No jardim, a família ficou reunida, os quatro de frente para o cavalete fincado no gramado, perto do caixote de madeira sobre o qual Vinícius segurava com orgulho a paleta e o pincel como Cíntia havia ensinado. Os quadros da escola tinham sido pintados no chão, sobre jornais velhos na garagem de sua casa, tendo nada mais que a imaginação dele como modelo, e o garoto parecia contente naquela pose caricata de pintor.
– Foi coragem ter revelado para eles – disse Cristina, sentada na grama com Enzo, a metros de distância dos demais. Estava com as pernas esticadas, uma sobre a outra, e as mãos para trás, apoiando o corpo enquanto direcionava o rosto para as nuvens. Devido aos óculos, não dava para saber se estava de olhos abertos ou não.
– Eu poderia ter levado uma foto deles e trazido a pintura pronta no dia seguinte, mas Cíntia precisa se inspirar e ver que existem milagres no mundo – disse Enzo, os braços apoiados nos joelhos dobrados. – Hoje mesmo Dona Odete estava falando para eu não ter medo do dom do meu filho, para deixá-lo transformar as pessoas, porque esse talento dele não deve ser por acaso. Vai ver ela está certa. Vai ver ele e Cícero têm muito em comum.
– Como o quê?
– Não sei. São os dois melhores pintores de Defrim, como Dona Odete falou. Acho que vai ser bom fazer amizade com os Castilho.
– Você viu alguma coisa na pintura do anjo?
– É uma pintura muito bonita.
– Só bonita?
– E provocadora. Por quê? Você não acha?
– Há uma coisa com ela. – Cristina dobrou as pernas e ficou na mesma posição que Enzo, muito séria. – Eu o trouxe aqui na esperança de que você, Dr. Inácio ou a família dele vissem alguma coisa errada também e encontrássemos uma solução, ou pelo menos que me ajudassem a entender o que está acontecendo comigo desde que restaurei a pintura de Cícero.
– O que houve?
– Não sei se posso explicar bem. No dia em que eu terminei, eu fiquei sentada, admirando o quadro, e foi como se eu fosse arrebatada, não do jeito comum, de deslumbramento, mas literalmente.
– Tem alguma coisa a ver com o que você falou no refeitório, sobre a beleza ser uma força que mexe com você?
– Exatamente. Naquele dia, tudo começou a se desfazer em tinta, se distorcendo como se derretesse. Desde então, se vejo algo belo, não qualquer tipo de beleza, mas uma que me encante acima de certo nível, começo a sentir vertigem, como se olhasse para um abismo, e tudo no meu campo de visão começa a ficar borrado. Pense em uma pintura abstrata ou impressionista. Pois bem, esse é o mundo que vejo, às vezes.
– Estranho. Procurou um médico?
– Cheguei a fazer uma consulta antes de vir e estou com mais uma marcada. Mas não aguento ficar parada, convivendo com esses sintomas. Fiz procuras na internet e vi o anúncio do leilão. Quando vi os quadros misteriosos nesta cidade, achei que estivessem diretamente relacionadas a Cícero, sendo obras perdidas ou alguma coisa assim, algo que me desse uma pista desse mal, já que tudo começou com o anjo e, coincidentemente ou não, as pinturas da escola, que agora sei pertencerem a Vinícius, me afetam muito. No entanto, ainda não obtive grandes avanços para entender isso.
Enzo olhou para os arbustos e para o pequeno pintor sobre o caixote.
– É como ficar alérgico à beleza – ele disse. – Não deixa de ser triste não poder olhar para o que te encanta.
As últimas palavras fizeram Cristina suspender a respiração por um instante e torcer para, caso o calor da face estivesse enrubescendo a pele, pudesse culpar os poucos raios de sol que o dia frio proporcionava.
Ela virou o rosto, vendo Enzo de perfil. O escuro dos óculos minimizava o impacto, mas ela quis tirar o acessório e ficar cara a cara com o rapaz, desafiando a ânsia inquietante que geralmente sentia. Provavelmente Enzo acharia estranho ela encará-lo, depois de ficar esquiva sempre que estavam juntos, se é que ele realmente já não havia reparado no comportamento dela.
