Aperto meus olhos pra imagem no computador e então olho pra Garcia. Depois pra imagem de novo.
— Eu perdi algo ou...
Garcia pisca seus enormes olhos de volta pra mim e eu respondo confusa:
— Não têm ninguém nessa foto!
— Exatamente! - exclama Spencer — É uma câmera presa a algum dispositivo, Anne. E parece ter sido feito em casa e colado com fita adesiva...
— Eu realmente tive esperança de descobrirmos quem é esse stalker - respondo desanimada.
— Na verdade, consigo montar um perfil usando essas informações e a análise da escrita dos bilhetes que a pessoa te enviou.
Spencer pula da cama e traz o que parece ser cópias impressas dos bilhetes que recebi.
Ele passeia seus dedos sobre os bilhetes, faz o que parecem ser anotações mentais e balbucia algo pra si mesmo.
— Nós devemos falar... - sussuro pra Penelope
— Shhh - ela me interrompe no mesmo tom- o gênio ta trabalhando. Nessa parte a gente só observa.
Spencer finalmente volta sua atenção pra nós e começa a explicar o que ele deduziu:
— Nosso unsub é um homem. Provavelmente entre os 20 e 30 anos, considerando o modelo da câmera e o protótipo de mini carro elétrico que ele usou pra movimentá-la. Pelo texto que ele citou, acredito que nasceu num lar católico/cristão onde a religião era a base, apesar dele próprio não ser praticante.
No primeiro bilhete, ele faz uma alusão a cidade fiel. Você é essa cidade Anne.
— Eu o que? - pergunto confusa.
— Meu palpite é que essa pessoa te conhece de perto. Ele te admirava, te via como uma mulher justa e esforçada, mas vê-la se envolver comigo está quebrando essa visão.
Na verdade, ainda acredito que ele a admira.
No segundo bilhete ele usa o versículo "Mas, se nós tivéssemos o cuidado de examinar a nós mesmos, não receberíamos juízo."
Acho que ele ainda espera que você volte atrás da decisão de ficar comigo e se não fizer, ele se colocará na posição de juíz e tentará tomar uma atitude ele mesmo.
Eu tento absorver toda a informação nova que recebo.
— Então alguém tem uma queda por mim e se deu a todo esse trabalho? Não seria mais fácil tentar conversar comigo?
— Não acho que seja tão simples minha querida... - diz Penelope num tom tranquilizador.
— Esse unsub sente algo por você, uma paixão talvez. Mas honestamente... não acho que seja o motivo principal pra ele ter começado tudo isso.
— Então o que seria?
— " Agora está cheia de assassinos" Ele fala de mim, Anne. Ele pode ter uma queda por você, mas acredito que sinta um ódio muito mais forte por mim.
———————————— ~*~————————-
Penelope se acomodou no quarto de hóspedes e Reid me convidou pra passar a noite aqui. Dei uma desculpa às gêmeas de que dormiria com uma amiga e aqui estou eu, ainda remoendo a análise que ele fez do meu stalker, que provavelmente é "nosso staker".
— Acha que consegue descobrir quem é?
— Vamos elaborar uma lista de pessoas próximas a você. E uma lista das pessoas que ajudei a por na prisão que foram soltos ou estão cumprindo pena fora. Depois vamos traçar algumas correlações e ver quem dessa lista se conecta a nós dois.
— Hum... - estou deitada em seus braços e me sinto segura e inquieta ao mesmo tempo. Uma palavra fica ressoando em minha mente e sou vencida pela curiosidade.
— Quando ele te chamou de assassino... não quis dizer isso mesmo, ne?
Reid desvia o olhar, seus olhos verdes se escurecem e ele reclina a cabeça na cabeceira da cama.
— Já participei de muitas missões difíceis Anne. Nem sempre fui apenas um conselheiro do FBI. Participei ativamente de algumas que foram complicadas. Em algumas situações ou eu deixava o criminoso atirar em um colega de equipe, ou eu atirava nele.
— Ah... - não conseguia imaginar Spencer puxando o gatilho pra alguém. Não gostava de violência, nem de armas, nem de assassinatos. Não gostava de ser perseguida por alguém também.
— Hey... - Spencer vira meu rosto para o dele ao perceber minha inquietação. Ele olha no fundo dos meus olhos, percebe minha respiração acelerada.
— O que houve com você?
Eu desvio o olhar. Não sei se devo contar a ele ou talvez...
— Você já me analisou ne? Imagino que já sabe.
— Eu tenho um palpite, mas se quiser, gostaria que me contasse a história- diz ele com uma voz doce, fazendo cachos nas pontas do meu cabelo.
Eu recosto a cabeça em seu peito novamente e respiro fundo.
— Meu pai... não era muito educado com minha mãe sabe? No início ele só se estressava com os amigos quando perdia as apostas idiotas. Depois o estresse começou a passar pra minha mãe e as discussões verbais se tornaram físicas...
Ele se endividou e colocou nossa casa como penhor. Quando menos imaginávamos, ele tinha fugido de casa com uma amante e nos deixado sem nada.
Ficamos em silêncio por um tempo. Minhas palavras faziam o ar do quarto parecer que pesava uma tonelada.
— Sinto muito Anne.
— É, eu também...
— Foi por isso que veio pra cá, concluir a faculdade?
Eu faço que sim com a cabeça.
— Minha mãe finalmente se estabilizou num emprego bom e eu consegui essa bolsa. Pude sair de casa, me dar ao luxo de pegar o seguro desemprego e com a ajuda da minha mãe, estudar um pouco mais. Com meu novo currículo sei que vou conseguir um emprego melhor.
— Se depender de mim, melhor nem vai chegar aos pés. Vou lhe escrever a melhor carta de recomendação já escrita nessa faculdade - diz Spencer e me abraça.
Eu sorrio contra sua pele.
— Eu vou cobrar tá? - falo brincando.
Ele beija o topo da minha cabeça, sua respiração fica mais compassada e percebo que ele está pegando no sono. O dia de gerar hipóteses e rever casos antigos com Penelope, além de fazer uma consultoria pro caso que a BAU estava trabalhando até quase meia noite finalmente trouxe o cansaço ao seu corpo.
Não posso dizer o mesmo de mim. Minha mente fica a mil, pensando em qual será o meu futuro
Se esse stalker realmente decidir ser um juiz e sua sentença for expor nosso relacionamento a toda a faculdade, o quanto isso me prejudicaria? O quanto prejudicaria Spencer? Deus sabe quantas coisas ele vai distorcer e contar na sua própria versão.
Eu me forço a fechar meus olhos e deixar essas perguntas pra Anne do futuro.
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Meu perfeito oposto
RomanceAnne se mudou para uma nova cidade após ganhar uma bolsa de estudos, mas enfrenta algumas dificuldades quando se vê atraída pelo seu professor de literatura, Spencer Reid. Enquanto Anne está quase falida e á procura de uma melhor condição de vida...
