Quatro dias depois, o caderno estava em companhia de outras coisas novas, bem guardado na mochila de rodinhas que o garoto segurava enquanto o pai terminava de alinhar sua farda em frente aos portões da escola.
– Quer que eu te acompanhe até a sala?
– Não precisa.
– Não precisa, é? Já está grandinho para ser carregado para cima e para baixo pelo papai? – Enzo se aproximou e deu uma sucessão de beijos no rosto do filho. – Está grandinho para isso também?
– Ai, pai, por favor... – Vinícius passou a mão na face enrubescida e olhou para os colegas que caminhavam para a entrada. – Eu já vou.
– Comporte-se. Quero saber das novidades quando voltar. – Enzo elevou um pouco a voz no final, com o filho já se distanciando entre os coleguinhas.
Na hora da saída, o rebuliço era o mesmo de mais cedo. Pais chegavam e quase entupiam as portas da escola, pegando as crianças pelos braços, perguntando por borrachas perdidas e reclamando das novas manchas de tinta guache na roupa e riscos de caneta hidrográfica na pele.
Encostado ao carro, Enzo encarou as crianças de camisa branca com um C cercado de estrelas dentro de um brasão no peito, shorts azuis no caso dos meninos e saias da mesma cor para as meninas, mas nada de ver aqueles cabelos castanhos ondulados parecidos com os seus.
Com o movimento de adultos e crianças rareando na diáspora do meio-dia, ele decidiu encerrar sua espera e entrou no colégio, perscrutando as portas pelo corredor até chegar a uma sala vazia, exceto pelo garoto desenhando em uma das carteiras da frente e da mulher atenta que o observava.
– Algum problema? – Enzo bateu no batente da porta e a professora se virou para ele. Parecia surpresa, mas não necessariamente pela chegada do homem.
– Problema? – perguntou Daniela. – Bom, talvez.
Ele se aproximou e olhou para a mesinha com o caderno aberto. Se não conhecesse os desenhos do filho, diria que aquilo era uma janela aberta para um pôr do sol dourado, com uma rocha sólida coberta de musgo em um canto, uma árvore majestosa no outro e uma iluminada relva que aparentemente iria ser movida pela brisa a qualquer instante.
– Eu ainda não tinha visto – disse a professora.
– O que Vinícius faz?
– Sim... Quero dizer, nas primeiras aulas eu vi um desenho dele. Cheguei a conversar com a mãe sobre isso, pensando ser um engano, mas vendo-o fazer...
– Fiquei bastante surpreso também. É um grande talento.
Daniela estreitou os olhos para ele.
– Não se trata de talento somente. Ninguém que conheço desenha assim.
– Olha... Não há nenhum truque por trás disso, posso garantir.
– Isso só me deixa mais preocupada.
– Vê isso como algo ruim?
– Os colegas fazem perguntas. "Por que os desenhos dele são assim, professora?", "Vinícius, por favor, desenhe um dinossauro para eu pôr no meu quarto." Imagine ouvir isso o dia inteiro. Por pouco não tive que isolar o menino no final da aula.
– A professora queria que eu fosse para o cantinho da reflexão, papai. – Vinícius fez os dois olharem para ele. – Mas não fiz nada de errado.
– Não, você não fez nada, amor. Foi só para que os colegas não ficassem te pedindo coisas.
– O que você sugere?
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Rabiscos
Mystery / ThrillerEnzo Damasceno precisa retornar à sua cidade natal para cuidar do filho que ele não conhecia após o menino ficar órfão de mãe. O talento extraordinário que a criança demonstra ter irá se somar aos desafios naturais da paternidade.
