22.0 - eu vi a cara da morte e ela estava viva

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2023
Projac, Rio de Janeiro

Giovanna sempre foi muito sistemática sobre seus passos e vida, tanto que quase chegava a ser calculista.

Analisava cada fala, cada gesto, cada expressão e cada riso.
Organizava cada folha, cada móvel, cada agulha e cada fio de cabelo.

Criava realidades como ninguém, inventava sentimentos inexistentes e calmaria que não vivia. Mostrava a todos apenas o que desejava mostrar, não via problema algum em esconder todo o resto até que engasgasse com próprio sangue.

Sua cabeça, por outro lado, era um turbilhão o tempo todo. Os pensamentos iam e vinham em questão de segundos, sem aviso prévio, se misturavam e embaralhavam e explodiam.

O tique-taque soavam em seus ouvidos. 

Bomba relógio, prestes a explodir.

Ela sempre estava prestes a explodir, a gritar, a chorar, a enlouquecer.

Tique-taque.

Tique-taque.

Seu tempo estava acabando, mesmo que o mundo ainda não tivesse começado a contar os minutos.

Tique-taque.

Tique-taque.

- Pera. - Amora disse. - Deixa eu ver se eu entendi.

A diretora à sua frente, tão elétrica e aturdida, fazia acelerar o peito de Giovanna, como se isso ainda fosse possível.

Diante das circunstâncias, torcia para ter um ataque cardíaco, assim, não teria que lidar com monstros, passado, amores, ódios.

Tique-taque.

Fazia exatamente meia hora desde que o telefonema de Suelly a salvara de cometer um erro irreparável. Fazia meia hora desde que seu mundo, organizado, foi bagunçado.

- Eles querem ficar na sua casa?

Giovanna fez que "sim".

- E você deixou?

Mais uma vez, balançou a cabeça.

- Caralho, você é burra ou o que?

- Eles são meus pais, Amora. - Retrucou, os lábios franzindo.

Os ponteiros do relógio rodando sem parar, cada vez mais rápido, mais sufocante. A cabeça ardendo em dor, como se um tiro a tivesse perfurado bem ali. 

- Gica... - Amora se aproximou, agora, um tanto cuidadosa.

Ela conhecia a comadre tão bem quanto o certo músico, que quebrou os pedaços que a loira juntava pouco a pouco no decorrer dos anos.

Ela sabia quando pressionar e até onde pressionar.

Amora reconhecia os momentos em que a corda dela estava tencionada ao extremo.

Aquele era um desses momentos.
Todos os sinais corporais de sua amiga apontavam para isso:

As mãos fechadas nas laterais do corpo, a postura rígida, os olhos piscando mais do que o normal. A voz embargada.

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⏰ Última atualização: Dec 20, 2023 ⏰

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