NOVE

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Cristina ficou feliz em identificar o C duplicado envolto em estrelas no centro de um brasão no qual estava escrito "Colégio Compostela". Era o fim de uma viagem tensa, onde a visão podia ser traiçoeira, capaz de abandoná-la em qualquer trecho do trajeto caso mirasse em qualquer coisa mais bela que o asfalto ou a traseira dos outros veículos. Mas, para seu alívio, tinha empacotado o quadro e dirigido sem maiores problemas.

Passou pela fachada de portões azuis e colunas com lápis desenhados, virou a esquina e encontrou a porta lateral aberta, enfeitada com balões de tons mais quentes que se destacavam no padrão frio celestial da escola.

Ela estacionou, saiu do carro e caminhou pela calçada. Na entrada, uma moça de camisa estampada a cumprimentou e ofereceu um panfleto, que Cristina pôs na bolsa sem ligar para as ilustrações da vestimenta ou do papel.

– O leilão já começou?

– Já, sim – disse a moça. – Mas ainda não acabou e mais tarde teremos uma peça dos alunos da primeira série...

– Obrigada. – Cristina se distanciou sem dar muita importância à programação do evento. Mais à frente, estava uma coluna metálica da cobertura e, depois dela, telas de alambrado contornavam a quadra, onde dezenas de pessoas se sentavam em cadeiras de plástico voltadas para um palco.

Ela andou para a direita e se desviou da direção das arquibancadas, alcançando a entrada para um piso verde demarcado com linhas que delimitavam as áreas de diferentes esportes.

Havia um corredor central entre dois blocos de cadeiras enfileiradas. Cristina o percorreu devagar, descrevendo uma espécie de marcha nupcial com os olhos voltados para o quadro que esperava o próximo lance. Não dava para ver muito bem o que estava pintado antes que chegasse mais perto do palco. A uma distância razoável, contemplou a beleza de uma criança soltando uma pipa, e a solidez dos arredores começou a perder consistência.

A sensação era a mesma de cair. Podia sentir o frio na barriga subindo, trazendo a noção de que havia caído na armadilha mais uma vez. Ela se virou e viu esboços de rostos voltados para ela e um rastro que julgou ser o caminho da saída.

– Com licença, senhora. – Apareceu uma figura mergulhada em pinceladas. – Posso ajudar?

– Quero saber... Quero saber sobre os quadros, por favor. – Sem esperar respostas e com nada em mente a não ser a aflitiva situação, Cristina se virou e caminhou para fora da quadra, guiando-se o melhor possível naquela floresta de floreios ondulantes de tinta.

Tocou em uma parede e endireitou a postura ao percorrer o corredor. Os sintomas começavam a passar e ela já conseguia aparentar normalidade, mas o mundo teria saltado de uma criação de Van Gogh para uma de Pollock se não tivesse fechado os olhos ao chegar a um pátio com um parquinho infantil e uma ostensiva pintura tomando todas as paredes em volta.

Cristina fechou os olhos e esperou na escuridão a calma se assentar em sua mente. Respirou fundo, virou-se de costas e abriu os olhos. O derretimento de tinta estava acabando e as cores e formas se aglutinavam em esquemas menos impressionistas, nítidos o suficiente para distinguir um rosto masculino com barba feita, olhos azuis e cabelos castanhos.

– Olá? – Ela piscou, desconcertada.

– Desculpe – disse o estranho. – Não queria interromper sua meditação.

– Meditação? Eu não estava... – Ela deu um passo e viu pela postura alerta do rapaz que ainda parecia zonza.

– Tudo bem?

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