TRÊS

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Vinícius acordou em meio a um borrão claro que somente aos poucos foi se delineando à sua vista. Uma mulher de jaleco se aproximou da cama, animada, o rosto enérgico olhando para o garoto.

– O menino abriu os olhos – disse.

Outra apareceu como que do nada. Provavelmente estava do lado, atendendo outros pacientes. Ela gritou e o médico apareceu.

– Ele está bem? – Sem pedir licença, o doutor apontou o feixe de luz para os olhos abertos de Vinícius.

– Ele não responde.

– Deve estar em choque.

– Eu o recebi quando o trouxeram – disse a enfermeira. – Tadinho. Foi o único sobrevivente da casa.

Todos faziam perguntas e o inspecionavam em busca de algo importante, ao mesmo tempo em que ele se sentia sequestrado por um disco voador, uma cobaia em uma cama sem saber ao certo o que estava acontecendo.

Entretanto, não demorou a descobrir que a ignorância era uma morfina que retardava uma dor maior, um refúgio que o protegia de um horizonte estranho, mas no qual não poderia se abrigar para sempre, mesmo que não fosse mais que um garotinho de seis anos de idade.

Ele teve que ficar refugiado em um abrigo provisório com vizinhos, aqueles que também tiveram a infelicidade de ficar no caminho daquela mancha celeste girando em forma de funil que descreveram para ele. Eram seus irmãos na miséria, mas aquele não era o seu lar. De sua família de verdade, o que tinha sobrado era apenas uma despedida, dada na forma de um lugar discreto no enterro.

Nunca tinha tido a oportunidade de ir a um funeral, mas não era um funeral comum. Quando a destruição desce do céu, muita coisa se torna excepcional. As covas de sua mãe e de sua avó foram fechadas e ele se afastou, ficando encostado a um túmulo. Seria confundido com um anjo de pedra se não fosse, talvez, pela roupinha preta que usava.

Fechou os olhos, afastando sua concentração das vozes consternadas do enterro coletivo, e quando os abriu novamente foi surpreendido pela presença de um jovem de cabelos castanhos claros e olhos azuis iguais aos seus. Vestido em um casaco escuro, o rapaz ficou em silêncio, encarando o menino como se este fosse uma incógnita a ser solucionada.

– Seu nome é Vinícius? – finalmente perguntou.

– Sim – respondeu o menino. Dessa vez, era ele que estava mirando o olhar para o estranho agachado à sua altura em um diálogo de silêncios.

– Você não me conhece, não é mesmo? – continuou o homem, interpretando a dúvida no rosto da criança. Ele olhou em volta, não procurando nada em particular naquela biblioteca de lápides e lamentos fúnebres. – Creio que nossa tarefa aqui tenha se encerrado. Você quer vir comigo, Vinícius? Quero conversar com você. – Ele se levantou e estendeu a mão.

Em outras circunstâncias, o garoto ficaria acanhado e relutante em se acompanhar com um desconhecido, mas aquela não era uma situação como as outras, e havia, em seu íntimo, a convincente impressão de que a mãe não teria por que se importar.

A casa que o homem queria apresentar ficava depois de um gramado cor de esmeralda. Ela possuía uma fachada vermelha de tijolos retangulares e um telhado inclinado para frente, feito de telhas escuras, umas sobrepostas sobre as outras como as escamas de um réptil. Acima das calhas, brotavam duas janelas de sótão que pareciam olhos acompanhando os visitantes que atravessavam uma trilha de pedrinhas rumo à porta.

– Chegamos. – Ele abriu passagem e apresentou a sala. Vinícius entrou elevando o rosto para ver os quadros, as cortinas da janela e os enfeites na estante. – Está com fome, não está? Aposto que está faminto. – Puxou a mão do menino e seguiu para a cozinha, vasculhando, aturdido, pelo armário de parede. – Por que mamãe tinha que ficar mudando as coisas de lugar? Assim ninguém encontra nada. Do que você gosta? Gosta de iogurte e torta? Aposto que tem na geladeira. – Ele direcionou os passos para outro lado, ignorando a resposta de Vinícius e o resto das palavras que o pequeno tentava falar. Diante do atordoamento do mais velho, o garoto decidiu bradar de um jeito mais convincente.

