1.0 - como é triste a tua beleza

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2023
Rio de Janeiro, galeão.

Ele soltou um suspiro assim que parou de andar, em frente ao portão de desembarque do aeroporto, e com um estalar de dedos, as memórias, que havia guardado no fundo da mente, voltaram à tona, como um filme dolorido demais, mas cativante em sua essência.

Se se concentrasse o suficiente, conseguiria escutar a voz rouca e melódica dela dizendo:
"Meu músico"

Era surreal o tanto dela que ainda havia nele, como se ela estivesse gravada em sua pele com tinta e agulha. Assim como ouvia sua voz, sentia seu cheiro no ar e via seu sorriso toda vez que estava sob a luz do sol.
Houve uma época em que ele tentou a apagar de seu ser, mas depois de mil paixões, lugares, coisas ou bebidas, desistiu. Não adiantava, ele sabia disso, sempre soube, ela era parte dele. É fisicamente impossível separar o coração do corpo.

Junto com as belas memórias, que o ar carioca lhe trouxe, veio uma tristeza profunda, há muito perdida, quase que escondida em seu peito.
Essas lembranças e essa mulher eram como sua música favorita, poderia até ficar por muitos meses, até anos, sem escutá-la, mas quando a fizesse, saberia a letra, a melodia, os acordes, tudo de cor e salteado, como se nunca a tivesse parado de ouvir.

- PAPAI! - Sentiu um par de mãozinhas lhe puxar a blusa.

- Que foi, piá? - Se abaixou, soltando a mala que carregava em uma das mãos, e agarrou o menininho de três anos, enchendo seu rostinho, de bochechas rosadas, de beijos. - Tu tá com preguiça de andar, é?! - Riu, se divertindo com a criança que se contorcia em seus braços soltando uma gargalhada infantil.

- Papai! - Inã tentou afastar o rosto do pai, com toda a força que seus bracinhos continham.
O homem se afastou, sorrindo, e ajeitou o corpo pequeno em seu colo, para que conseguisse carregar a mala, a criança e a mochila, que continha em suas costas.

- Temos que pedir o táxi, Alexandre. - A voz meio estridente e pouco rítmica de sua esposa soou, de seu lado direito.
Ela carregava uma mochila e uma mala infantil, enquanto segurava a mão do outro filho do casal com o seu lado livre. - O Noá já reclamou de fome.

- Impossível! Comemos no avião, Noá. - Disse, indignado, porém não surpreso, menino, que já tinha seus sete anos, parecia ter uma lombriga no lugar do estômago. Puxou ao pai, mas em hipótese alguma, Alexandre admitiria isso.

- Mas eu tô com fome, papai. - Resmungou, fazendo um bico, que arrancou um sorriso, acompanhado de um revirar de olhos, do pai.

- Tá bem, tá bem. Vamos chamar o táxi, paramos no hotel, largamos tudo, e saímos para comer. - Propôs. - Pode ser?

- Sim! - As duas crianças disseram em uníssono.

- Vamos. - Noá pegou sua mochila de rodinhas do Ben10 e saiu na frente de todos, com a postura impecável e narizinho em pé.

Alexandre balançou a cabeça, sentindo algo agridoce, uma mistura de felicidade e tristeza, ao ver a cena. Seus dois filhos estavam crescendo e muito rápido, rápido até demais.
Ele pensava que, se pudesse, congelaria o tempo, para impedir que seus piás escapassem por seus dedos. Em contrapartida, ele também gostava de os assistir evoluir, de os ajudar a fazê-lo. Amava cada segundo em que ensinava e, principalmente, aprendia durante a convivência com Noá e Inã.
Era incrível como essas duas criaturinhas conseguiram o mudar completamente, da água para o vinho, no mesmo instante em que chegaram ao mundo.
Assim como não conseguiria mais imaginar sua vida em um futuro onde eles não estão ao seu lado, lhe chamando de "papai" com suas vozes doces e olhos brilhantes, não conseguiria mais se lembrar de como era o Alexandre do passado.

