2023
Duque de Caxias, Rio de Janeiro
A visão do casarão antigo, através da janela do carro, era opaca demais, como se tudo aquilo não passasse de um filme de suspense. O som do motor, ainda ligado, se misturava facilmente com o exterior, onde pessoas trabalhavam em lojas, andavam tranquilamente ou varriam as calçadas de suas casas. Os dedos no volante, brancos pela falta de circulação, estavam prontos para começar a dirigir para longe daquela cena. O coração batia forte na caixa torácica provocando desconforto. A náusea se formava em seu estômago, fechando sua garganta e fazendo sua cabeça girar.
Ela abriu os lábios, fazendo descer o colo e relaxar o diafragma. Escutava uma confusão de pensamentos e batimentos cardíacos.
Queria gritar. Queria correr sem destino, sem pretensão, sentir o vento tocar os cabelos e receber um pouco de oxigênio para preencher os pulmões fracos.
Mas não podia fugir, não podia deixar a razão tomar conta de suas ações quando a emoção falava mais alto.
- É aqui? - Amora, sentada no banco do passageiro, perguntou, com a mão na maçaneta de plástico.
- Aham. - Giovanna respondeu, sem desviar a atenção da fachada de tintura velha. "Orfanato Cosmo e Damião".
Não era o primeiro abrigo que visitava. Aquele era o último em sua lista de busca da região onde nasceu e viveu grande parte da juventude. Entretanto, estava embriagada pelos mesmos sintomas que a tomavam em todas as visitas: medo, esperança, ansiedade, vergonha.
- Vamos, Gio. - A loira colocou a mão em seu ombro, leve para não assustar. - Vai ficar tudo bem, eu tô aqui. - Garantiu, fazendo-a sorrir.
- Ok. - Suspirou, olhando para a amiga pela primeira vez desde que entraram no Civic preto.
Pegando sua bolsa no chão do banco de trás, saiu em direção à calçada oposta, sendo seguida pela diretora.
A sola da bota preta que vestia em contato com o chão mal asfaltado quebrava o silêncio repentino que se instalou na rua.
Suas palmas suadas e trêmulas rasparam nas coxa sobrepostas por jeans, como um ritual precedente do toque da campainha do abrigo.
A porta, logo, foi aberta por uma senhora baixa e magra, cujos cabelos eram bem cacheados em um tom grisalho que entregava sua idade mais avançada. Os olhos escuros olhavam atentamente para as duas, as analisando de cima à baixo.
- Bom dia. - Amora desejou ansiosa. - Como vai?
- Dia. - A mais velha cerrou os olhos, encarando Giovanna como se a reconhecesse. - No que posso ajudar? Vieram fazer uma visita para adoção?
- Não, na verdade, nós queríamos falar com a diretora da instituição, ela está? - A atriz finalmente disse, escondendo as mãos nos bolsos da calça.
- Tá falando com ela agora. - Levantou a sobrancelha. - Meu nome é Rita.
- Giovanna. - Fez um gesto de educação com a cabeça. - Essa é minha amiga, Amora.
- Prazer. - Deu um passo para o lado, abrindo a porta para que as duas entrassem. - Vamos conversar na minha sala, pode ser?
- Claro. - Antonelli respondeu, entrando no casarão com a loira em seu encalço.
- As crianças acabaram de sair pra a escola, não se importem com a bagunça. - Rita pediu, andando em passos apressados. - Como posso ajudar vocês? Do que querem falar?
Apesar de já ter vivido essa mesma cena várias outras vezes, em várias outros abrigos, naquela busca incessante por seu pedaço arrancado de seus braços, era difícil e estranho deixar as palavras saírem de sua boca. Seu coração e mente viviam em uma confusão de quereres, de temores. Queria encontrar Pietro, mas temia que realmente o fizesse. Temia não poder sentir o abraço, daquele que carregou em seu ventre, pelo menos uma vez na vida, mas queria manter-se distante para não machucá-lo com sua presença.
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Codinome Beija-Flor | GN
RomanceQuando um jovem músico se apaixona por um beija-flor. TW: Relacionamento abusivo, agressão. (Os eventos descritos nessa história não possuem compromisso algum com a realidade)
