11.0 - nossos destinos foram traçados na maternidade

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2023
Rio de Janeiro, Projac

O passado lhe atingiu em cheio, no instante em que leu a cena de reencontro de Íris e Miguel, que, coincidentemente ou não, era absurdamente parecida com o início da infinda história do músico e seu beija-flor.

Tamanha semelhança entre ficção e realidade só poderia ser uma armação do destino para enfiar-lhe mais uma faca no peito.

Se as chances de se interpretar uma personagem que poderia muito bem descrever à ela mesma ao lado de alguém que já fez parte de sua história já eram praticamente nulas, as chances de se interpretar uma cena já vivida por ela e pelo alguém em questão seriam inexistentes para qualquer um.

Por que as coisas tinham que acontecer logo em sua vida?
Por que seus monstros sempre voltavam, de uma maneira ou de outra?
Por que ela não podia ter paz?

Existiam hipóteses para as ações do destino, mas todas elas diziam respeito a alguma consequência karmica que Giovanna carrega, porque, em sua mente, essa era a única resposta viável.

Talvez, ela não fosse qualquer um.
Talvez, suas ações não permitem que seja qualquer um.
Talvez, ser obrigada a relembrar tudo o que aconteceu e o que perdeu seja sua sina.
Talvez, em uma outra vida, tenha sido ruim ao ponto de ter uma reencarnação miserável, repleta de sofrimento e solidão.

- Gio, que bom que chegou. Estamos atrasados. - Uma produtora falou, quando as duas esbarraram na entrada do estúdio destinado à novela.

Era o segundo dia de gravações e um dos mais temidos pela atriz.
Gravariam a primeira cena estrelada por Íris e Miguel, onde o ex-casal se reencontra. E tudo seria completamente normal, se não fosse a estúpida semelhança entre essa cena e o passado onde os personagens da novela davam lugar aos atores que os interpretavam.

- Ok, estarei no estúdio rapidinho. - Garantiu, sorrindo para a moça antes de seguir em direção ao camarim.

Como sempre, Lilian e sua babá a acompanhavam à tira-colo, fazendo da adaptação do camarim de Giovanna algo necessário, que foi prontamente atendido pela equipe responsável pelos atores.

Entrando em seu ponto de paz dentro da bagunça que era o estúdio, ela se apressou para deixar a filha o mais confortável possível antes de começar a se arrumar, enquanto escutava uma música tranquila.

Precisava de acalmar e se concentrar, não podia deixar com que Giovanna sobressaisse Íris. Precisava entender que aquela não era mais sua história e que Alexandre não passava de um colega de cena. Precisava apagar o passado de sua mente e viver o presente, apesar das constantes lembranças do que viveu.

Entretanto, sua parte irracional não lhe deixava seguir em frente, seu subconsciente parecia ser viciado no gosto amargo que a dor lhe proporcionava.

Colocou para tocar no camarim, a mesma música que escutava antes de conhecer Alexandre naquela tarde ensolarada de dezembro:

15 de dezembro de 2004

Rio de Janeiro, Centro

Os passos rápidos e firmes, a faziam se esquivar das pessoas que cruzavam seu caminho, quase entrando em sincronia com o ritmo da voz característica de Cazuza, que cantava ao seu ouvido.

As carrancas dos passeantes não atingiam a moça, que era tomada por pensamentos sobre o futuro, o presente e a vida.
Estava feliz, como na maior parte dos dias, irradiando alegria por onde passava, como um ponto de luz em meio a um céu cinza, o que a destacava na multidão, mas, mesmo assim, havia uma ponta de preocupação em seu ser.

Codinome Beija-Flor | GNHistórias para pegar e não largar. Descubra agora