2023
Rio de Janeiro, Barra da Tijuca
- Amora, eu quero sair do projeto. - Ela disse, assim que a voz animada de sua diretora e amiga atingiu seu ouvido esquerdo.
- É o que, Giovanna? - Perguntou, em tom de risada, contrastando a feição séria e, levemente, desesperada da atriz, que balançava uma Lily adormecida em seus braços.
- Eu quero sair do projeto, não quero fazer a novela. - Respirou fundo, uma dor de cabeça se formava, ela podia sentir.
- Como assim, Giovanna? Por que? - Amora se desesperou, falava rápido e alto. - Quer saber? São onze horas da noite, dorme. É sono, amanhã é outro dia.
- Não, Amora. Tô falando sério. - Giovanna resmungou, feito uma criança contrariada, porque sentia-se assim.
Fazia exatamente doze horas e cinco minutos que Alexandre retornou à sua vida.
Doze horas e cinco minutos que aquele homem, tão igual e tão diferente do jovem por quem se apaixonou, surgiu pela porta da sala de reuniões, como um ator experiente simplesmente entrando em cena ao começo de um novo ato.
Doze horas e cinco minutos que travava uma batalha interna entre desistir do projeto ou não.
- Você falou com a Piny? - A loira perguntou, como sempre faziam quando o assunto era trabalho.
- Não preciso da permissão dela, Amora.
- Sei que não, mas tu tá bem doida agora, né? Por que tu quer desistir?
A maior parte de seus empregadores a colocavam em um papel de dependência com sua agente, como se a atriz não fosse capaz de fazer decisões profissionais sem conversar com Piny, como se fosse uma criança que precisava pedir permissão para sair com as amigas.
Tal pensamento a irritava profundamente.
- Eu...Ah, eu não tô afim de fazer, acho que não é o momento. - Colocou a bebê no berço e caminhou até a sala, deitando no sofá, com as pernas balançando sobre o braço do estofado.
- Não. Isso não cola. - A loira ficou um tempo em silêncio, até que fez um ruído de realização. - Tem haver com o Alexandre?!
Bingo! Tinha tudo haver com Alexandre.
- Que?! Hm...Eu...Amora, eu...
- Tá, tem haver com ele, entendi. O que tem o cara? Tá desconcertada porque ele é um baita dum gostoso?
- Não. - A voz de Giovanna transparecia toda a seriedade e peso do assunto, fazendo Amora mudar seu tom.
- Então o assunto é sério. - Constatou, muito mais centrada, com um tom baixo e linear, um tanto preocupado. - O que aconteceu, deusa? É o nome dele?
Durante anos, ela se negou a falar sobre ele.
Se privou de ouvir as músicas que escutava com ele, de ver os filmes que assistiram juntos ou ler os livros que, um dia, dedicaram um para o outro.
Para ela, Alexandre era um nome proibido, um assunto amaldiçoado.
Amora acompanhou o trágico fim da história de amor compartilhada entre o beija-flor e seu músico. Não chegou a conhecer o outro protagonista dessa trama, mas presenciou as marcas por ele deixadas.
Foi a loira que deu colo para a jovem assustada que chorava copiosamente no banheiro da UFRJ. Foi Amora que segurou a mão de Giovanna nos longos minutos de espera pelo resultado do exame de sangue. A diretora artística esteve lá, ao lado dela, para segurá-la em todos os momento em que desabou.
Mas tudo isso não tornava fácil o ato de se abrir. Não, falar o nome dele, dizer que ele estava de volta, tornava todo o pesadelo real e, depois de tantos anos fugindo do passado e lidando com suas cicatrizes, ela não se sentia capaz de enfrentar o passado.
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Codinome Beija-Flor | GN
RomanceQuando um jovem músico se apaixona por um beija-flor. TW: Relacionamento abusivo, agressão. (Os eventos descritos nessa história não possuem compromisso algum com a realidade)