– Pai!

Enzo se virou para ele com toda a atenção do mundo.

– Sim?

– Eu quero desenhar.

O homem o fitou, querendo entender. Diante da conjuntura da situação, estava surpreso, mas o pedido não era excepcionalmente surpreendente, pensando bem. Era um garoto, uma criança que queria lápis e papel para um desenho.

– Vou procurar alguma coisa para você. – Ele levou o filho para a sala, deu o lanche que encontrou na geladeira e partiu para o escritório de Otto. Um advogado teria lápis de cor e papel em algum lugar, com certeza. Escavou pelas gavetas, encontrando folhas limpas, e pegou lápis comuns que estavam sobre a escrivaninha. Não possuíam uma cor chamativa, mas ele não ousaria tocar nas canetas de estimação do pai. Não ainda.

Entregou o material para o filho e sentou no sofá, enquanto o garoto se ajoelhava no carpete e começava a desenhar sobre a mesinha de centro.

O pai acompanhou os primeiros traços antes de ser atraído pelos porta-retratos ao lado de livros e pequenos jarros de cerâmica na estante. As fotografias continuavam as mesmas: seus pais rindo naquela viagem à Grécia; ele exibindo com orgulho a medalha de primeiro lugar na natação; os dois irmãos na praia. Naquelas imagens estáticas, parecia que a vida não mudava em nada, que ninguém morria ou tinha arrependimentos.

Foi despertado por um soluço. Olhou para baixo e viu o filho segurando o papel. Os lápis estavam jogados de lado, o único risco novo foi o da lágrima no rostinho de Vinícius. Ele suspirou, fungando. Era um tipo diferente de choro. Ele não estava chorando porque tinha ficado sem sorvete na sobremesa ou porque não queria tomar banho. Era um pranto pesado, profundo. Havia algo de adulto naquilo. Crianças não devem chorar como adultos.

Enzo sentou no tapete e passou timidamente a mão no cabelo do filho.

– O que foi? – perguntou e emudeceu logo em seguida quando o menino lhe mostrou o desenho. Os traços de lápis formavam um inconfundível rosto humano em meio ao cinza grafite, portando impecavelmente as feições de Sara. Enzo ficou olhando quase em choque. – É seu?

– Sim – respondeu Vinícius, com a voz embargada. – Eu que fiz.

– Pode fazer outro? – pediu o pai, um tanto incrédulo.

O garoto se voltou para a mesinha de centro e começou a rabiscar. Enzo acompanhou os primeiros traços e em um breve tempo seu rosto estava representado com fidelidade no papel. Ele piscou os olhos, mal acreditando no que via, e pegou o desenho, mantendo as duas folhas uma do lado da outra.

– Quem ensinou você a fazer isso?

– Ninguém. – O filho enxugou as lágrimas. – Só penso no que quero desenhar e faço. Eu já tinha feito um desenho da mamãe na escola, mas perdi no... Naquela noite. Tinha prometido que faria um seu para deixar junto com o dela. – Ele olhou com um sopro de satisfação para suas obras nas mãos do pai. – Tenho os dois agora. Queria que ela visse.

Enzo abaixou os papéis e os pôs de lado, deixando-os juntos, uma reunião familiar em caligrafia.

– Vinícius... A gente perdeu muita coisa, mas estamos aqui, não é? Não são somente os desenhos que podem ficar juntos agora. Nós também podemos. Você quer ficar comigo pra sempre? – As palavras não pareciam suficientes para expor a ebulição interior de Enzo, mas Vinícius abriu o semblante, e respondeu indo em sua direção e se embalando em um abraço.

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