2023
Barra da Tijuca, Rio de Janeiro
Ela conseguia se lembrar nitidamente de cada uma das sensações que Alexandre causou em seu corpo e alma dezoito anos atrás, mas, antes de reencontrá-lo, dizia à si mesma que ele jamais atiçaria as borboletas de seu estômago ou aquele delicioso formigamento entre suas pernas. Pensou que seu ódio se sobressairia.
Doce ilusão.
Bastou um olhar, uma aproximação, um toque, uma canção, para que essa certeza se tornasse apenas uma imaginação formulada por uma mente tola e inexperiente.
Não conseguiria negar a inesperada transmutação do ódio que sentia para tesão e fogo ardentes típico de uma adolescente cheia de hormônios, não quando suas pernas estavam tão bambas que precisou de ajuda para descer do piano, não quando precisou se tocar no banheiro do camarim para tirar, de uma vez, Alexandre de seu sistema nervoso.
Ridícula. Estava sendo ridícula por deixar-se afetar tanto por alguém como ele, mas os danos que ele provocava em seu corpo eram inevitáveis, principalmente quando não experimentava a libertação que só um bom sexo gerava há mais de seis meses.
Ainda em êxtase, ela não podia deixar de comparar a língua quente, a voz rouca e os toques precisos do músico com a falta de encaixe, pressa e monotonia de seu marido nos últimos tempos.
A verdade é que Alexandre era o único capaz de fazê-la enxergar o mundo com cores mais vivas, reluzentes. Ela procurou em outros lábios os beijos dele, em outros olhares a alma dele, em outros abraços o conforto dele, até que desistiu, se convenceu de que seria impossível encontrar as sensações que apenas ele lhe causava e decidiu aceitar o pedido de namoro do homem gentil e respeitoso que Leonardo um dia lhe pareceu ser.
Durante um bom tempo, seu marido foi o suficiente para preencher parte do espaço deixado por Nero.
Em sete anos de relacionamento, ele foi uma zona de conforto que ela procurava depois de tanto tempo em turbulência, era de um relacionamento tranquilo, pacato e frio que ela precisava, não havia paixão, apenas um tipo de amor que se dá a amigos próximos, e isso era o ideal, porque paixões, assim como o fogo, são traiçoeiras. Em um momento você está sendo aquecido e no seguinte está sendo queimado.
Ela não aguentaria ser queimada novamente. Não seria capaz de renascer das cinzas mais uma vez, estava cansada demais, fraca demais.
Quando o fantasma de Alexandre apareceu a sua frente naquela sala de reuniões, foi como se um desfibrilador tivesse reanimado seu pulso. O que antes estava anestesiado, voltou a ser notado por todas suas terminações nervosas com o dobro da força.
O passado voltou a estar presente em sua mente, o futuro deixou de ter perspectiva, a dor se tornou física.
Prometeu a si mesma que não se deixaria queimar, que não se deixaria apaixonar...Mas como não se apaixonar por alguém que nunca deixou de ter a sua paixão?
Ele não merecia, mas ela era ridícula o suficiente para saber disso e mesmo assim admirar a existência dele.
Ele não merecia, mas ela era fraca o suficiente para ser tentada pela adrenalina que um simples toque lhe provocava.
Na tentativa de fugir de seus próprios sentimentos, Giovanna saiu do Projac o mais rápido possível, incapaz de interagir com qualquer pessoa além da babá de sua filha. Precisava chegar em casa o mais rápido possível, precisava deixar a água corrente do chuveiro carregar o cheiro inebriante de Alexandre para longe de seu corpo, precisava chorar.
O caminho, que geralmente era rápido e tranquilo, pareceu mais longo e caótico naquele dia, e até a amamentação pareceu mais tortuosa do que o normal.
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Codinome Beija-Flor | GN
RomanceQuando um jovem músico se apaixona por um beija-flor. TW: Relacionamento abusivo, agressão. (Os eventos descritos nessa história não possuem compromisso algum com a realidade)
