2023
Rio de Janeiro, Galeão
Seu corpo estava pesado como se pedras estivessem amarradas aos seus tornozelos, dificultando o andar. Os olhos ardiam, como só aconteceria se estivesse em frente à uma fogueira. O mundo à sua frente girava, quando mudava a direção de seu olhar.
Gripado. Deveria estar gripado.
Ou, então, esses poderiam ser os sintomas do cansaço que o atingia pela noite mal dormida, pelos sonhos agitados, pelo coração inquieto.
Doente. Se sentia doente, abatido, derrubado, fraco.
Esses eram o efeito que a ansiedade, por passar um final de semana ao lado de Giovanna, lhe causava.
O mental refletia no físico.
- Ei! - Dedos estalaram próximos aos seus olhos, com tamanha rapidez que poderia jurar que havia ficado ainda mais zonzo. - A Gio chegou. - Amora avisou, segurando a alça da mala às suas costas. - Tá tudo bem?
- Aham. - Respondeu, no automático, desencostando da imensa janela que mostrava os aviões na pista, para seguir a chefe até a figura pequena de Giovanna segurando Lily.
O rostinho amassado, juntamente com o biquinho emburrado, da bebê entregavam que havia acabado de acordar e estava irritada por ter seu soninho interrompido. Com a cabeça completamente largada no ombro da mãe, ela brincava com o colar que a mais velha carregava.
- Oi. - Alexandre cumprimentou a colega, se perdendo na linda imagem, que mãe e filha formavam, por um instante. - Tudo bem?
- Uhum. - Balançou a cabeça, somente, apertando os braços ao redor do corpinho de Lilian, como se ela fosse capaz de escapar de seu toque.
De cenho franzido, Nero analisou o semblante cansado de Giovanna. As olheiras moldavam os olhos castanhos, levemente vermelhos, e os lábios pouco rosados pareciam um tanto secos.
A cada dia que passava, ele percebeu, ela parecia mais e mais exausta, magra, sem energia.
O sorriso, que distribuía naturalmente para todos, aos poucos, tornava-se menos reluzente. As pupilas, dilatadas na medida certa, brilhantes, as quais encantavam qualquer um como magia, estavam cada dia mais apagadas. E a animação, de quem acordava de bom humor, pronta para enfrentar o mundo com uma alegria absurda, era, quase sempre, forçada.
Tais mudanças eram imperceptíveis para os leigos sobre a vida e persona de Gio, porque, poucos, tinham o privilégio de conhecer uma parcela da personagem principal, embrenhada, escondida entre as outras.
Quem mais aparecia ao mundo, era Giovanna Antonelli, a atriz elétrica, carismática, simpática, inteligente. Absurda em sua grandiosidade.
Quem mais aparecia ao Alexandre, era apenas Giovanna, ou melhor, Beija-Flor. A mulher que era a confusão de mil poemas sendo recitados ao mesmo tempo. Uma força da natureza ao mesmo tempo discreta, ao mesmo tempo avassaladora...Uma menina, no corpo de uma mulher. Sensível, amorosa, sonhadora, inocente.
Ele tinha suspeitas de que suas atitudes passadas possam ter contribuído para a construção da personagem, quase caricata demais para a realidade, a qual seu Beija-Flor flor usava para se proteger do mundo, de maneira imperceptível para os de fora.
Se odiava mais a cada instante ao assistir os movimentos, apáticos, milimetricamente calculados para passar uma ideia contrária do que acontecia em sua vida. Se odiava mais a cada instante em que via aquela bebê, que mais parecia uma flor de tão delicada, e percebia que ela era filha de outro homem. Se odiava mais a cada dia que brincava com os filhos que, um dia, prometeu que seriam de Giovanna também.
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Codinome Beija-Flor | GN
RomanceQuando um jovem músico se apaixona por um beija-flor. TW: Relacionamento abusivo, agressão. (Os eventos descritos nessa história não possuem compromisso algum com a realidade)
