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Julia acordou com o que achou ser a campainha, e Luca não estava mais lá. Aquilo a irritava um pouco, mas as fugas matutinas dele já estavam acostumando. Procurou suas roupas pelo chão e estavam todas dobradas em cima da cadeira do quarto. Nem ela arrumava as próprias coisas direito daquele jeito. Foi uma graça da parte dele. Vestiu o pijama jogado junto das roupas do dia anterior na cadeira, e viu o bilhete na cabeceira.

"Me encontra hoje no Celsius umas 7, pra gente ir de lá caminhar pela cidade.
Espero que você venha. Até lá, tudo vai estar bem.
Obrigado por tudo, Juju.

<3 Lu"

Ela sorriu como boba lendo e relendo o bilhete. A noite anterior tinha sido um alívio tão grande. Conversar com ele e entender o que acontecia com ele e a ex de verdade, poder abrir o coração também.

A campainha tocou de novo. Ela olhou no olho mágico e sentiu a tensão voltar por todo o corpo. Diego estava parado na porta. Ela abriu, e imediatamente cruzou os braços.

- Oi.

- Oi Ju, tudo bem? - ele disse, desviando dela e entrando no apartamento.

- Claro, entra, fica a vontade.

- Desculpa, era pra ficar parado no hall?

- Não, mas você podia avisar quando for aparecer. O que você quer, Diego?

- Umas duas camisetas que eu esqueci numa gaveta. E falar com você.

- Qual gaveta? Eu pego pra você.

- A gaveta debaixo da cama. - ele sentou no sofá, espalhado, como fazia quando morava lá.

Ela foi para o quarto, e achou as duas camisetas na gaveta. Nem tinha mexido no espaço livre desde que ele saiu de casa. Um alívio passou por ela ao perceber que o nó na garganta não existia há uns dois dias, e ela nem tinha percebido. A vontade de organizar suas roupas por todo aquele espaço livre também lhe deu uma calma, de que talvez estivesse melhorando.

Trouxe as camisetas para a sala, e entregou para Diego. Ele colocou de lado e enterrou o rosto nas mãos.

- O que foi?

- Então, eu preciso falar com você sobre a grana do empréstimo.

Julia respirou fundo. A vida nunca tá boa. Você respira ar livre, um pombo caga na sua cabeça. Puxou a cadeira da sala para sentar de frente pra ele.

- O que tem a grana?

- Eu fiz as contas, e não acho que consigo continuar te pagando.

- Você não pode continuar pagando. O empréstimo que eu fiz na minha conta pra você. Que nenhum centavo ficou pra mim.

- Eu sei, Ju, por isso queria falar com você pessoalmente. Eu sei que o dinheiro foi pra cobrir minha conta e pra pagar meu notebook e celular. Mas sei lá, não posso te dar meu notebook pra pagar o que falta?

- Falta um ano e meio de empréstimo, nem vendendo seu notebook eu conseguiria pagar.

- Então imagina se eu consigo. Eu ganho mal, você ganha super bem. Não pode quebrar essa?

- Diego, você tá tirando uma com a minha cara? Não importa quanto eu ganho, eu tenho uma casa pra sustentar sozinha agora, é uma dívida que não é minha. Vai tomar no cu, cara.

- Julia, pra que isso? Eu não posso pagar, é simples assim.

- Então eu pago por você, e vai ser isso aí? E eu que me vire? - ela estava gritando, e só percebeu naquele momento. Se acalmou e voltou a falar normalmente. - Diego, vamos falar em termos que você entenda. Eu não vou assumir uma pica que não é minha. Caguei se você não pode, você vai.

- Senão o que? - ele falou, em um tom quase ameaçador. Aquilo não era uma conversa, era um aviso. Julia olhou para o teto, derrotada. Podia passar o dia brigando. Podia pedir pra algum amigo comer ele de porrada. Léo até já tinha se oferecido. Mas não valia a pena.

- O notebook tá aí?

- Tá. Já formatei e tudo. - ele abriu a mochila e tirou o Mac quase novo.

- Que bom que você veio preparado. Pode me dar então. E eu me viro. Com uma condição.

- Diga.

- Some da minha frente, e não volta nunca mais. Você me traiu, mentiu pra mim nhenhentas vezes, e agora vai me foder com uma dívida ridícula. Que sim, acho que eu posso pagar. Mas não precisava. Você é um grandissísimo filho da puta, Diego. Você é um bosta. Volta pra casa da sua nova namorada, coitada dela, e some. - ele olhou com dó pra ela. Podia ele achar o que quisesse.

- Tá bom, Julia. - ele levantou e ela continuou sentada na cadeira. Ele pegou as camisetas, enfiou na mochila. - Só porque tem namoradinho novo já se acha no direito de me falar merda.

- Do que você tá falando?

- Por favor, não se faz de sonsa. Eu encontrei um cara que eu conheci no Celsius como namorado de uma menina que tá trabalhando no bar agora, bem na porta do prédio. Ele não me viu, mas tinha certeza que ele tinha saído daqui. Sua cara só me confirmou.

- E se foi, qual o problema?

- Nenhum, pega o otário que você quiser. Mas ele é um ridículo, e não pára de babar na loirinha do Celsius. Você só vai quebrar a cara.

- De novo, como quebrei com você?

- Julia... - ele bufou e caminhou até a porta. - Faz o que quiser aí da sua vida, só to dando um toque.

- Pode tocar suas trouxas pra fora daqui, melhor coisa que você faz.

Ele olhou novamente com dó, e saiu. Julia não resistiu e bateu a porta na cara dele, que aguardava como se ela fosse ficar o olhando ir embora até o elevador chegar.

Ela achou que fosse chorar. Que fosse precisar de mais um copo de vodka tosca, que ainda não tinha guardado no armário e continuava na pia da cozinha. Mas nada. Sentiu alívio. Puxou o celular e começou a pesquisar quanto conseguia vendendo o notebook. Podia dar uma aliviada na dívida, negociar no banco. Talvez não desse, mas ela via isso depois. Foi até o quarto se sentindo mais leve e cochilou até a hora de tomar banho e se arrumar. Ela tinha uma longa noite pela frente.

Julia chegou um pouco antes do horário no Celsius, esperando encontrar o Léo por lá, uma vez que ele não estava nos melhores dias também. Um frio na espinha passou por ela ao lembrar de todas as merdas que Diego tinha dito. E quando chegou na porta do bar, avistou Luca na esquina da rua. Ele estava de mãos dadas com Ceci. Ele parou, ela apertou a bochecha dele. Eles se abraçaram, e Luca beijou o rosto dela, e eles voltaram a andar até o Celsius de mãos dadas.

Cada ação doía mais em Julia. Ele não tinha conseguido.Ele tinha escolhido Ceci. E ela estava lá para testemunhar tudo.

Julia sabia, no fundo do seu coração, que não tinha chances reais, e que Diego tinha razão. Ceci era incrível, e se ele passou anos e anos preso nela, não ia mudar agora. Mas como doía. Ele se aproximou, e sorriu para ela, enquanto Ceci só acenou e entrou no bar.

Ela queria ser fofa, queria falar na boa, mas tudo que saiu foi seu jeito venenoso.

- Sabe, Luca, uma vez me disseram que a cretinice de todo mundo aparece um dia. Agora é a sua hora?

How To Fight LonelinessHistórias para pegar e não largar. Descubra agora