-

Como proposto, a família foi para o hotel, deixou as bagagens e saiu, à caminho do shopping, para que pudessem almoçar.
Noá pediu para que fossem ao McDonald's e, como era final de semana, os pais deixaram, com a condição de que ele comesse algo mais saudável para a janta.
Inã comeu batatinhas fritas, arroz, feijão e frango, já que, para a idade dele, comidas muito gordurosas ainda não eram recomendáveis.

- O que você vai comer, papai? - O filho mais velho perguntou, com curiosidade. Ele carregava seu suco de maçã e acompanhava o pai, que levava a bandeja para o menino, até a mesa onde Karen e o irmão sentavam.

- Acho que o mesmo que a mamãe e o Nãnã, filho.

- Ah! Não vai comer comigo?! - Fez bico, o sotaque levemente puxado para o inglês o fazia ficar mais fofo ainda.

- Não, não vou comer. Lembra que o papai está se preparando para um papel na TV?

- Ah é verdade! O papai vai ser ator igual ao Tom Holland? - Se entusiasmou. - Vai acabar com vilões grandes e de cor estranha?!

- Bom, sim, serei ator igual ao Tom, mas, infelizmente, não vou acabar com vilões coloridos.

- Poxa...- Puxou a cadeira na mesa e se sentou.

- Do que estavam falando? - Karen questionou, assistindo o marido colocar a bandeja em frente à Noá.

- Nada demais. - Alexandre deu de ombros. - Vou ali pegar a minha comida, já volto. - Deixou a mesa, sabendo que estava agindo de forma mais distante e fria com a esposa, só que ele não conseguia evitar, não agora que ainda precisava absorver tudo o que voltou a sentir, assim que pisou em solo brasileiro.

A verdade era que ele sentia como se tivesse se afogado, em um mar de emoções que não conseguia interpretar.
Se sentia triste, meio pesado e, de repente, ciente de tudo o que fez e sentiu nos últimos vinte anos. Não que não tenha sido feliz, ele foi, de certa forma, mas sempre lhe faltou algo...Alguém.

A tristeza e o vazio passaram a fazer parte de sua vida no segundo em que decidiu deixar seu grande amor. Era como se tivesse perdido parte do corpo, do coração, como se a vida tivesse perdido todas as cores e o azul, frio e melancólico, foi o único a ficar. A beleza da vida havia ficado para trás, no passado, e tudo o que restou foi a linda tristeza das memórias e a alegria incompleta da nova realidade.

Por muito tempo, procurou em outros corpos um em específico. Em outros olhos os castanhos únicos que nunca mais encontrou. Buscou por risadas tão roucas, genuínas e melódicas quanto a dela.
Tudo o que encontrou foi um fantasma, que o acompanhava em todos os lugares, que se fazia mais presente naqueles que, um dia, combinaram de passar.
Até o momento em que cansou, cansou de viver na incerteza e decidiu ceder à Karen.

Alexandre conheceu a mulher que, no futuro, seria a mãe de seus filhos quando foi convidado para tocar em um musical. Ela era uma das figurinistas da produção e acabaram se aproximando por serem os únicos brasileiros a compor a equipe.
De início, ele não queria nada sério, mas então decidiu apostar suas fichas na relação dos dois, principalmente depois que descobriram a gravidez de Noá. Ele viu ali, uma chance de finalmente seguir em frente. Sabia que seu Beija-Flor não voltaria mais para sua vida, e, mesmo se o fizesse, ela não o deixaria brecha para que se aproximasse...E, pensando bem, ela teria razão para o afastar, para o odiar.
Por isso, se contentava com o afeto de Karen. Não a amava, mas apenas o carinho que sentia por ela, por ter lhe dado Noá e Inã, já era o suficiente.

Alexandre fez seu pedido e se juntou à sua família, disposto a voltar a esconder as lembranças no fundo da mente, do coração, afinal, desacreditava que Giovanna se lembrasse dele, dessa mesma forma, depois de quase dezoito anos.

Codinome Beija-Flor | GNHistórias para pegar e não largar. Descubra agora