2023
Palácio Tangará, São Paulo
Ela se jogou na cama espaçosa e fria do quarto de hotel exageradamente grande para apenas uma pessoa - e meia, contando com a pequena criatura que carregava há pouco.
Sentia como se um trem tivesse passado por cima de seu corpo com precisão o suficiente para destroçá-lo. Todos os seus músculos doíam, à cada movimento seus ligamentos pareciam repuxar-se ao ponto de estourar. Seus ossos estavam moles, sem forças para sustentar o peso da massa que a formava.
A cabeça pesava.
Mas nenhuma dor física conseguia chegar aos pés da crescente ferida no centro de seu peito.
Não sentia sono. O ombro de Alexandre lhe recebeu e aconchegou melhor do que qualquer travesseiro caro de tratamentos ortopédicos; havia dormido como não fazia há dias, meses, anos.
O que tomava conta de seu ser, refletindo em seu físico, era um cansaço emocional derivado de acúmulos de cargas despejadas em seus ombros muito antes do que pudia se recordar.
Sentia-se como um copo d'água, o qual era preenchido pouco a pouco, gota a gota, e sabia que, uma hora, iria transbordar.
Essa hora estava cada vez mais próxima.
Naquele dia, ao relaxar, inconscientemente, sentindo o calor exalado do corpo másculo que permaneceu ao seu lado por algumas horas, conseguiu, pela primeira vez em muito tempo, fingir que não existia dor, perda, tristeza, fragilidade, medo...
Giovanna conseguiu desligar os nervos responsáveis por enviar estímulos de dor ao cérebro por alguns instantes, os substituindo por pura dopamina, o que lhe causou extremo conforto.
Entretanto, como tudo em sua vida, tais sensações de aconchego e paz foram arrancadas de suas mãos com a brutalidade e rapidez que apenas uma ligação, um despertador do mundo da fantasia, poderia ter.
A voz ríspida de Leonardo a fez voltar para a realidade e abandonar a vida que poderia ter tido ao lado de um certo músico, que se mostrava muito mais carinhoso do que seu marido.
- Ugh! - esfregou o rosto nas palmas das mãos com força, tentando tirar os pensamentos insistentes que viviam pairando sobre a figura de Nero.
Afastando os braços do resto do corpo, encarou o teto, usando dos suspiros de uma Lily adormecida para relaxar. Isso, precisava relaxar e voltar para a consciência.
Precisava também, ligar para Leonardo, quem havia deixado no absoluto silêncio ao desesperar-se e expulsar Alexandre do quarto, com palavras raivosas, as quais apenas diria ao seu maior inimigo.
Precisava se explicar, mostrar que amava o diretor, que era dele. Tudo o que falaria seria a mais pura verdade, certo? Ela o amava, claro, ele era o pai de sua filha.
Podia não ser o melhor marido, mas era o mais seguro, ele não a deixaria sozinha, da noite para o dia. Não a abandonaria com uma criança sem consciência alguma sobre o mundo.
Ela precisava colocar os pés no chão e se proibir de deixar Nero entrar em sua vida novamente, porque, em sua história, ele era o vilão, responsável por acabar com qualquer final feliz que ela pudesse ter. Isso, Leonardo era seu príncipe.
Esticando o corpo o suficiente para pegar o telefone, ela suspirou, antes de colocar o objeto na orelha e escutar os dois toques precedentes à voz de seu marido.
- Oi, amor. - Disse, baixinho, como se as palavras não quisessem deixar sua boca. E, talvez, essa falta de querer era dela.
"Que porra de foto era aquela, Giovanna?"
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Codinome Beija-Flor | GN
RomansaQuando um jovem músico se apaixona por um beija-flor. TW: Relacionamento abusivo, agressão. (Os eventos descritos nessa história não possuem compromisso algum com a realidade)
