1_Lua cheia.

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Tiago

Alcatéia Lerak,
América do Norte.
10 anos atrás.

Senti meus pés protestarem ao fazer a mudança de marcha. Ficar sentado em um ambiente fechado repetindo os mesmos movimento durante horas, certamente era a mais nova forma que Maya encontrou de me torturar.

Ela sabe que eu odeio dirigir.

Não nasci para isso... Odeio os humanos! E odeio ainda mais nossos antepassados por misturar nosso sangue e costumes  com esses seres repugnantes.

Respirei fundo tentando me acalmar antes que acabasse causando um acidente.

A mulher ao meu lado resmungou dormindo, me fazendo suspirar. Apertei o botão na porta fazendo o vidro ao seu lado abaixar e o vento entrar chicoteando seu rosto.

Isso era o máximo que poderia fazer para me sentir vingado.  Mas não demorou nem três minutos para a consciência bater e o vidro voltar a subir.

Ela poderia muito bem esperar mais dois meses para visitar a família e amigos da sua alcateia de origem, mas de acordo com ela se esperasse mais morreria de saudade. E eu perderia ela e nosso filho nesse processo.

Uma forma bastante dramática de me convencer a sair de casa e deixar a alcateia para atravessar um oceano até aqui. Sua antiga matilha!

Olhei de relance para a loba ao meu lado dormindo tranquilamente, alheia ao meu descontentamento.

As mãos apoiadas na barriga grande demais pela gestação, segurava o saco de castanhas quase vazio e escorregava lentamente. A segurei tirando o pacote de suas mãos sem tirar os olhos da estrada.

Ao fazer uma curva abri um largo sorriso pela primeira vez no dia.

O véu vermelho cortando a estrada ao meio no horizonte dava a visão que tanto ansiei. Finalmente chegamos!

Acelerei passando pelo escudo magico e o mesmo fez uma onda que subiu lentamente sinalizando a nossa entrada na alcateia. Dentro de meia hora, uma vila de casas apareceu. Passando por ela vi os seres tão semelhantes e ao mesmo tempo, diferentes. Bruxos!

Sabia que Alfas de grandes alcateias como essa abrigavam muitos bruxos curandeiros e carpinteiros para ajudar na construção e bem-estar dos lobos. Na minha alcatéia só havia uma família de curandeiros e depois de meu irmão fazer besteira, nosso pai os expulsou e não aceitou mais bruxos entre nós.

Depois da vila um campo aberto cheios de flores se estendeu e alguns lobos passou a minha esquerda entrando na floresta logo a frente. O lugar era maior do que eu esperava. Passei mais de uma hora dirigindo até alcançar as ruas asfaltadas da cidade arborizada e movimentada com casas e prédios um pouco afastados uns dos outros. Nossa audição não nos permitia fazer contruções tão próximas umas das outras.

Aquele território era imenso!

Segui sem desviar o percurso, não era primeira vez ali, sabia que esse caminho levaria direto ao centro onde ficava localizada a praça central, lá encontraria a casa do alfa. Todas as alcatéias tem o mesmo mapeamento, algo que facilitava muito para os de fora.

Bocejei lagrimejando. Não via a hora de cair em uma cama. Diminuí a velocidade assim que avistei a praça bem arborizada, crianças brincavam, anciões conversavam próximos ao grande chafariz e os jovens...não estavam por perto. 

Passando pela rua que circula a grande praça, avistei de longe a imensa casa antiga circulada por uma cerca de ferro coberta por trepadeiras floridas. Atravessando os portões da mansão, parei o carro assim que avistei um velho de cabelos grisalhos, deve ser o encarregado de nos receber.

O Lobo De SterkOnde histórias criam vida. Descubra agora