OITO

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Embora um abrir de cortinas fosse um bom prelúdio para uma jornada de apreciação de obras de artes, tudo no que Cristina pensou após Inácio descobrir as janelas foi nos inúmeros e minúsculos grãos de poeira flutuando como vaga-lumes na nova luminosidade.

– Perdão pela bagunça! – Ele puxou o plástico dos sofás de pés altos e estofado de cetim, uma tentativa de tornar o ambiente mais acolhedor para a visita. – Estamos fazendo reparos na propriedade.

– Entendo perfeitamente. – Cristina pôs os cabelos curtos para trás da orelha e reparou melhor na aparência da sala. A lareira encravada na parede de pedra estava com o mármore mais resplandecente com a luz que atravessava os losangos de vidro da janela. Acima do console, havia um espelho de moldura dourada e acabamentos curvilíneos, combinando com as duas cômodas bombê e o lustre. – Muitos estragos?

– Pelo tornado? Ah, não. Essa região não foi muito atingida, felizmente. São apenas reformas necessárias em uma casa velha.

– E a peça?

– Vamos vê-la. Acompanhe-me. – Inácio seguiu para uma entrada arqueada atrás da qual encontraram uma escada. Ambos subiram, ignoraram a maioria das portas no segundo piso e entraram em um cômodo mais amplo.

Pincéis usados, molduras de quadros e paletas velhas estavam todos esquecidos em prateleiras, nada que tirasse o foco do quadro coberto em um cavalete a poucos passos da janela fechada, bloqueando passagem para a sacada do outro lado.

– Este ateliê esteve abandonado por anos. Comecei a limpá-lo e a encontrei. Acredita que estava atrás de um quadro qualquer? – Inácio se aproximou, olhou para a mulher ao lado e tirou o pano. A figura do anjo saltou aos olhos dos dois, as asas abertas e os olhos enigmáticos voltados para o alto.

– É lindo. – Cristina chegou mais perto, inclinando o dorso para frente para ver melhor.

– É uma das obras-primas de meu bisavô. Inclusive, acreditei que estivesse em um museu ou em uma coleção particular, porque eu nunca a tinha visto. Estranho que estivesse praticamente escondida aqui, deixado às traças.

– Que bom que você o encontrou.

– Pode restaurá-lo?

– Sim. Não parece ter sofrido tanto com as ações do tempo. O processo de restauro não vai demorar. Vai deixar a pintura nessa casa?

– Vou, sim. Cícero valorizava muito esse quadro e não queria que ele saísse daqui. Deixá-lo vai honrar a memória do pintor e vai ser bom para minha esposa. Sabe, quando disse que viria verificar a propriedade, ela se animou para morar aqui e usar esse ateliê. Essa pintura é um precioso pedaço da história da família e vai servir de inspiração.

– Pode ter certeza de que ela vai ser tratada com o máximo de carinho.

– Estou certo disso. Vamos – Inácio se virou. – Ajudo você com ela.

Ele ajudou a restauradora a empacotar o quadro e carregá-lo, descendo os degraus e indo para o carro estacionado no jardim. Cristina dirigiu para além dos portões e em questão de poucas horas estava repousando a pintura em um cavalete em seu próprio ateliê.

Ansiosa, não demorou a pôr o avental e se debruçar sobre os exames preliminares da obra. Os testes não revelaram grandes avarias ou danos advindos das intempéries. Não havia rasgos no tecido e as manchas de bolor seriam facilmente resolvidas com os solventes selecionados. Nada mal para uma obra que estava mofando durante anos em uma sala úmida. Três dias e meio de dedicação meticulosa e o quadro estava como recém-pintado, recebendo uma camada nova de verniz.

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