Florescendo

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PERÍODO PÓS-APOCALÍPTICO

Eu sinto... nada. Absolutamente nada.

Depois de ter sonhado com as lembranças ao lado de meu pai, a única coisa que me sobrou foi apenas um vazio, um silêncio confortável.

Em um ritmo lento, meu peito sobe e desce tranquilamente, quase como se eu estivesse flutuando sobre as nuvens. Relembrar um dos meus momentos mais vividos ao lado do meu pai me fez reavaliar minhas decisões neste novo mundo. Sei que muitas das coisas das quais ele me ensinou, aconselhou e, principalmente, fez por mim, não poderiam funcionar em um mundo sem regras. Na verdade, é por isso que talvez possa servir como preceito para a peça que eu seja nesse mundo.

Penso sobre isso enquanto o cheiro de ferrugem entra pelas minhas narinas e meus olhos se espandem. Me sinto mais calma do que deveria, sei disso pois estou recobrando o que estava acontecendo antes de eu apagar.

Saber o que estive passando, compreender e, além de tudo, saber a dor que aquilo me causou, na verdade, não me faz me sentir enojada ou fraca. Surpreendente, me sinto focada, centrada em como posso lidar com certas situações daqui em diante.

Não quer dizer que eu sei a resposta para todas as coisas que este mundo tem para me sobrecarregar, mas ao menos sei por onde começar e, principalmente, por quem.

Sei que estou em casa, reconheço o teto da prisão e a sensação acolhedora.

Com calma apoio a mão na pia enferrujada para me observar no reflexo do espelho quebrado e sujo. Meus cabelos estão soltos, reconheço minhas próprias roupas, assim boa parte de quem é que está no reflexo no meu próprio olhar.

Por muito tempo eu temi essa pessoa, senti raiva dela. Porém, no fim das contas, não temos a responsabilidade sobre tudo, não desejamos ou colhemos tudo aquilo que nos é posto à prova. Agora, eu odeio menos o rosto machucado e despedaçado que reflete.

ㅡ Como se sente? ㅡ Por um momento me assusto com a voz, mas logo reconheço meu irmão entrar e vou rápido para um abraço reconfortante seu.

ㅡ Muito melhor com você aqui. ㅡ E era toda a verdade.

Com as lembranças de nosso pai tão vividas em minha mente, apenas consigo pensar o quanto Rick é parecido com ele. Seu jeito protetor e apoiador sempre estiveram destacados na nossa relação. E por mais que nos últimos dias essa relação esteja despedaçada por conta de erros meus, ele continua sendo a pessoa mais confio no mundo e sei que posso ser essa pessoa complicada por perto.

ㅡ Você que me trocou? ㅡ Me afasto para olhar-lo, porém continuo segurando sem seus braços.

ㅡ Imaginei que se incomodaria quando acordasse daquele jeito. ㅡ Ele está certo. ㅡ Diana, entendo se precisar de um tempo pra pensar, sozinha de tudo...

Eu sabia que ele iniciaria esta conversa, sabia que ele temia pela minha sanidade. Por todos nossos anos eu fui essa pessoa instável na vida dele. Seja de quando eu passava meses sem me alimentar ou alguma recaída na automutilação que o fazia passar horas na estrada para voltar para casa e cuidar de mim. Rick sempre teve um cuidado a mais comigo por diversos outros aspectos, e eu sabia que isso não mudaria mesmo com quase quarenta anos e em um mundo repleto de outras preocupações.

ㅡ Não estou bem, Rick. Isso é um fato. Eu nunca estive cem porcento bem minha vida toda, sempre houve uma situação que fosse me deixar negativa, afinal isso faz parte de quem eu sou. ㅡ Digo calmamente, vendo-o se sentar e me observar com atenção. ㅡ A diferença é que eu não preciso mais me prender a isso. Não vou me afastar de você, não vou te fazer ficar longe como antes, eu prometo. Mas eu quero que entenda que, agora, tudo que eu preciso é resolver a dívida que o governador tem comigo. Vou fazê-lo se arrepender de ter cruzado meu caminho, isso é uma promessa.

Zombie Heart l • TWDHistórias para pegar e não largar. Descubra agora