava os pequenos alunos. Ele tinha um jeito especial de lidar com cada um, adaptando-se conforme a dificuldade e características dos alunos. Mesmo os mais retraídos eram incentivados pela animação e carisma do Padilha, como ocorrera com ela após conhecê-lo.

— Mais uma para o fã clube do filhotinho da academia.

Voltou-se para uma mulher, que sentou ao seu lado secando o rosto com uma toalhinha. Aparentava ter mais ou menos sua idade, o longo cabelo negro amarrado no alto da cabeça, o top e a legging de estampa de onça valorizando o físico tonificado com peitos avantajados, e a maquiagem em volta dos olhos claros e da boca carnuda continuava perfeita apesar do suor que escorria pela pele clara.

— Infelizmente, nosso belo cachorrinho é inalcançável. — A mulher a fitou fixamente. — Mas você tem seu próprio espécime... — Ela dirigiu o olhar faminto para Simon. — Um com pedigree e dentes afiados, se é que me entende.

Ela entendia, e exatamente por isso não gostava do jeito que aquela mulher falava e olhava para Simon. Presumiu que era uma das inúmeras "amigas" de Simon. Uma que não respeitava o fato de que – aos olhos de todos ali – ela era noiva do Salvatore.

— Oh, não precisa ficar com essa carinha, fofa! — disse a mulher encostando de leve os dedos com unhas rosa em seu braço. — Já marcaram a data do casório? Você sabe, tudo pode acontecer antes da cerimônia... Alguém mais interessante pode aparecer... — Paulina conteve a vontade de soltar algo ríspido, mas a mulher estava disposta a testar sua paciência. — Pelo menos, mais magra não é difícil encontrar — acrescentou desdenhosa olhando Paulina de cima a baixo com uma sobrancelha erguida.

Paulina empalideceu, recordando que seu casamento com Nathaniel fora cancelado por causa disso, uma mulher magra e desinibida apareceu e roubou seu noivo poucos dias antes da data marcada.

— Homens são volúveis, ainda mais um tipo sedento por sexo como o Salvatore — ela explicou deliciando-se com a lividez e tristeza de Paulina. — Desculpe-me, fofa, mas segurar um homem assim é impossível. Cedo ou tarde, casado ou não, eles procuram outra... e nem precisa ir muito longe — indicou com um sorriso cheio de maldade, a forma que dizia "fofa" deixando Paulina enojada.

Paulina levantou de um salto e, cega de raiva e humilhação, marchou na direção da saída da academia com o coração batendo veloz e a respiração difícil. Porém, antes de atravessar a porta, o zunido na cabeça – causado pela voz irritante daquela mulher – deu lugar à razão.

Por mais que não tivesse o corpo malhado e magro, Simon não cansava de dizer que o adorava. Corou ao recordar que na noite anterior ele beijara e acariciara cada uma de suas curvas enchendo-a de elogios. Se ele que, segundo aquela mulher horrorosa, saíra com diversas mulheres dali, não se importava com os excessos de seu corpo, então ela não deveria se abalar pelas palavras ferinas de uma desconhecida. Cansada de fugir, de ser acuada e virar chacota, deu meia volta, caminhando decidida até Salvatore.

Parado ao lado da esteira, concentrado no que Henrique explicava, Simon a encarou interrogativo quando ela se colocou entre os dois. Sem pensar muito na repercussão, Paulina ficou na ponta dos pés e, mergulhando os dedos nos fios negros e macios do cabelo dele, o puxou para roçar sua boca na dele, a ponta da língua deslizando pelo lábio superior masculino.

— Vamos para casa, amor? — pediu carinhosa, o sorriso, pernas e mãos trêmulos denunciando seu estado de nervos.

Simon franziu o cenho e Paulina temeu que recusasse, mas um segundo depois ele sorriu de canto, enlaçou sua cintura e depositou um beijo estalado em sua boca.

— Seria louco se recusasse seus pedidos, meu amor. — ele disse com um brilho de diversão nos olhos antes de se voltar para Henrique. — Nos vemos amanhã.

— Claro! — concordou Henrique ajeitando o óculo escuro. — Você também Paulina. Não pense que não notei que escapou para olhar a aula do Thiago. — Assentindo, Paulina corou por ser repreendida, embora Henrique não parecesse realmente ofendido pelo ocorrido.

Simon recolheu a mochila que levava com as coisas deles e voltou a colocar um braço em sua cintura para saírem. Antes de passar pela porta procurou pela mulher que a irritara antes, encontrando-a no mesmo lugar olhando para eles.

Só para mostrar que ela estava errada sobre seu noivado, Paulina puxou a camiseta de Simon de forma a fazê-lo olha-la e sorriu com candura, aninhado o rosto contra o braço dele. Sentiu-se vitoriosa quando ele se inclinou para beija-la um pouco mais demoradamente. Não precisava olhar para trás para saber que a mulher engolira seu veneno a seco.

Finalmente, dentro do elevador, Simon analisou Paulina intensamente.

— O que aconteceu?

— Gosto mais das aulas de kickboxing do que dos exercícios. — Com os olhos claros fixos na porta de metal, Paulina desconversou. — É cansativo ficar pulando de aparelho para aparelho.

— Se não gosta, fique só com as aulas do Thiago.

Negou sentindo a garganta travar ao lembrar o que ouvira.

— Eu preciso... meu corpo...

Simon a segurou pela cintura e a puxou contra o peito.

— Seu corpo é maravilhoso — sussurrou contra seu ouvido, apertando-a, depositou beijos de seu ombro até o pescoço. — Poderia me perder facilmente nele agora.

— Simon... — Paulina tentou se afastar ao ouvir a porta do elevador abrir e alguém entrar.

Mas Simon não a soltou e nem parou de beija-la, as mãos acariciando suas costas e a boca mordiscando sua orelha. Olhou apavorada um senhor parar ao lado deles, observando-os rapidamente e soltando um resmungo de reprovação antes de fixar-se no visor de andares.

Agradeceu mentalmente que o apartamento dele ocupasse todo o andar, pois, assim que saíram do elevador, Simon nem ao menos esperou a porta fechar antes prendê-la contra a parede, os lábios dominantes e famintos tomando os seus.

— Vamos tomar banho juntos... — Ele pediu com voz enrouquecida e desejosa. As mãos grandes a puxaram pelo quadril, o começo de sua ereção roçando a barriga feminina. — Assim mostro como seu corpo me excita.

Sorrindo com timidez e ardendo em volúpia, a Perez assentiu, adorando que ele entrelaçou os dedos nos dela ao caminhar apressado em direção ao apartamento. Era um detalhe insignificante, levando em consideração que era um gesto tão falso quando o noivado deles, mas Paulina gostava quando ele era carinhoso com ela, quando dizia apelidos melosos e agia como se estivessem juntos de verdade.

Adorava se enganar, refletiu enquanto o observava pegar a chave no bolso da calça moletom cinza com a mão livre, a encaixava na fechadura e franzia o cenho de um jeito que antigamente significava problemas para ela, mas agora lhe dava vontade de apagar com beijos.

Paulina o seguiu sentindo os dedos dele se fecharem como aço em volta dos seus e a tensão domina-lo. Surpresa com a mudança de humor percebeu que ele se concentrara em algo a frente. Seguiu seu olhar e viu a cabeleira negra de costas para eles sentada no sofá. 

Ensina-meHistórias para pegar e não largar. Descubra agora