A sala cheira a metal, tinta antiga e éter. Frascos fervem em silêncio, conectados por tubos e agulhas como veias expostas. Há uma simetria grotesca nesse laboratório; tão meticulosamente organizado que cada erro parece ter sido colocado ali com intenção.
E ele está ali. De costas. Dottore. Não o clone que vi em Sumeru. Nem uma ilusão. O original. Aquele cujo olhar atravessa qualquer mentira. Cujo a mente parece um abismo sem fundo.
- Veio sozinho. - Sua voz ecoou pelo teto de vidro fosco, sem se virar. - Você nunca vem sozinho.
- Achei que fosse isso que você queria.
Ele riu. Baixo. Quase com pena.
- Achei que fosse o que você queria, Viajante.
Me aproximei devagar. Ele está de usando luvas, mas estão manchadas. Não de sangue, dessa vez, mas de tinta negra, aquela mesma substância pulsante que parece responder às experiências dele como um cão fiel.
- O que está fazendo agora? Uma dissecação da esperança?
Ele finalmente se virou. E há algo errado no seu sorriso. Não é desdém. Não é loucura. É interesse.
- Estou estudando você.
Meu corpo enrijeceu.
- Eu?
- Sempre. Desde o primeiro momento. Sua resistência, suas memórias, sua luz... tudo que você é contradiz minhas leis.
Ele se aproximou, como um predador sem pressa.
- Você não é de Teyvat. Não deveria existir aqui. E, no entanto... - Ele ergueu a mão enluvada, roçando meus cabelos dourados como se eu fosse uma peça rara. - Você insiste em ser real.
O toque é sutil. Calculado. Mas me acendeu algo que eu não quero admitir, curiosidade.
- Então o que você quer de mim? Me estudar até me desmontar? Me aprisionar como um espécime?
Ele riu outra vez. E dessa vez, foi genuíno.
- Se eu quisesse te desmontar, você já estaria em frascos. Não, Viajante... - Seus olhos brilharam num vermelho vívido e antinatural. - O que eu quero de você é o que você mesmo esconde. Aquilo que nem sua irmã viu.
Me aproximei mais, inconscientemente. É como se algo aqui me puxasse. A promessa de ser compreendido.
- E se eu não quiser mostrar?
Ele sorriu de canto. Então, como um médico que tenta manter um monstro calmo enquanto afia a lâmina, ele sussurrou:
- Não se preocupe. Eu vou descobrir. Com ou sem a sua permissão.
O laboratório pareceu encolher a cada passo que eu dei em direção a ele. Dottore me observa com uma mistura de fascínio e impaciência, como se eu fosse um quebra-cabeça difícil demais, porém irresistível demais para desistir.
- Você se recusa a admitir, Viajante. - Murmurou, ajustando os óculos. - Que há algo em você que não pode ser explicado por meros genes ou magia.
Balancei a cabeça, tentando manter a postura, mas a verdade é que, a cada palavra dele, sinto um vazio crescer dentro de mim, uma fissura antiga que há muito tempo evito encarar.
- E o que é isso? - Questionei, encarando seus olhos tão brilhantes que quase doem.
- Sua humanidade. Ou o que resta dela. - Ele deu um passo à frente, a mão ligeiramente tremendo enquanto toca a minha testa. Um contato frio como gelo, mas que me provocou um arrepio estranho.
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Aether... haaa (+18)
FanfictionOne-shot Hot Só o Aether vivendo a vida dele, ficando com os outros personagens. Ocasionalmente comendo, outras vezes sendo comido. Minha preferência será por BL. Vou adicionar as tags conforme for adicionando os capítulos. Pedidos até o momento (23...
