Quem fica?
Eu fico, eu volto (quase sempre).
Não tenho lugar aqui, raramente tenho.
Por isso, fujo.
Fujo de casa, fujo de escola, fujo de cidades, fujo de país.
Viajo e fujo.
Fujo antes de ser esquecida,
Antes de ser lembrada.
Fujo para ser conhecida -
Quiçá, ser recordada.
Sou eu quem não esquece:
Vozes, sorrisos, olhares, palavras.
Eu guardo tudo (cada decepcão).
Tudo guardado dentro de uma caixa de cartão:
As pessoas, os lugares, as saudades.
Que falta que sinto de ti, sejas tu quem sejas.
Que falta sinto de nós, fôssemos nós quem fôssemos.
Tudo guardado, para mim.
E regresso sempre.
Àquela casa, àquela cidade, àquele clube
Àquelas pessoas.
Procuro os sorrisos, procuro as lembranças
Forço as palavras e evito a mudança.
Sinto-me gelada, quem me dera ficar para sempre.
E volto a casa, volto diferente
E falo outras línguas, aprendo a jogar
Finjo que não entendo, finjo entender
Prometo voltar (mesmo sem saber)
Choro na despedida,
Dói tanto no fim
De mãos dadas, e tudo o que foram para mim.
Tento que não doa
Tento regressar sem pensar em partir,
Como se não fosse um fim
Seria tão mais fácil,
Se houvesse inúmeras de mim
Umas para aqui,
Outras para ali
Todas vazias
Todas completas
Aproveitando cada mundo, sem pressa
Mas não é possível,
Já não seria real,
E despedaçado-me sempre
A cada outro final
Perco-me por linhas
Desfaço-me na água
E a cada inverno
Sinto-me tão gasta.
No fim, ficam os amores,
Em cartas escritas à mão,
Tatuados com imagens,
Saudades e regressão.
Será certo deixar ir?
Ou forçar o que não vai ficar?
Mais uma vez sinto-me a cair
Novamente a desmoronar.
E Mergulho.
Está frio, tudo silêncio.
Não vejo nada, não sinto nada.
Que fosse sempre assim, um vazio gelado.
Quem me dera ter sempre a opção de chegar à superfície e sentir o sol.
Apesar do vazio, por vezes fico.
Fico eu guardada na caixa de alguém:
O meu perfume, os meus olhos, a minha voz.
E por vezes decidem abrir a caixa para confirmar se ainda lá estou.
E tentam tirar-me, para apanhar sol.
E nesta vida, eu quero apenas apanhar sol.
Calar o vazio.
Então não sei quem fica, não sei quem me guarda.
Mas eu guardo tudo e espero que seja mútuo.
Estão na minha caixa de cartão.
A metáfora que uso, para dizer: coração.
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Vida Em Versos
Poetry"Poesia é quando as emoções encontram o pensamento e quando o pensamento encontra as palavras." *Coletânea que inclui TODOS os poemas que escrevi. Estes aparecerão, no entanto, em outros livros, separadamente, divididos por categorias.
