POV LUIZA
Aproveitei o silêncio da casa para analisar com frieza tudo que me aconteceu nesses últimos anos, digo com frieza porque se não for assim, claramente eu me jogaria nos braços da Valentina.
Voltei no tempo e me lembrei exatamente daquela terça feira à noite em que fui surpreendida com a notícia de que ela iria embora logo no próximo fim de semana, nós já morávamos em Aracaju, eu estava no final do meu curso de direito e ela, tinha começado a faculdade de história, mesmo não sendo o seu desejo de sempre.
Nossas famílias sempre foram muito próximas, desde quando ainda moravam na Ilha dos namorados quando eu e a Valentina ainda éramos duas crianças. Nós duas nos conhecemos quando eu tinha 5 anos e a Valentina tinha acabado de completar 4. Éramos inseparáveis, mas não tinha como ser diferente disso, nossas famílias faziam absolutamente tudo juntas. Estudávamos na mesma escola, tínhamos os mesmos amigos, fazíamos os mesmos passeios aos fins de semana e de quebra, morávamos a uma rua de distância. Passamos por todas as fases juntas, embora nós duas tivéssemos irmãos, nossa ligação sempre foi algo diferente. Logo na adolescência eu descobri que o que sentia pela Valentina era diferente de todas as minhas amigas, percebi que a vontade que eu sentia de estar sempre perto dela também dizia respeito a algo físico e foi exatamente nessa época que eu decidi abrir o meu coração e falar com ela sobre como me sentia em relação a gente, para minha total surpresa, Valentina me falou que achava que sentia o mesmo e me propôs que descobríssemos juntas do que se tratava. Depois disso nunca mais nos desgrudamos, literalmente.
Ela foi a minha primeira vez em vários aspectos. O meu primeiro beijo, meu primeiro ciúme, minha primeira transa, minha primeira paixão, meu primeiro amor e o meu primeiro coração partido.
Quando eu estava com 18 anos e a Valentina com 17, passamos semanas tentando descobrir o melhor jeito de conversar com as nossas famílias, cogitamos milhões de maneiras para abordar o assunto até que em um dos jantares de domingo, surpreendemos a todos. Todos, exceto o meu falecido irmão Diogo que sempre soube de tudo, alegaram que nunca desconfiaram de nada e que acreditavam que éramos apenas boas amigas, não que a gente não fosse, mas era muito mais que isso. Nossos pais passaram meses resistentes a ideia, tentaram nos manter afastadas por um tempo até que eu adoeci quando numa tentativa infeliz de nos afastar, a tia Eugênia mandou a Valentina para um acampamento da igreja por 15 dias, foram os piores dias da minha vida até então, eu simplesmente não conseguia comer, dormir e fazer mais nada, até que a trouxeram de volta e milagrosamente eu melhorei, depois disso começaram a entender que não poderiam nos impedir de ficar juntas.
Embora tivéssemos o consentimento dos nossos pais, não era como se namorássemos cada uma com um rapaz e fosse o namoro perfeito para nossas famílias. Passamos por muitos olhares tortos, por muitos questionamentos sobre "ser isso mesmo que queríamos pra nossa vida" e por inúmeras situações preconceituosas vindo principalmente do tio Renato, pai da Valentina. Era notória sua insatisfação quanto a orientação sexual da filha, sem contar as inúmeras brigas dele com o papai que eu e a Valentina presenciamos. Com tudo, de alguma forma até hoje curiosa pra mim, tudo que existia ao nosso redor sempre nos fortaleceu muito.
Quando começamos a estudar na capital e consequentemente nos mudamos, tudo melhorou um pouco mais. A liberdade dos horários na faculdade, os novos amigos que fizemos na cidade grande e o tempo que passávamos distante dos olhos das nossas famílias nos mostrou ainda mais o quanto nosso amor era forte, verdadeiro.
Nesse meio tempo a Valentina tentou diversos cursos, foram várias as tentativas de se encaixar em algo para agradar o tio Renato mas nenhuma delas deu certo. O desejo dele era que ela seguisse seu caminho e cursasse medicina, assim como seus irmãos, Valentina nunca desejou isso, nem de longe, e como uma boa rebelde que sempre foi, tentou se encaixar em vários cursos, menos na medicina. Seu maior desejo era estudar fotografia, o tio Renato sempre deixou claro que filha dele jamais teria uma "profissãozinha" como essa, com toda a confusão que existia ao redor das escolhas dela para o seu futuro, existiam também as tantas escolas fora do país que a Valentina se inscreveu na esperança de ser escolhida por apenas uma delas para estudar o que de fato te enchia os olhos.
Todas as escolas tinham custos absurdos, a gente sempre pensou em uma maneira de irmos embora depois de me formar pra que ela tentasse estudar em alguma delas, até hoje eu tento entender como aquela bolsa surgiu tão inusitadamente no colo da Valentina, era tudo muito dado, não que ela não tivesse talento o suficiente para conseguir um bolsa integral numa escola de fotografia fora do Brasil, longe disso, ela tinha talento pra dar e vender, mas foi tudo muito de repente. A gente já tinha estudado todas as possibilidades, a gente já tinha tentado todos os programas de bolsas que apareciam, do nada surgiu essa oportunidade que até hoje eu não sei como aconteceu. Mas ela aconteceu e quando a Valentina me trouxe a notícia já existia uma matrícula feita, uma passagem comprada e um flat alugado para que ela ficasse alojada até o começo das aulas quando se mudaria definitivamente para o dormitório da universidade. Mas não foi só isso, a Valentina não conversou comigo, nunca perguntou a minha opinião sobre, ela não me falou detalhes de como tudo aquilo tinha acontecido, apenas me falou que seu sonho estava bem ao seu alcance e que não poderia abrir mão disso.
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Recomeços
FanfictionCiclos. Oportunidades. E quando no meio de tudo, um recomeço refaz a rota do seu coração e te leva a um lugar não tão desconhecido? Até onde você estaria disposta a recomeçar? Depois de 7 anos, Luiza decide recomeçar. Ela sabia que isso te levaria...