Logo que Enzo pisou na calçada, um garotinho veio correndo do gramado vizinho e pulou em seu colo.
– Papai!
– O que faz aqui fora, cara?
– A Senhora Ingrid me deixou brincar no jardim e vi você chegando – disse o menino, sendo posto no chão.
– Você se comportou na casa alheia?
– Sim. – O pequeno olhou para a mulher que tinha acabado de se aproximar.
– Eu trouxe visitas – disse Enzo. – Essa é Cristina. Ela também trabalha com pinturas. Esse é meu filho Vinícius.
– Prazer – disse Cristina, alternando o olhar do rosto do garoto para o verde da grama.
– Ela é uma artista? – perguntou Vinícius.
– Sou restauradora. Estou mais para uma técnica que para uma artista, apesar de ser formada em artes plásticas. Eu conserto as obras.
– Veio consertar alguma?
– Não. Ela veio dar uma olhada – falou Enzo. – Vamos entrar. Quer uma água, um suco?
– Tinta.
– O quê? – Ele se deteve a caminho da porta.
– Digo... – Cristina passou a mão no rosto, voltando a se concentrar. – Estou ansiosa para ver o que você tem para me mostrar.
– Ah, sim... Venha – Enzo entrou e indicou o sofá. – Sente-se. Não repare na bagunça. Casa de pai solteiro, você pode ter uma ideia de como é.
– Você mora sozinho com seu filho? – Cristina se sentou, afastando com o pé uma viatura de brinquedo que estava jogada no chão.
– Sim. Ainda não pude contratar uma babá. Não sabia que era tão difícil arrumar uma. Mas a Dona Ingrid, uma velha amiga nossa que mora aqui do lado, me ajuda e fica com o Vinícius quando preciso sair. Como hoje, por exemplo. – Enzo se afastou, sumiu por breves instantes e voltou com três folhas de papel. – Todos os quadros estavam no leilão, mas tenho essas amostras.
Cristina as recebeu e piscou rápido, antes que seu campo de visão se desfizesse em abstrações diante das imagens de rostos desenhados a lápis, a grafite dando vida à pele e aos cabelos.
– Belas... – Ela tentou se concentrar. Se focasse em um detalhe por vez, como um olho, uma mecha de cabelo ou outro traço qualquer, não pegaria a carga das imagens como um todo. – É do pintor dos quadros?
– Sim – disse Enzo. – O que você pode dizer da técnica e do estilo?
– Beiram à perfeição. – Cristina olhou para a gola da camisa dele. – Ele reproduz fielmente a realidade. Até a melhora, se duvidar. Mas o que queria saber?
– Queria saber mais sobre o pintor.
– Achei que soubesse quem ele era.
– Saber, eu sei. O que não sei é como ele desenha. Os mecanismos cognitivos envolvidos. Acho que assim fica mais claro.
Cristina levantou uma sobrancelha.
– Creio que você esteja querendo aplicar um tipo de grafologia na pintura. Eu estudei traços de muitos pintores, mas não posso saber como pensam ou sua personalidade só através de uma obra. Já procurou investigadores forenses ou psicanalistas?
Enzo olhou para o filho que estava de pernas cruzadas sobre o tapete.
– Investigadores, não. Mas psicólogos...
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Rabiscos
Mistério / SuspenseEnzo Damasceno precisa retornar à sua cidade natal para cuidar do filho que ele não conhecia após o menino ficar órfão de mãe. O talento extraordinário que a criança demonstra ter irá se somar aos desafios naturais da paternidade.
