Regresso

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Regresso — 
como quem se esqueceu de partir, 
com os pés assentes no passado 
e os olhos focados num futuro que nunca veio.

Como se ainda houvesse um nome por chamar, 
um gesto por cumprir, 
um silêncio por quebrar.

Mas esta cidade… 
não é minha. 
Nunca foi. 
Nunca será. 
Já levei tudo o que havia, 
restam ecos, 
ruas gastas, 
memórias a desfazerem-se em pó.

E todos partem, 
ou serei eu quem os afasta? 
Tentei. 
Tantas vezes tentei. 
Mas só me restaram ausências 
e promessas que se recusam a morrer.

Já nem sei o que me falta. 
Nem o que me sobra. 
Sou uma sombra a perder-se na própria sombra, 
sou o início e o fim 
confundidos num mesmo instante.

Espero. 
E espero. 
Mas nada muda, 
nada se move. 
Tenho as mãos cheias de nada 
e o peito cansado de tentar.

Estou só — 
como sempre estive. 
E talvez, 
sempre esteja.

Gostava de ser amada. 
Mesmo que apenas por instantes. 
Gostava de acreditar 
que ainda existe um lugar onde pertenço, 
mesmo que seja breve.

Por favor — 
que tudo faça sentido. 
Que não doa tanto regressar. 
Que não precise de partir sozinha, 
outra vez.

Vida Em VersosOnde histórias criam vida. Descubra agora