2023
Projac, Rio de Janeiro
Giovanna sempre foi muito sistemática sobre seus passos e vida, tanto que quase chegava a ser calculista.
Analisava cada fala, cada gesto, cada expressão e cada riso.
Organizava cada folha, cada móvel, cada agulha e cada fio de cabelo.
Criava realidades como ninguém, inventava sentimentos inexistentes e calmaria que não vivia. Mostrava a todos apenas o que desejava mostrar, não via problema algum em esconder todo o resto até que engasgasse com próprio sangue.
Sua cabeça, por outro lado, era um turbilhão o tempo todo. Os pensamentos iam e vinham em questão de segundos, sem aviso prévio, se misturavam e embaralhavam e explodiam.
O tique-taque soavam em seus ouvidos.
Bomba relógio, prestes a explodir.
Ela sempre estava prestes a explodir, a gritar, a chorar, a enlouquecer.
Tique-taque.
Tique-taque.
Seu tempo estava acabando, mesmo que o mundo ainda não tivesse começado a contar os minutos.
Tique-taque.
Tique-taque.
- Pera. - Amora disse. - Deixa eu ver se eu entendi.
A diretora à sua frente, tão elétrica e aturdida, fazia acelerar o peito de Giovanna, como se isso ainda fosse possível.
Diante das circunstâncias, torcia para ter um ataque cardíaco, assim, não teria que lidar com monstros, passado, amores, ódios.
Tique-taque.
Fazia exatamente meia hora desde que o telefonema de Suelly a salvara de cometer um erro irreparável. Fazia meia hora desde que seu mundo, organizado, foi bagunçado.
- Eles querem ficar na sua casa?
Giovanna fez que "sim".
- E você deixou?
Mais uma vez, balançou a cabeça.
- Caralho, você é burra ou o que?
- Eles são meus pais, Amora. - Retrucou, os lábios franzindo.
Os ponteiros do relógio rodando sem parar, cada vez mais rápido, mais sufocante. A cabeça ardendo em dor, como se um tiro a tivesse perfurado bem ali.
- Gica... - Amora se aproximou, agora, um tanto cuidadosa.
Ela conhecia a comadre tão bem quanto o certo músico, que quebrou os pedaços que a loira juntava pouco a pouco no decorrer dos anos.
Ela sabia quando pressionar e até onde pressionar.
Amora reconhecia os momentos em que a corda dela estava tencionada ao extremo.
Aquele era um desses momentos.
Todos os sinais corporais de sua amiga apontavam para isso:
As mãos fechadas nas laterais do corpo, a postura rígida, os olhos piscando mais do que o normal. A voz embargada.
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Codinome Beija-Flor | GN
RomanceQuando um jovem músico se apaixona por um beija-flor. TW: Relacionamento abusivo, agressão. (Os eventos descritos nessa história não possuem compromisso algum com a realidade)
