17.0 - meio bossa-nova e rock n' roll

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2023
Barra da Tijuca, Rio de Janeiro

Ele vinha tendo sonhos perturbadores durante a noite e, ao acordar, eles davam lugar à pensamentos tão horríveis quanto.

Nero não conseguia se lembrar da última vez em que seu corpo atingiu um estado de clareza e paz, que só um espírito bem resolvido sentia. Mãos aquecidas, respiração lenta, espinha dorsal totalmente relaxada...Na mente, uma canção. Sempre a mesma voz, sempre a mesma melodia, sempre a mesma letra. Por coincidência, era a mesma música que ela mais gostava, aquela que a voz, nada afinada, vivia cantarolando durante o dia.

Ela dizia gostar da voz calma de Cazuza, mas gostar ainda mais do dedilhar tranquilo do violão. Sua parte preferida era o verso que nomeava a canção, porque a voz de seu autor ficava rouca, falha, na medida certa.

"Faz parte do meu show, Cazuza."

Ela dizia ter a capacidade de escutar essa mesma música um milhão de vezes durante sua vida e não cansar por um segundo se quer. Se isso era verdade, Alexandre não sabia, porém, o que ele realmente sabia era que essa havia se tornado parte da trilha sonora de sua vida, meio que por osmose por tanto conviver com ela. Por tanto amá-la.

Faz Parte do Meu Show tocava no restaurante que escolheu levar o filho para comer seu sonhado "hamburgui" após uma vacinação bem sucedida, e, coincidência ou não, a mulher que tanto amava essa canção estava ali, ao lado dele, conversando com seus dois filhos, enquanto amamentava sua própria.

Ele não podia deixar de notar o arrepiar na nuca dela cada vez que ele se movimentava em seu assento e, sem querer, encostava a perna na dela. Não podia deixar de notar o peito dela descendo e subindo profundamente toda vez que ele falava alguma coisa. Estava tensa e relaxada, na mesma proporção, e, apesar de poder soar prepotente, tinha uma cega certeza de que ela sentia o mesmo fogo crescente que ele, assim como, julgou ter ocorrido no momento em que ele colocou a mão na nuca dela durante a aplicação da vacina de Lily.

Ele ainda a acalmava e tal, noção, causava o mesmo efeito em seu próprio ser.

- Né, papai? - Noá perguntou, lhe tirando do transe de admiração no qual havia entrado.

Ali, em um restaurante entre vários outros no Rio de Janeiro, na companhia de seus filhos e seu Beija-Flor, Alexandre estava em seu estado mais profundo de clareza e paz, sentindo cada um de seus sintomas.

A cena de um filme, que sonhou viver a vida inteira, acontecia diante de seus olhos e ele não poderia estar mais feliz, mais alheio à realidade que lhe esperava na rua, lotada de carros, pessoas apressadas e vida monótona.

- Desculpa, filhote. O que você disse? - Pediu, prestando completa atenção em seu filho mais velho, sentado à sua frente, com a postura ereta, diferente de seu irmão mais novo, esparramado na cadeira.

- Eu disse que você gosta muito de cantar Cazuza pra gente.

- Ah é verdade! - Concordou, lembrando-se de cada noite em que os pequenos lhe pediram para cantar e ele escolhera lhes presentear com as palavras de Cazuza. - "Vivo num clip sem nexo
Um pierrô-retrocesso"

- "Meio bossa nova e rock 'n' roll" - A rouquidão da voz de Giovanna atingiu seus ouvidos e ele juraca que poderia ter chorado ou gozado ali mesmo.

- "Faix parte do meu show! Faix parte do meu show, meu amô!" - Inã finalizou, animadamente, ainda de boca cheia, o que fez Alexandre rir antes que pudesse controlar e repreendê-lo por falar de boca cheia.

Codinome Beija-Flor | GNHistórias para pegar e não largar. Descubra agora