21.0 - tantas histórias de um grande amor perdido

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23 de dezembro de 2005
Rio de Janeiro, arpoador

O som do violão tocado distraidamente fundia com as ondas beijando a costa formando uma sinfonia melancólica.

Calmaria e ansiedade, caos e ordem.

A obra perfeita.

Natureza e homem intrínsecos em uma melodia tão miserável que nem Deus teria a ousadia de interromper os músicos enquanto almejassem brincar com o som.

Era maldade demais interromper a tristeza de um ser, principalmente quando isso era tudo que o mantinha vivo.

Além do mais, tudo que era triste excitava Alexandre.

A dor emocional que se confundia com algo físico, o nó na garganta do choro não derramado. O buraco negro que mastigava, engolia e vomitava a alma para torná-la ainda mais miserável. A pressão sentida no peito pela confusão do coração.

Ele amava quando sentia-se assim.
Era um sinal, o anúncio divino da chegada de novos motivos para compor.

Transformar miséria em música, sangue em palavra, faca em violão.

Esse era seu talento.

No entanto, Alexandre Nero, no apogeu de seus vinte e dois anos, se preparava para a queda livre no abismo que o habitava.

O crepúsculo avermelhado que o cobria, o vácuo em seu peito, os sentimentos que sangravam...Nada disso o fazia compor a partir da miséria.

As notas que tocava aleatoriamente não o instigavam a memorizá-las nos músculos para que, em outro momento, as usasse sob palavras tristes.

Nada prestava, não havia por onde começar ou que atitude tomar.

E a verdade é que ele não queria tomar atitude alguma. Não queria achar soluções, não queria fazer música, não queria amenizar a ardência em seu peito.

Desejava se deixar cair, voar, nem que por alguns segundos.

Morrer para, assim, chegar mais rápido à próxima vida. Se não encontrasse o que tanto procurava, morreria para chegar à próxima e mais outra.

Esse era o efeito que Giovanna, sua futura falta, exercia sobre o rapaz.

O que antes era natural, tornava-se impossível de ser feito.

O que antes era um incômodo, tornava-se uma ferida aberta.

O que um dia foi desejo latente, tornava-se insignificante.

O que um dia foi fato, tornava-se questionável.

Sua dor tornou-se questionável.

Aquela, que foi sua mais fiel e potente fonte de inspiração, agora era tamanha que se assemelhava a uma morte agonizante, dolorosa, lenta, e nada semelhante à inspiração. A dor, cuja pressão no peito esquerdo de Nero sumira um ano antes, voltava agressiva como o próprio Tsunami de sorrisos e cores que a expulsou, limpando os dias de estranha felicidade em um instante.

Codinome Beija-Flor | GNHistórias para pegar e não largar. Descubra agora