05 - Grosseira?

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    Quero acreditar que é tudo fruto da minha imaginação, os olhares que ele me mandava durante a aula, olhei até algumas vezes para atrás para saber se seu olhar estava em alguém atrás de mim, mas a cadeira estava vazia.

No fim da aula eu passo correndo pela porta, acompanhada de Missy.

– Meu Deus, que homem intenso, nunca vi essa turma tão calada quanto nessa aula dele. – Ela comenta para mim, mas eu ainda estava alheia ao que ela dizia.

Será que a minha falta de educação no começo da aula fará ele odiar meu rosto até minha formação?

– Não vai jantar aqui de novo? – Pergunta. Quando chegamos no fim do corredor em frente ao bloco. Balanço a cabeça que não. Hoje era um dos poucos dias que mamãe jantava em casa.

– Te vejo amanhã então! Não esquece que temos que estar aqui cedo para ir ao museu. – Me relembra, o professor trocou de horário com o outro que ainda não lembro o nome, mas era o mesmo que desanimou todo mundo com o salário e o tempo de formação.

Dou tchau para ela e agarro meus livros contra o peito, voltando a caminhar em direcção ao estacionamento. Sinto meu celular vibrar na minha bolsa e com certeza deve ser meu pai avisando que já me espera.

Chego no estacionamento e procuro meu pai com o olhar não o vendo em lugar nenhum. Estranho e ponho meus livros debaixo do braço, puxando minha bolsa e procurando o celular.

Não era mensagem de papai, mas do professor dizendo que confundiram o horário dele e que o passeio é somente na próxima terça-feira e que estavam confundindo ele com o professor de Teoria das artes.

Mando uma mensagem para o papai perguntando onde ele está.

– Boa tarde – Uma voz soa atrás de mim, grossa e forte. Dou um pulo de susto e me viro assustada.

Meu Deus.

O professor era bem mais alto de perto, ele olha para baixo, para mim, com uma postura séria e aterrorizante.

– Boa tarde, professor – Minha voz sai em um sussurro vergonhoso.
– É sempre bom ser educada, garota grossier. – Arregalo os olhos com seu insulto e ele passa por mim me empurrando com os ombros, quase me derrubando. Meu francês era ruim mas eu entendia algumas coisas.

Só porque não disse bom dia não significa que eu seja grosseira como ele diz.

Acho que ele não foi mesmo com a minha cara. Aí meu Deus... será que ele vai me reprovar por isso?

Sinto vontade de chorar e olho para o lado, vendo o carro do meu pai se aproximar. Entro no mesmo e ele faz a mesma pergunta de sempre. Olho para frente procurando o professor e o vejo passar por nós em um Mustang preto.

– Me desculpe pelo atraso filha, eu e seu irmão estávamos fazendo o jantar para você e sua mãe – Diz animado.
– Está tudo bem, papai. – Me inclino, dando um beijo em sua bochecha.

Papai para o carro em frente de casa e descemos, caminhando até a porta devagar, conversando sobre o que faremos nas próximas férias.

Assim que chegamos a porta, escutamos vozes como se tivesse tendo uma discussão. Poxa.

Olho para o papai desejando que ele não visse isso. O magoava muito a minha mãe não se dar totalmente bem com Harry.

Giro a maçaneta e entramos em casa, os gritos estão mais altos.

– Você é um desastrado igual o idiota do seu pai! – Era a voz da minha mãe. Aí não. Olho para papai que está com a cabeça baixa.

– Chegaram! Bem na hora do show dela! – A voz do meu irmão ecoa na casa quando ele nota nossa chegada. Uma das coisas que não gosto em Harry é que ele costuma falar gritando.
– Droga! Ivan, eu não quis dizer aquilo... – Minha mãe chega até nos com a expressão triste. Eu acreditava no seu arrependimento mas era chato já saber que ele é temporário.

Amanhã ela trata meu pai mal de novo e fica nesse ciclo vicioso eterno.

– Está tudo bem, querida, como foi o trabalho? – Meu pai finge que isso não o afeta, minha mãe abre um sorriso radiante e só diz que foi estressante. Ela não se importava minimamente se ele estava bem de verdade com a situação que ela própria criou.

Adentramos a cozinha vendo do que ela estava falando.

Harry derramou um pouco do bife à Parmegiana que prepararam.

Lavo minhas mãos e sigo meu pai em fingir que está tudo bem.

Me sento á mesa e me sirvo juntamente com todo mundo.

– Consegui mais um contrato! – Harry anuncia, meu pai abre o sorriso mais grande do mundo e até mesmo minha mãe.
– Meus parabéns, Harry! E me desculpe por... – Minha mãe pede, como sempre. Na próxima visita dele, ela faz tudo de novo.
– Está tudo bem, mãe – Ele força um sorriso. Harry perdeu a mãe no seu nascimento, então não foi muito difícil para que ele começasse a chamar minha mãe de mãe.

– Parabéns meu filho! – Meu pai o parabeniza. E eu aproveito a deixa para parabeniza-lo também.

– E como anda a faculdade? Elowen? – Harry me pergunta, e eu empurro outro pedaço de bife para a boca, para ganhar tempo no que responder.

Todos me olham ansiosos para a minha resposta. O ruim é que eles todos realmente se importam com o que acontece, o que me forçava a continuar sendo perfeita.

– Bem, está tudo bem, as aulas são legais! – Respondo.
– Já teve aulas com o professor Alesso? – Engasgo com a comida, bebo a água rapidamente.
– Filha! Cuidado! – Minha mãe me olha com repreensão.
– Sim – Respondo.
– Você vai gostar muito dele, a metodologia de ensino dele é parecida com a que você gosta de aprender, tem muitos textos e afins! Além de toda a parte dramática de artes! – Harry diz animado.

– Alesso? – Minha mãe pergunta, olhando para nós dois.
– Sim, o professor de Literatura Dramática! – Harry responde, levando uma garfada á boca.

Minha mãe respira fundo e parece ficar desconcertada.

– Já conheci alguém com esse nome... – Fala pensativa, noto meu pai olhar para ela e baixar a cabeça. Levando a comida á boca.

Nesse exato momento o telefone dela começa a tocar.

– É do hospital, tenho que atender! – Diz com a boca cheia, e lá se vai outro jantar que era para ser em família. Ela levanta da cadeira e em passos rápidos, vai para longe da mesa.

ALESSOOnde histórias criam vida. Descubra agora