Cristina esperava que nada tivesse sido percebido. Depois do que foi dito sobre como ela é afetada pela beleza, não seria embaraçoso ele notar que a moça não conseguia olhá-lo nos olhos?
Ainda assim, ela levantou a perna dos óculos. Como se sentisse o olhar sobre ele, Enzo virou o rosto. Os batimentos cardíacos aceleraram e o mundo começou a se transformar em vidro embaçado pela chuva, fazendo a jovem pôr os óculos novamente e se virar, deixando os efeitos da aparência dele diminuirem lentamente.
– Vinícius já acabou. – A voz de Enzo a chamou. – Vamos. – Ele se levantou e, caminhando para ver a nova obra de arte, sabia por que Cristina não tinha tanta pressa em segui-lo.
– É maravilhoso! – Cíntia pendurou o quadro no quarto de casal, lagrimejando ao ver a família unida em uma pintura, com a casa de Cícero servindo de fundo.
– O menino manda bem – disse Ruan, e a irmã ao lado concordou.
– Você tem um prodígio em casa, meu jovem! – Inácio pôs a mão no ombro de Enzo.
– Sim, um prodígio que antes de tudo é uma criança e precisa ter uma infância normal. Acho que vocês devem entender porque preferi segredo quanto aos quadros.
– Ah, sei do que está falando. Crianças que são lançadas ao estrelato muito cedo... Bom, pode não ser uma boa. E isso pode chamar mesmo a atenção. Mas estamos entre amigos aqui. Parentes de artistas. Vamos nos apoiar.
– A propósito, onde está Vinícius? – Enzo procurou pelo aposento.
Cíntia piscou, desligando-se um pouco da nova peça decorativa.
– Ele deve ter ficado no ateliê quando viemos.
– Vou pegá-lo para irmos embora.
– Vocês já vão? Ainda não pudemos nem nos sentar à mesa para um café.
– Agradeço demais. É que ainda tenho que ensinar o dever de casa ao guri. Vinícius! – chamou Enzo.
– Ajudamos a procurar. – Cíntia tomou a frente e saíram do quarto, percorrendo o corredor e verificando o ateliê. Não tendo sinal do garoto, dirigiram-se à escada.
– Você está convidado a vir outras vezes, e você também, Senhorita Cristina – disse Inácio, descendo para o primeiro piso.
– Obrigada – respondeu ela, degraus acima. – O que acharam do quadro?
– Perfeito. Eu estava acompanhando as fotos que enviava para o meu e-mail durante o processo de restauração. Não podia ter ficado melhor.
– Que bom que... – A restauradora hesitou. – Podem me comunicar se notarem alguma coisa nova, está bem? Qualquer coisa.
– Você tem algum compromisso urgente em sua cidade? – perguntou Cíntia.
– Não.
– Por que não fica conosco esses dias? É nossa convidada. Meu marido e eu vamos limpar o sótão e quem sabe não encontramos mais coisas por lá?
– Muita gentileza! – disse Cristina, simpática. Mas Enzo sabia que não era esse o ponto em que ela queria chegar. Por outro lado, mais alguns dias possibilitariam a ela ver de perto se alguém apresentaria os sintomas descritos no jardim, o que ainda não tinha acontecido com nenhum deles, ao que tudo indicava.
No final da escada, olhou rapidamente para a sala de estar e se virou na direção oposta. Ele caminhou, esquecendo os outros atrás, e chegou à sala do quadro. Vinícius estava bem no centro do cômodo, em pé, o rosto voltado para o anjo soberbo preso à parede. O pai do menino chegou devagar, do jeito que chegaria a um sonâmbulo, e tocou nos cabelos ondulados com carinho, esperando o pequeno se voltar para ele.
– Está pronto para ir?
– Estou – disse Vinícius.
– Vamos nos despedir dos outros. Eles gostaram muito de te conhecer. E você? Gostou do passeio?
O garoto deu uma derradeira olhada na pintura antes de responder.
– Gostei de tudo.
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Rabiscos
Mistero / ThrillerEnzo Damasceno precisa retornar à sua cidade natal para cuidar do filho que ele não conhecia após o menino ficar órfão de mãe. O talento extraordinário que a criança demonstra ter irá se somar aos desafios naturais da paternidade.
